Do nada,
vem o silêncio que nos ensurdece.
É o momento
que o poeta descansa.
É o tempo que poucos ouvem,
do silêncio.
pedra atirada n´água
estrela caindo do céu
letras, brincando, sem véu.
O surgimento consolidado,
como cimento.
Mas, antes de existir luz e escuridão,
houve o silêncio, sem permissão.
houve o silêncio.
sonífero do tudo…
das pedras
das estrelas
das letras.
Quando se foi o silêncio
intruso passageiro
se foi o ouvir.
Do tudo,
vem o som que nos emudece.
Sandra Barbosa
Outubro 21, 2009
Silêncios
Do nada,
vem o silêncio que nos ensurdece.
É o momento
que o poeta descansa.
É o tempo que poucos ouvem,
do silêncio.
pedra atirada n´água
estrela caindo do céu
letras, brincando, sem véu.
O surgimento consolidado,
como cimento.
Mas, antes de existir luz e escuridão,
houve o silêncio, sem permissão.
houve o silêncio.
sonífero do tudo…
das pedras
das estrelas
das letras.
Quando se foi o silêncio
intruso passageiro
se foi o ouvir.
Do tudo,
vem o som que nos emudece.
Sandra Barbosa
Outubro 9, 2009
Presente
Ain’t Got No / I Got Life – Nina Simone |
|
| Ain’t got no home, ain’t got no shoes | Não tenho casa, não tenho sapatos |
| Ain’t got no money, ain’t got no class | Não tenho dinheiro, não tenho classe |
| Ain’t got no skirts, ain’t got no sweaters | Não tenho roupa, não tenho suéteres |
| Ain’t got no faith, ain’t got no beard | Não tenho fé, não tenho barba |
| Ain’t got no mind | Não tenho mente |
| Ain’t got no mother, ain’t got no culture | Não tenho mãe, não tenho cultura |
| Ain’t got no friends, ain’t got no schooling | Não tenho amigos, não tenho escolaridade |
| Ain’t got no name, ain’t got no love | Não tenho nome, não tenho amor |
| Ain’t got no ticket, ain’t got no token | Não tenho passagem, não tenho ficha telefônica |
| Ain’t got no God | Não tenho Deus |
| What have I got? | O que eu tenho? |
| Why am I alive anyway? | Porque eu estou viva? |
| Yeah, what have I got? | Sim, o que eu tenho? |
| Nobody can take away | Ninguém pode se livrar disso |
| I got my hair, I got my head | Tenho meu cabelo, tenho minha cabeça |
| I got my brains, I got my ears | Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas |
| I got my eyes, I got my nose | Tenho meus olhos, tenho meu nariz |
| I got my mouth, I got my smile | Tenho minha boca, tenho meu sorriso |
| I got my tongue, I got my chin | Tenho minha língua, tenho meu queixo |
| I got my neck, I got my boobs | Tenho meu pescoço, tenho meus seios |
| I got my heart, I got my soul | Tenho meu coração, tenho minha alma |
| I got my back, I got my sex | Tenho minhas costas, tenho meu sexo |
| I got my arms, I got my hands | Tenho meus braços, tenho minhas mãos |
| I got my fingers, Got my legs | Tenho meus dedos, tenho minhas pernas |
| I got my feet, I got my toes | Tenho meus pés, tenho meus dedos dos pés |
| I got my liver, Got my blood | Tenho meu fígado, tenho meu sangue |
| I’ve got life, I’ve got my freedom | Tenho vida, tenho minha liberdade |
| I’ve got the life | Tenho a vida |
| I got a headache, and toothache, | Tenho uma dor de cabeça e dor de dente |
| And bad times too like you, | Momentos ruins como você |
| I got my hair, I got my head | Tenho meu cabelo, tenho minha cabeça |
| I got my brains, I got my ears | Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas |
| I got my eyes, I got my nose | Tenho meus olhos, tenho meu nariz |
| I got my mouth, I got my smile | Tenho minha boca, tenho meu sorriso |
| I got my tongue, I got my chin | Tenho minha língua, tenho meu queixo |
| I got my neck, I got my boobies | Tenho meu pescoço, tenho meus seios |
| I got my heart, I got my soul | Tenho meu coração, tenho minha alma |
| I got my back, I got my sex | Tenho minhas costas, tenho meu sexo |
| I got my arms, I got my hands | Tenho meus braços, tenho minhas mãos |
| I got my fingers, Got my legs | Tenho meus dedos, tenho minhas pernas |
| I got my feet, I got my toes | Tenho meus pés, tenho meus dedos dos pés |
| I got my liver, Got my blood | Tenho meu fígado, tenho meu sangue |
| I’ve got life, I’ve got my freedom | Tenho vida, tenho minha liberdade |
| I’ve got life, I’m gonna keep it | Tenho a vida, vou conservar isso |
| I’ve got life, I’m gonna keep it | Tenho a vida, vou conservar isso |
Setembro 18, 2009
Mi Cumpleaños
Diviérteme el día de mi cumpleaños, porque nunca volverás a ser tan joven. Pero tengo cuidado, porque nunca has sido tan viejo. Feliz Cumpleaños a mi.
εїз
“Ser disponível a vontade do outro é saber-se desnecessária”
εїз
Completando hoje 39, certa ainda de que a frase acima é a minha verdade pessoal.
Setembro 17, 2009
Caminhando pelo Bairro Gótico – Barcelona – set.2009
As praças - como a da imagem abaixo que fica frente a uma Igreja - são amplas (afinal para queimar seres humanos em fogueiras em praça pública faz-se necessário espaço, muito espaço). Já as ruas, de pedra, têm no máximo um metro e meio de largura, não passam carros. As construções, também em pedra, imponentes. Gárgulas, muitas gárgulas e quimeras nos tetos – dizem que serviam como “guardiãs”, protegendo das influências maléficas os locais onde estavam implantadas e também para embelezar os orifícios por onde as águas escorriam dos telhados para o chão. Sombra, muita sombra… Cantos e escadarias. Detalhes esculpidos pela mão humana há mais de 9 séculos atrás. Muitos detalhes. Igrejas . Muita gente circulando durante dia e noite, sem parar. Imagino como deve ser a paisagem sem gente nas ruas, no escuro. Fecho os olhos e vejo. Tudo ermo, silencioso. Um bom cenário para castigos, a Idade Média…

Agosto 26, 2009
Essa semana fui à Polícia Federal buscar meu passaporte e à casa de câmbio adquirir os euros necessários. Dentro do táxi, tocava essa canção. Fechei os olhos e a enxerguei. A enxerguei como um filme. O filme da minha existência.
Você vai me Seguir
Composição: Chico Buarque
Você vai me seguir aonde quer que eu vá Você vai me servir, você vai se curvar Você vai resistir, mas vai se acostumar Você vai me agredir, você vai me adorar Você vai me sorrir, você vai se enfeitar E vem me seduzir Me possuir, me infernizar Você vai me trair, você vem me beijar Você vai me cegar e eu vou consentir Você vai conseguir enfim me apunhalar Você vai me velar, chorar, vai me cobrir e me ninar
Agosto 17, 2009
Reli esse livro, com olhos de D/s
“Obediência não é o suficiente. A não ser que uma pessoa esteja sofrendo, como você pode ter certeza que ela está obedecendo à sua vontade e não à dela? O poder está em infringir dor e humilhação. O poder está em rasgar mentes humanas em pedaços e colocá-las juntas de volta em novas formas escolhidas por você mesmo.”
Trecho extraído do livro 1984, de George Orwell
Agosto 1, 2009
Me esqueça
“Eu não sei dizer, nada por dizer… então eu escuto… Se você disser, tudo o que quiser…então eu escuto… lá, lá, lá, lá, lá, lá. lá, lá, lá Fala lá, lá, lá, lá, lá, lá. lá, lá, lá Fala Se eu não entender, não vou responder… então eu escuto Eu só vou falar, na hora de falar… então eu escuto… lá, lá, lá, lá, lá, lá. lá, lá, lá Fala lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá Fala” (Secos e Molhados)
Fala-se de tudo, fala-se de todos. Fala-se do que não se viu. Fala-se do que não se sabe. Fala-se do que se fantasia. Fala-se do que se acha que aconteceu. Fala-se de confissões feitas em confiança. Fala-se. Vento. Espalha. Esquece. Cala!
Julho 31, 2009
Barba Azul

Era uma vez um rico cavalheiro que adquiriu muitas propriedades espalhadas ao longo de vários reinos. Ele viajava muito de um lugar para outro, jamais permanecendo por muito tempo num local, para que ninguém soubesse exatamente onde residia nem o que fazia ou com quem. Por isso havia muita curiosidade e especulação sobre ele.
Essas circunstâncias eram agravadas por seu aspecto, que parecia confirmar sua aparente excentricidade, pois ele era tão desafortunado que possuía uma barba azul. Seu misterioso estilo de vida, aliado à sua aparência peculiar, depunha contra ele de modo provavelmente injusto e o reputava como dono de um caráter duvidoso. Seu sobrenome foi esquecido e ele era conhecido simplesmente como Barba Azul.
A misteriosa vida de Barba Azul era assunto habitual das conversas entre vizinhos de suas inúmeras mansões, castelos e propriedades, e, como as histórias contadas sobre ele, sua reputação se tornava mais e mais escandalosa. De fato, acreditava-se firmemente que Barba Azul possuía tantas propriedades exclusivamente para abrigar inúmeras esposas. Mas, como elas não apareciam, ficava estabelecido que tinham sofrido alguma tragédia. Ninguém sabia dizer ao certo quem eram as mulheres. No entanto, as damas se retraíam de medo sempre que Barba Azul se aproximava.
Acontece que uma das vizinhas de Barba Azul era uma viúva com duas filhas adultas. Ao visitar sua propriedade naquela região, Barba Azul notou as filhas e, logo depois, revelou à viúva seu desejo de se casar com uma delas, deixando que as próprias moças escolhessem com quem seria. Porém, diante da oferta de Barba Azul, as filhas da viúva o passaram repetidamente uma à outra, já que nenhuma das duas gostava da idéia de ter um marido de aspecto tão medonho e passado tão duvidoso. Assim, elas o recusaram seguidamente, até que Barba Azul, no empenho de ganhar a afeição de uma ou de outra, as convidou para um de seus castelos distantes. Elas logo aceitaram, pois estavam curiosas por saber como vivia Barba Azul e averiguar se eram verdadeiros os boatos sobre sua fortuna extraordinária e suas excentricidades.
Então a viúva e suas duas filhas, junto com um grupo de amigos íntimos, foram se hospedar no castelo de Barba Azul. Todos permaneceram como convidados um mês inteiro, período que transcorreu com inúmeras festas, belos jantares e outros tipos de divertimento que ninguém queria que acabasse, muito menos as filhas da viúva. Aliás, a visita correu tão bem que a irmã mais velha começou a achar que Barba Azul já não era tão temível de ser olhado, e até sua barba já não parecia tão azul.
Pouco tempo depois, Barba Azul e a filha mais velha da viúva estavam casados. E, apesar dos boatos sobre ele, sua noiva encontrou um marido amável e atencioso, que não economizava para prover todos os seus desejos. Ela ingressou contente em sua nova vida com ele.
Porém, como todos que já foram casados sabem, há muita coisa que não se descobre sobre o outro até um bom tempo depois do casamento. Certo dia, a esposa de Barba Azul descobriu isso, quando o marido se preparava para partir rumo a uma longa viagem que o manteria afastado por pelo menos uma semana, cuidando de negócios. Ela estava decepcionada pelo fato de o marido se ausentar tão rápido após o casamento, mas Barba Azul logo lhe sugeriu que se divertisse, dando festas e enchendo o castelo de convidados. Deu-lhe uma argola com muitas chaves que abriam todas as portas dos cômodos, dando acesso a todos os pertences em seus interiores, de modo que ela tivesse qualquer coisa que seu coração desejasse.
Mas, subitamente, a fisionomia de Barba Azul ficou séria. Ele apontou para uma chave pequenina, de aparência estranha, presa à argola. Ao mostrar a chave à esposa, Barba Azul explicou que era da porta de um pequeno cômodo no final do corredor, no andar térreo do castelo. Sem maiores explicações, Barba Azul proibiu terminantemente que ela usasse a chave e entrasse no cômodo, alertando-a que sofreria imensamente caso o desobedecesse. Apesar de suas repetidas tentativas para saber a razão dessa proibição, ela nada conseguiu. Ela olhava a pequena chave enquanto o marido se despedia carinhosamente.
É de se pensar que a esposa de Barba Azul estivesse ávida por chamar seus amigos e dar uma grande festa, mas, na verdade, enquanto via a carruagem do marido se afastar através da janela, ela foi tomada pela curiosidade de saber o que havia no quartinho no fim do corredor térreo do castelo. E, de fato, a pobre dama não conseguia pensar em mais nada, tornando-se totalmente incapaz de encontrar prazer nos inúmeros luxos que estavam diante dela.
Levando a chavinha até o quarto proibido, ela ficava de um lado para o outro dos longos corredores do castelo de Barba Azul, refletindo sobre o aviso dado pelo marido. A certa altura, ela se viu em pé na soleira da porta do quarto no qual sua entrada fora proibida. -Preciso dar uma olhada aí dentro, ou não terei paz – ponderou ela.
Sem pensar mais sobre o assunto, ela cuidadosamente encaixou a pequena chave no buraco da fechadura e virou a maçaneta. Ao soltá-la, a porta se abriu, mas o quarto estava um breu, com as cortinas fechadas. Ela percorreu os bolsos em busca de fósforos e, ao achá-los, rapidamente acendeu um.
Ela deu um passo à frente assim que seus olhos, acostumando-se à escuridão, pousaram sobre uma mesa imensa. Havia algemas presas à mesa, com o propósito óbvio de prender alguém. Seus olhos se arregalaram.
Em outra parte do quarto ela viu uma corda grossa pendendo do teto. Mais ou menos no meio da corda havia uma algema e, logo abaixo, a corda se dividia em duas partes ligadas a outra algema presa ao chão. Numa parede próxima havia várias tiras de couro, de diversos comprimentos e larguras.
Ao olhar os objetos horrorizada, a esposa de Barba Azul subitamente lembrou dos inúmeros boatos que ouvira sobre as esposas anteriores do marido, todas supostamente mortas. De repente, lhe ocorreu que ele provavelmente as teria matado nesse mesmo quarto, já que, sob seu olhar inexperiente, os objetos que via ali não serviam para outro propósito.
Mas não havia mais tempo para pensar sobre a questão e, naquele exato momento o fósforo que ela segurava lhe queimou os dedos. Com um rápido gemido, a moça largou no chão o fósforo e a argola com as chaves, aterrorizada. Tremendo muito, ela apalpou em busca das chaves na escuridão e, finalmente após encontrá-las, saiu correndo do quarto proibido, passando pelo corredor, e entrou na primeira porta que encontrou aberta. Desabou numa cadeira.
Apavorada, ela lentamente foi recobrando a compostura. Dizia a si mesma que o marido não teria como saber que ela entrara no quarto – pois não tocara em nada. Pensando nisso, ela olhou o chaveiro e suspirou. Seria só sua imaginação, ou a chavinha do quarto proibido havia mudado? Sim, ela se tornara vermelho vivo!
Essa descoberta fez com que seu coração voltasse a disparar e, desesperada, ela pegou uma ponta de seu casaquinho e esfregou a chave vigorosamente, mas, apesar de todo o seu empenho, o vermelho não saía da chave. Depois de um tempo ela percebeu que se tratava de uma chave encantada e, se seu marido a visse, saberia que ela o havia desobedecido. Mas ela pensou:
-Se eu tirar a chave da argola, talvez Barba Azul acredite que ela se perdeu.
Ao pensar nisso, uma sombra escura recaiu sobre ela. Ao olhar para cima, ela viu ninguém menos que Barba Azul, em pé, à sua frente. Ela escondeu as chaves atrás de si e tentou desesperadamente parecer feliz ao vê-lo, mas ele podia ver em seu rosto, mais pálido que a morte, que ela entrara no quarto proibido.
Entretanto, Barba Azul não acusou a esposa imediatamente. Em vez disso, falou com ela de forma agradável, contando-lhe que, ao se aproximar da cidade, encontrara um mensageiro que vinha ao seu encontro para dizer que o negócio havia sido concluído de forma satisfatória, o que tornava sua viagem desnecessária. Ele explicou tudo isso amavelmente, porém a pobre esposa não saberia dizer nada do que fora dito, de tão preocupada que estava.
Mas, por fim, Barba Azul pediu gentilmente à esposa que lhe desse a argola com as chaves. Como você pode imaginar, a moça fez tudo o que podia para retardar a entrega, mas o marido não mudava de assunto, e ela acabou lhe dando as chaves.
Barba Azul as examinou cuidadosamente, depois lhe disse: – Por que a chave que a proibi de usar ficou vermelha?
Ao ouvir isso, ela explodiu em lágrimas e confessou tudo, implorando que o marido a perdoasse. Mas Barba Azul agarrou-a vorazmente, arrastando-a, propositalmente, até o quartinho no fim do corredor, dizendo: – Agora você irá conhecer seu próprio destino naquele quarto!
A pobre mulher suplicou ao marido por piedade, com lágrimas correndo por seu lindo rosto, de modo que o mais duro dos corações teria amolecido. Mas Barba Azul virou o rosto, destrancando o quarto rapidamente, forçando a esposa relutante a entrar, e entrando em seguida. Depois trancou a porta atrás deles.
A esposa de Barba Azul subitamente ficou em silêncio, aguardando, em pé, no quarto escuro. Sem qualquer dificuldade ou hesitação, Barba Azul logo acendeu uma lanterna e a colocou numa mesinha, próximo à mesa com as algemas. Depois se aproximou da esposa.
Ela prendeu a respiração completamente aterrorizada, enquanto Barba Azul levou a mão até seu rosto e suavemente o acariciou, antes de baixar as mãos até seu pescoço, cuidadosamente pegando abaixo da gola de lese de seu vestido. Ela apertou os olhos, pensando que ele a estrangularia naquele mesmo instante. E, extraordinariamente, algo dentro dela voltou à vida, ao toque do marido. Ela ainda o amava!
De uma só vez ouviu-se o ruído de um rasgo, e seu vestido foi arrancado e puxado, em pedaços. Depois foi sua roupa de baixo e, antes que seus olhos se acostumassem à luz fraca, ela se viu diante do marido sem um fiapo de roupa sequer. Ela sentia novas lágrimas brotando em seus olhos, ao lembrar o carinho com que ele a segurara nos braços, apenas horas antes. O fato de que ele poderia matá-la (o que acreditava que ele estivesse prestes a fazer) partia seu coração.
Barba Azul conduziu a esposa até a corda que a deixara pensativa instantes antes. Com grande habilidade ele prendeu seus punhos à algema central, ajustando-a de forma que os braços ficassem estendidos acima da cabeça. Depois prendeu as algemas dos pés ao chão, que tinham uma distância que lhe causava uma sensação constrangedora. Horrorizada demais para falar, ela permanecia aberta e esticada, muda e trêmula. Assim, após confiná-la, Barba Azul se aproximou da parede de onde pendiam as inúmeras cordas. Vendo que o marido as examinava criteriosamente, ocorreu-lhe o que seriam aquelas tiras de couro e como ele as usaria nela. Ao perceber isso, ela compreendeu também que sua vida não estava em perigo, mas ela estava apreensiva demais pelos horrores encobertos para que pudesse ter algum alívio. Ela começou a lutar com as amarras ao ver que ele escolhera uma tira negra grossa. Barba Azul se virou na direção da esposa dizendo: – Pelo grande amor que lhe tenho, você levará apenas trinta chicotadas.
Após um segundo de choque e silêncio, a esposa de Barba Azul começou novamente a rogar por clemência. Ele ignorou com a mesma calma e tom casual, prosseguindo um pouco mais alto para sobrepor seus gritos.
-Você irá contar as chicotadas à medida que eu as proferir. Se pular uma sequer, começarei do início. E também terá de aceitá-las por vontade própria, reconhecendo que as merece. Pode gritar, mas não poderá protestar, ou começarei novamente.
Logo após esse temeroso discurso, Barba Azul largou o chicote que voou brutalmente nas costas da esposa, pela primeira vez. Ela gritou e novas lágrimas brotaram em seus olhos.
-Começaremos novamente – foi a resposta cruel de Barba Azul e outra vez o chicote atingiu a carne de sua mulher. Dessa vez ela anunciou:
-Um!
Um instante depois outra chicotada a atingiu, e ela ouviu a própria voz gritar: -Dois! Choque e horror se misturavam à sua vergonha e, ainda assim, com o próximo golpe do chicote ela conseguiu gritar:
-Três!
Barba Azul continuou a investida, e a esposa obedientemente gritava o número correspondente de cada uma das dolorosas chicotadas. Sistematicamente, Barba Azul parava para perguntar:
“Quantas chicotadas ainda quer, meu amor?”, ou “Diga-me, quantas chicotadas ainda devo lhe dar?”, ao que ela era forçada a responder com a quantidade restante para completar as trinta chicotadas. De alguma forma ela conseguiu fazer tudo isso, apesar de sua pele ter tomado um tom de vermelho ardente, muito antes de terminarem os trinta golpes.
Quando ela finalmente suportou a contagem, o marido se aproximou e carinhosamente beijou-lhe o rosto e lábios. Apesar de agora saber que ele não a mataria, ela ainda pensava no que estaria por vir. Mesmo assim, se viu retribuindo seus beijos, em parte por alívio, em parte por uma necessidade nova e incompreensível que crescia dentro dela. Ela começou a dizer palavras profundamente suaves de perdão e amor. Mas Barba Azul afastou os lábios dos dela, repreendendo-a carinhosamente.
-Uma esposa amorosa não lança mão de algo que não lhe foi livremente dado pelo marido.
Barba Azul cuidadosamente soltou as mãos e os pés da esposa, puxando-a para seus braços, carregando-a até a mesa das algemas. Ele a colocou sobre a mesa com cuidado, posicionando seu corpo para que ficasse sobre as mãos e joelhos, com as pernas bem afastadas. Depois Barba Azul forçou sua cabeça abaixo, para a mesa, e colocou inúmeros prendedores ao redor de seu pescoço para mantê-la no lugar.
Ela estava profundamente humilhada e agitada pelo fato de suas partes mais íntimas estarem à mostra.
Horrorizada, ela percebeu que o marido caminhara até aquela ponta da mesa e a observava.
Ela sentia seu hálito morno em seu corpo quando ele se aproximou, depois algo macio e molhado tocou suas partes expostas. Ela levou algum tempo até perceber que era sua língua e gemeu de prazer e apreensão. Ele prosseguiu implacavelmente, até que ela ficasse incapaz de lutar contra os sentimentos de excitação que a tomavam. Ela relutava sob as amarras, no empenho de aumentar seu próprio prazer. Mas, pouco antes de atingir o clímax, o marido parou, deixando-a ansiosa e aflita. Ele repetiu esse processo várias vezes e, a cada uma delas, provocava sua submissão perguntando:
-A quem obedecerás desse dia em diante? -E, a cada pergunta, o que mais poderia ela dizer, além de prontamente reconhecer seu poder e obedecê-lo?
Barba Azul continuou provocando a esposa desta forma por um tempo que, para ela, pareceu uma eternidade. Porém, ele subitamente parou e caminhou até o lado oposto da mesa, posicionando-se diretamente em frente a ela. Depois lhe soltou o pescoço e ergueu-lhe a cabeça. Já estava com as calças abertas e sua excitação estava a apenas alguns centímetros de seus lábios.
Ela hesitou por apenas alguns instantes antes de entender o que ele tinha em mente. Depois o tomou vorazmente, sentindo um apetite feroz em satisfazê-lo de qualquer maneira que ele a deixasse. Ele a observava atentamente, enquanto ela se deleitava com o prazer que lhe proporcionava.
Ela o tomava em golpes cada vez mais fortes e rápidos, mas quando ele estava a ponto de explodir, ela recuou, da mesma forma como ele fizera com ela. Naquele instante os olhares se encontraram, e ela pôde ver a exigência silenciosa. Hipnotizada por seu olhar poderoso, ela arqueou o pescoço e, num gesto submisso, o tomou novamente, realmente o saboreando.
Ao terminar, Barba Azul voltou a colocar carinho samente a esposa sobre a mesa e prendeu seu pescoço como antes. Depois saiu da sala.
Ela aguardou seu regresso em total agonia.
Ele finalmente voltou, carregando um pequeno frasco. Mais uma vez se colocou ao pé da mesa. Ela esperava ofegante enquanto o marido preparava seu próximo ato.
Ela sentiu uma sensação fria adentrando seu corpo e relutou para se afastar, mas Barba Azul a aquietou, segurando-a firmemente com sua mão livre. Algo a estava perfurando! Algo terrivelmente frio!
Ela lentamente percebeu que só podia ser algum tipo de objeto volumoso feito de líquido congelado, por sentir a penetração aguda e subseqüente umidade, à medida que o objeto derretia.
O frio despertou-lhe os sentidos, tornando-os mais alertas, de modo que o desejo que ela sentia foi se tornando doloroso. Mas antes que a dor se transformasse em prazer, o objeto se dissolveu. Ela gemia queixosa enquanto o marido lentamente repetia o processo e ria de vez em quando de sua óbvia irritação. Mas ela não percebia nada além da deliciosa tortura entre suas pernas.
Isso continuou até que a esposa de Barba Azul ficasse febril e trêmula. Ao vê-la assim, ele parou subitamente a ação agonizante e voltou a deixá-la sozinha no quarto. Ela gemeu baixinho. Havia uma dor excruciante pulsando ao longo de seu corpo e a posição em que ela se encontrava tornava impossível eliminá-la. A dor pungente latejava entre suas pernas, alastrando-se lentamente por seu tronco e membros. Ela sabia que teria de esperar até que o marido quisesse aliviá-la. E esperou.
Barba Azul finalmente voltou ao quarto, trazendo consigo outro recipiente. Ela prendeu novamente a respiração, conforme o marido retomou sua posição.
Dessa vez foram as mãos de Barba Azul que ela sentiu, acariciando-a. Ela gemeu de prazer, mas, segundos depois, sentiu um calor ardente no local onde ele havia esfregado, e gritou de frustração. Barba Azul voltou a aquietá-la e a manteve firme, mas o movimento de sua mão ficava mais brutal, furiosamente a detendo, até que ela não sentia nada além da queimação do lugar onde ele friccionara. Mas essa dor também deu lugar ao prazer, e ela alternava entre gritos e gemidos, num instante tremulando os lábios violentamente, no intuito de fugir de seu carinho torturante, logo depois movendo os quadris de encontro às suas mãos para aumentar o prazer. Mas ele sempre parava quando percebia sua satisfação e, à procura do ungüento misterioso, ele reiniciava o processo, abrindo-a, forçando o calor profundamente dentro dela.
Finalmente, a pobre dama já havia suportado tudo que podia, e começou a chorar desoladamente. Desgostoso por ver a esposa tão infeliz e pensando que ela já havia sido suficientemente punida, Barba Azul rapidamente soltou-lhe os membros e a ergueu na mesa. Ele a segurou firme nos braços e beijou seu rosto molhado repetidamente, confortando-a com palavras amorosas. Mas ela continuava a soluçar.
Percebendo o que a esposa queria, Barba Azul logo a puxou para si, penetrando seu corpo latejante. Ele fez amor com ela suavemente, pelo tempo que ela quis. Eles permaneceram ali, na verdade, pelo restante do dia, e dessa vez ele a satisfez repetidamente, até que seu sofrimento fosse inteiramente esquecido.
Assim como esquecidas as suas promessas de obedecer o marido, me atrevo a dizer que eles voltaram a visitar aquele quarto outra vez!
Contos de fadas eróticos / Nancy Madore; tradução de Alice Klesck. -Rio de Janeiro: HR, 2007.
Tradução de: Enchanted: erotic bedtimes stories for women
ISBN 978-85-7687-385-3
Julho 30, 2009
A Bela e a Fera por Nancy Madore
Meu nome é Bela. É provável que você já tenha ouvido falar de mim. Minha história, ou melhor, a história que contam a meu respeito, já foi repetida inúmeras vezes. Mas nem de longe é a minha história. Os detalhes foram totalmente omitidos. Eu pensaria que, depois de ser repetida tantas vezes, alguém, ao menos uma vez, esbarraria na verdade. E talvez alguns de vocês tenham lido por entre as frases ilusórias e desconfiado da verdade, por mais inacreditável e chocante que pareça. Ou talvez a verdade seja realmente fantástica demais para se acreditar. Admito que há vezes em que eu mesma quase não acredito, e tudo parece um sonho distante.
De fato, parte do que foi registrado como minha vida é verdade, já que, para salvar a vida de meu pobre pai, concordei em viver com uma temível criatura, mais fera do que homem. Também é verdade que me apaixonei pela Fera. Quanto ao que aconteceu depois disso, os livros de história são bem precisos em sua apresentação da Fera que, diante de minha declaração de amor, foi liberta de uma maldição e voltou à sua forma original, como um charmoso príncipe. Nós nos casamos naquele mesmo dia.
Mas aí terminam as semelhanças entre a lenda que vocês leram e a minha incrível narrativa. Porque eu não vivi “feliz para sempre”, depois daquele dia.
Eu sinto falta de minha Fera.
Enquanto definho por entre os corredores desse castelo, meu pensamento sempre regressa ao primeiro dia que passei aqui. Foi com grande tremor que deixei meu quarto naquele dia, com muita cautela, seguindo pelos vastos corredores que serpenteiam por essa fortaleza. Apesar de toda a especulação sobre o assunto (motivo pelo qual não preguei os olhos na noite anterior), eu não podia imaginar o porquê de a Fera ter solicitado minha presença. Passei aquele dia sozinha, entrando e saindo dos cômodos, olhando os arredores desconhecidos, enquanto tentava adivinhar o que vinha pela frente.
Não se pode dizer que vim para esse imenso castelo da Fera contra minha vontade, pois eu estava um tanto ansiosa em deixar para trás a pobreza e o tédio de minha infância. Portanto, quando o dever me premiou com essa aventura, não fiquei totalmente insatisfeita.
Eu não poderia dizer como um castelo deveria ser, mas pareceu-me que tudo o que vi era exatamente como deveria. Ancestrais de aparência um tanto austera me olhavam desdenhosos nas molduras penduradas nas paredes. Outras paredes exibiam tapeçarias de piqueniques franceses, vinhedos italianos e outros encontros exóticos. A mobília era entalhada na mais fina madeira, os carpetes exageradamente grossos e coloridos. Resumindo, tudo era um tanto extraordinário em sua elegância e esplendor.
Naquele dia não tive a chance de encontrar a Fera, enquanto vagava pelo castelo. Em minha chegada, na noite anterior, ele instruíra um serviçal a me conduzir diretamente ao meu quarto, depois rapidamente me despedi de meu pai, e o vi carregar dois baús pesados em sua carruagem. Eram presentes da Fera, que ordenara que enchessem os baús de tesouros para meu pai levá-los com ele. Pensar em minha família abrindo os baús me proporcionou satisfação e calma.
Não saí de meu quarto durante o restante da noite, por mais que estivesse inquieta e sem sono. Pelas longas horas daquela noite silenciosa, até o começo do dia seguinte, pensei sobre o fim de minha vida antiga, enquanto seguia de um cômodo a outro, olhando tudo, minuciosamente, sem ver uma alma Viva.
o jantar foi anunciado com o tocar de uma campainha, e foi então que voltei a encontrar a Fera. Apesar de sua aparência horrível e de sua voz rude, fui felizmente surpreendida ao descobrir que ele era, de fato, um anfitrião encantador, pois passamos o primeiro jantar conversando amistosamente, acompanhados de comida e bebida que deleitavam o paladar.
Assim que a refeição terminou, a Fera se levantou, me inspecionando por um instante com seus olhos escuros, antes de perguntar:
-Aceita se casar comigo, Bela?
Encarei a Fera estarrecida. O que eu deveria fazer? Embora meu coração estivesse batendo forte, em estado de alerta para não enfurecê-lo, de algum modo consegui sussurrar:
-Não, Fera. A Fera acenou ligeiramente com a cabeça e disse: -Então está bem -num tom que indicava já
esperar essa resposta, depois se foi pelo corredor.
Aliviada por não ter provocado a Fera com minha recusa à sua proposta, também deixei a sala de jantar para me recolher.
Esqueci de descrever meu quarto? Não pense que foi por não valer a pena, pois era e ainda é o quarto mais bonito que encontrei nesse elegante castelo.
Na noite anterior, assim que entrei no cômodo, estava preocupada em reparar em tudo ao redor. No entanto, nessa noite, passei de uma coisa para outra, examinando a enorme variedade de objetos que haviam sido colocados ali para meu conforto, até que meus olhos pararam na cama extraordinária em que eu iria dormir. Ao longo dos dosséis altíssimos exibiam-se entalhes detalhados de imagens de animais, circundando as bordas e subindo até o alto, onde havia um homem coroado. Eu desconhecia o significado dos entalhes extraordinários que adornavam aquelas molduras de madeira, mas, mesmo assim, olhava-os atentamente, de forma que sua beleza não foi desperdiçada comigo, apesar de minha criação humilde.
Ao lado da cama havia um buquê enorme, com mais de cem flores cor-de-rosa, colocadas num vaso imenso na mesinha-de-cabeceira. E posso garantir que, daquele dia em diante, nunca mais houve uma noite em que eu entrasse em meu quarto sem encontrar um lindo buquê de flores recém-colhidas.
A roupa de cama era tão magnífica quanto tudo em que pousei os olhos naquele dia, e um arrepio de puro deleite me percorreu quando mergulhei nos lençóis de seda pura. Foi uma sensação tão prazerosa que fiquei momentaneamente tentada a tirar minha camisola. Em vez disso, lentamente corri as mãos pelos lençóis. Meus sentidos rapidamente mergulharam em sensações exóticas, influenciados por tanto luxo.
Fui surpreendida em meio ao encantamento, quando uma luz subitamente entrou pela porta do quarto.
-Quem está aí? -perguntei, sentando e trazendo os lençóis de seda até o pescoço.
-Apenas eu, seu servo, a Fera -foi a resposta gentil. Seu comportamento era tranqüilizador e agradável, tanto quanto temível a sua aparência.
-Pode entrar – respondi, mais calma.
A Fera abriu a porta do meu quarto, mas não passou da soleira. Através da luz fraca do corredor, pude ver claramente o perfil de seu corpo que, não fosse sua gentileza, seria assustador. Esperei que ele falasse.
-Eu apenas gostaria de saber se correu tudo a contento, minha dama – disse ele, permanecendo
do lado de fora.
-A contento? -repeti, subitamente entretida. -Minha nossa, não! ]amais me atreveria a descrever esses aposentos como “a contento”. -Sorri ligeiramente por minha piadinha e joguei para o lado as cobertas extravagantes, me esticando até a mesa de cabeceira para acender o lampião.
A Fera continuou em silêncio e me encarava, aparentemente estarrecido. Vendo sua expressão, percebi que minha súbita resposta provavelmente o teria insultado, e logo procurei consertar as coisas.
-Oh, Fera! O que eu quis dizer é que… bem, é lógico que tudo está a contento. Nossa, muito mais que apenas a contento! Foi isso que eu quis dizer, claro.
Mas algo estava terrivelmente errado. Era como se a Fera nem sequer tivesse me ouvido. Sem pestanejar, pulei da cama e me aproximei dele, empenhada em me explicar. Mas só consegui dar alguns passos até paralisar-me de terror.
Teria eu ouvido um rugido? Minha mente se alternava entre choque e descrença. Isso era impossível! E seus olhos tinham um brilho tão estranho. Ele ficou totalmente imóvel, como um animal pronto para atacar.
-Fera? -sussurrei, mais em tom de súplica, que de interrogação.
E ele subitamente se foi.
Ainda fiquei ali por uns instantes, procurando recuperar minha compostura. Olhei minhas mãos trêmulas e percebi que minha camisola era totalmente transparente, de cima a baixo! A luminária que eu havia acendido só serviu para realçar minha nudez sob o tecido!
Não vi mais a fera até o jantar do dia seguinte. Ele foi gentil e refinado, como tinha sido durante nossa refeição anterior. Sempre que nossos olhares se cruzavam eu corava e me arrepiava por completo, mas ele nunca deu sinais de perceber. Seu comportamento chegava a aliviar meus medos e suspeitas, e voltei a ficar à vontade, achando sua conversa agradável e amistosa. Depois ele se levantou e me fez a mesma pergunta da noite anterior, o que faria
a cada noite a partir de agora. – Bela, você aceita se casar comigo? Ao que eu sempre respondia: – Não, Fera. Nossa amizade desabrochou. Ainda assim, todo ruído que ouvia em meu quarto, à noite, me deixava ansiosa e sem sono, esperando, sobressaltada, aquela leve batida em minha porta.
Mas a Fera não voltou a se aventurar perto de meu quarto.
Fui eu que, numa noite de insônia, passei pelo quarto dele, a caminho da biblioteca, em busca de algo para ler. Ao passar ouvi um barulho, bem parecido com um gemido, vindo do outro lado da porta. Parei bruscamente.
Em seguida ouvi novamente o ruído. Logo soube que era a Fera e fui tomada de compaixão por ele. Estaria adoentado?
Sem pestanejar, bati à porta. Alguns instantes se passaram e bati novamente. -Vá embora -finalmente o ouvi dizer, em tom suplicante. -Não vou – respondi, determinada. -Não até ver que você está bem. -Silêncio outra vez. -Por favor – implorei, voltando a bater. -Apenas abra a porta e me deixe…
-Afaste-se da porta, Bela! -ordenou ele, de modo áspero. -Vá embora agora mesmo, ou estará em perigo! -seu tom era controlado, mas a voz parecia desesperada.
Muitas vezes fiquei pensando por que não o deixei naquele momento. Já disse a mim mesma que não poderia ter deixado um amigo em apuros. Que foi minha curiosidade que não me permitira partir. Já disse a mim mesma uma infinidade de coisas, mas acho que você também não vai acreditar.
Virei-me em direção à maçaneta e abri a porta do quarto da Fera.
Estava um breu. Dei alguns passos à procura dele, em meio à escuridão. Subitamente a porta bateu atrás de mim. Meus cabelos se eriçaram.
A escuridão foi lentamente revelando algumas sombras. Meus olhos percorriam o cômodo imenso freneticamente, buscando pela silhueta da Fera. Subitamente ouvi o ranger das argolas no trilho, quase me matando de susto, e a cortina pesada sendo puxada, deixando o luar entrar no quarto. Agora eu podia ver a Fera claramente, à medida que se aproximava. Também podia ouvir sua respiração descompassada e, então, notei que ele ofegava.
Minha respiração também ficou mais acelerada e eu tentava desesperadamente encher os pulmões de ar. Era como se o quarto imenso tivesse sido reduzido à metade ao dar-me conta do porte gigantesco da Fera. O medo corria em minhas veias, deixando-me em estado de alerta quanto ao que havia ao redor. A Fera se aproximou lentamente, até ficar tão próximo que eu podia sentir seu hálito morno em minha pele. Até me arrisquei a pensar que sentia o calor vindo de seus olhos. Ele era quase meio metro mais alto que eu, com ombros largos, que mediam quase três vezes o meu tamanho. Havia um brilho incomum em seus olhos escuros. Eu me arrepiei, apesar do calor que emanava dele.
-Se você não quer que sua camisola seja destruída, tire-a já – disse a Fera, finalmente. Ele tinha um tom casual, mas seu comportamento era contido, revelando o esforço para manter o controle. Sua voz era áspera e tão profunda que ele mal conseguia transmitir a linguagem humana. Sua presença me dominava e oprimia. Seu olhar me hipnotizava. Seu hálito me queimava. Não havia nada que me lembrasse do amigo meigo com quem eu compartilhara tantas refeições.
Ainda assim, ao olhar em seus olhos, pasma, uma nova sensação brotava dentro de mim, misturando-se ao medo.
Totalmente imóvel, exceto por meu coração disparado, eu enfrentava meu apuro (enquanto isso, a sensação persistia e aumentava, até que subitamente me senti estranhamente excitada). Nesse estado, eu só via a situação de forma superficial e ponderava comigo mesma: Que poder eu teria para resistir à Fera? De fato, resistência parecia algo improvável com ele ali, altivo, acima de mim, silenciosamente esperando que eu obedecesse à sua ordem. Do que ele seria capaz, se eu não concordasse, eu não me atreveria a especular. A Fera que estava ali à minha frente parecia pronta para atacar ao menor movimento meu. No entanto, eu desconfiava ligeiramente que a Fera se empenharia ao máximo para ceder à minha vontade, desde que eu não tentasse fugir.
Durante o tempo em que fiquei ali, que me pareceram horas, apesar de terem sido provavelmente meros segundos, fui tomada por uma excitação que aos poucos crescia dentro de mim, sem admitir que não estava nem um pouco desesperada pelo fim daquela situação.
Com um movimento súbito, tirei a camisola, antes que mudasse de idéia. Muito agitada, fiquei aguardando pelo próximo passo da Fera, mas ela permanecia em silêncio por um tempo que pareceu interminável. Eu me perguntava se ele poderia ouvir meu coração frenético e seu eco ruidoso em meus ouvidos.
A Fera lentamente ergueu sua mão enorme e acariciou levemente meu rosto. Gemi de susto ao senti-lo. Sua mão era tão áspera que quase provocava dor ao toque.
Os olhos da Fera momentaneamente faiscaram de raiva, mas logo se aquietaram enquanto me estudavam, confusos.
– Não quero machucá-la, Bela – sussurrou ele. – Você é quem controla o destino de nós dois.
Não consegui compreender o significado de suas pala raso Sua presença lentamente me dominava, me e volvendo e encurralando em sua força perigosa. Como se ele estivesse me alertando sobre algo. Teria-ele dito que eu estava no controle? Será que eu deveria detê-lo? Eu me perguntava: eu poderia detê-lo? Eu me sentia fraca demais para me mover.
Por outro lado, suas mãos, um tanto grandes, como comentei, afagavam rudemente a minha pele, abrindo caminho até os meus seios. Para minha surpresa, meus mamilos reagiram imediatamente, enrijecendo ao toque. Quando ele os apertou, um gemido escapou dos meus lábios; a força bruta de suas mãos, junto com meu desejo crescente, era agonizante.
Ele continuou a me tocar e, ao chegar no meio de minhas pernas, senti-me levemente envergonhada, pois minha excitação se tornou evidente. A Fera agora estava mudando rapidamente – a cada instante se tornava mais fera e menos homem.
-De joelhos – rosnou ele, por entre a respiração pesada. Encarei-o, calada. A realidade do que estava se passando subitamente me assolou. Ele me possuiria da mesma forma como o faria com um animal. Era tarde demais para mudar de idéia, uma vez que ele já estava manobrando meu corpo na posição que ordenara, bem ali, no chão. Ele o fez com tanta destreza e habilidade que não tive dúvidas quanto à sua força, ou à futilidade que seria tentar fugir.
Por alguns instantes permaneci imóvel onde ele me posicionou. Enquanto isso a Fera se ocupava em livrar-se de suas roupas, atrás de mim. Ainda muito amedrontada para me arriscar a olhar a Fera e enfurecê-la, limitei-me a imaginar a indumentária tão dolorosa sob a qual ele se escondia. Mas minha curiosidade acabou vencendo o medo e, quase sem querer, minha cabeça se virou em sua direção. Um gemido involuntário saiu dos meus lábios.
Ele estava sem roupas, exceto pela camisa, que pendia aberta, revelando seu dorso coberto por pêlo animal. Da cintura para baixo seu corpo lembrava o de um leão, com imensas patas no lugar dos pés e um longo rabo pendurado até o chão. Porém, mais aterrador do que tudo era o que se projetava à frente, logo abaixo da cintura. Era de uma coloração vermelho-arroxeada, de um tamanho sobre-humano. Tive certeza de que meu corpo jamais seria capaz de acomodá-lo.
A Fera ouviu meu gemido e viu-me encarando-o horrorizada. Ele soltou um rugido terrível e pronunciou algo apenas parecido com “Vire-se!”
-Você vai me matar! – gritei, realmente horrorizada, apesar de obedecer à sua ordem rude.
-Prometo que você sobreviverá – respondeu ele, com a súbita recuperação de sua gentileza anterior. Sua voz tremia ao esforçar-se para falar.
-Terá de ser assim até que você nos liberte dessa maldição.
Fiquei hipnotizada por suas palavras, mas não tive tempo de lidar com elas, pois subitamente senti seu hálito quente, como um vapor, entre minhas pernas. Mesmo com tal preliminar, eu estava inteiramente desprevenida para o que viria a seguir.
Áspera como papel-jornal e maior que uma folha de carvalho, a língua da Fera lentamente serpenteou, adentrando as minhas partes mais íntimas. Quase saí de mim, mas a Fera me segurou firme, repetindo o ato mais e mais vezes. Ao mesmo tempo irritada e encantada pela persistência da coisa desumana que continuava roçando minha carne delicada, eu não podia fazer muito além de ora me movimentar e contorcer-me tentando desesperadamente me afastar, ora me apertar de encontro a ele. Sua língua imensa cobria toda a minha região exposta com um único golpe, depois finalizava sua invasão com o entusiasmo de um bicho faminto. Eu estava a ponto de desfalecer de tanta excitação.
Finalmente a Fera parou com um grunhido, e senti seus dedos enormes me arreganhando. A essa altura meu corpo inteiro sacudia violentamente.
Apesar de minha excitação, sentia uma pressão imensa à medida que a Fera começava a se apertar contra mim, por trás. Contestei com gritinhos e meu corpo instintivamente se inclinou à frente, numa tentativa de fugir da Fera invasora. No entanto, ele não permitiria, e suas mãos poderosas me agarraram fervorosamente pela cintura, me puxando de volta para trás, até que ele me penetrou. Gritei.
Com visível dificuldade, a Fera tentou manter o resquício humano que ainda possuía. Seu corpo inteiro balançou, enquanto ele me segurava firme no lugar, e, com uma voz abafada, disse:
-Você vai se acostumar comigo num instante.
Mas eu já estava me acostumando antes que ele terminasse a frase. Meu corpo todo subitamente pareceu em chamas. Eu gemia, me balançando para a frente e para trás. Aquilo era muito além do que eu jamais experimentara. Puxando os meus quadris com golpes curtos, a Fera começou uma investida gradual, mas permanente.
-Devagar – eu o ouvi murmurar, possivelmente para si mesmo, enquanto prosseguia penetrando meu corpo. Ele investia devagar e me segurava firmemente no lugar. Tudo o que eu podia fazer era permanecer imóvel, ofegante, morrendo de prazer num instante e, no outro, sentindo uma dor imensa.
Jamais pensei que fosse possível suportar a total penetração da Fera, mas foi. Quando ele me possuiu completamente, eu mal podia respirar, pois me sentia como se estivesse sendo perfurada. Eu só tinha consciência daquela parte em mim, onde ele me preenchia.
Bem devagar, respirando com dificuldade e em meio a rosnados, a Fera começou a se mover, entrando e saindo de mim. Ele prosseguiu em ritmo lento por um bom tempo, deixando que eu me acostumasse totalmente com ele. Mas, por fim, seus gemidos se tornaram mais altos e selvagens, e suas investidas passaram a ser mais fortes e rápidas. Sua respiração queimava a pele das minhas costas. Suas mãos perfuravam minha carne, machucando a pele sensível. Achei ter sentido seus dentes mordendo meu ombro.
Eu estava excitada a ponto de sentir dor. Já tendo perdido a timidez há muito, comecei a me tocar a fim de aumentar o prazer, enquanto me esfregava contra a Fera.
Mas era tarde demais. Com um grito ensurdecedor e uma última investida, a Fera me invadiu com um furor que pude sentir ao longo de minhas pernas trêmulas.
Fiquei profundamente desapontada e inclinada a me afastar, mas ele me segurou firme no lugar, permanecendo ao meu lado, inteiramente excitado, pegando minha mão e colocando-a de volta no meio de minhas pernas. Ele a segurou até que eu a mantivesse ali, como ele queria.
Fiquei temporariamente encabulada por ele saber o que eu estava fazendo, mas logo passou, e meu entusiasmo voltou. Ao me dar conta de que tinha o tempo que quisesse para aproveitar com a Fera, voltei a me estimular. Enquanto isso, ele lentamente saiu de mim, quase por completo, depois, igualmente devagar, voltou a me possuir. Ele continuou pacientemente, enquanto eu buscava meu próprio prazer.
Eu tinha todos os sentidos em estado de alerta e excitação. Minha pele se repuxava sob as mãos brutas que agarravam meus quadris. Meus ouvidos ecoavam com os sons animalescos dentro do quarto enluarado. Meus olhos se desviaram para o chão, onde se refletiam as imagens de nossas sombras contrastantes, fundindo-se uma na outra. Minhas coxas estavam meladas e molhadas em seu interior. Pensei nos dentes afiados da Fera em meus ombros, quando finalmente encontrei o prazer.
Isso deu início às minhas visitas noturnas ao quarto da Fera. Para mim, cada noite era mais prazerosa que a anterior, e eu já não me sentia envergonhada. Na verdade, minha Fera parecia cada vez menos fera para mim, e minha afeição por ele tornava-o até bonito. Apesar disso, a cada noite, quando a Fera me pedia em casamento, eu gentilmente declinava.
Um dia, meses depois, recebi um recado de que meu pai estava doente. Mostrei o bilhete à Fera durante o jantar. Após lê-lo, ele me olhou, aterrorizado.
-Bela, por favor, não vá – implorou ele.
-Mas eu preciso! – gritei. -Se algo acontecer ao meu pai antes que eu o veja novamente, eu jamais o perdoarei!
A Fera ficou em silêncio por um tempo. -Bela – disse ele, em tom suplicante-,se você deixar esse castelo será a minha morte.
-Não entendo – respondi, subitamente irritada com todo o mistério que o cercava. O fato de haver tantas perguntas sem resposta se tornara uma questão mal resolvida entre nós. Mais uma vez eu voltei a pedir: – Será que você não poderia explicar suas palavras misteriosas?
-Não posso – a resposta de sempre. Mas a aflição diante de sua impossibilidade de me dizer a verdade o tornava um pouquinho mais indulgente. Não vou impedi-la de deixar o castelo, contanto que prometa voltar para mim em um mês – disse ele. -Se você demorar mais que isso eu certamente morrerei.
-Prometo – respondi com um suspiro, sabendo que não arrancaria mais nada dele.
-Espero que você cumpra sua promessa, Bela – disse ele, inconsolável. Então se levantou, parando na soleira da porta. -Haverá dois baús para você encher com as riquezas do castelo e levar para a sua família.
Naquela noite eu estava mais ansiosa do que de costume para estar com a minha Fera, mas também havia muito a ser feito quanto aos preparativos de minha viagem. Apressava-me de um lado para o outro freneticamente, sempre ansiando pelo momento em que poderia estar com minha Fera, para uma despedida mais íntima.
Quando finalmente entrei em seu quarto, eu certamente tremia de excitação. A Fera estava sentada numa cadeira no canto do quarto escuro. Ao tirar meu roupão, posicionei-me, como de costume, na beirada da cama, da forma como ele mais gostava que eu fizesse. Em alguns segundos eu estava ensopada de suor, latejando por ele. Era assim que eu me sentia em relação a ele. Já era o suficiente estar ali, esperando, tremendo, com as mãos sobre os joelhos, na expectativa do que estaria por vir, despertando aquela reação em mim.
Eu nem o ouvi se aproximar, quando subitamente senti suas mãos rudes acariciando a minha pele macia.
-Vire-se – disse ele, repentinamente, em seu tom rouco.
Parei, por um instante, estarrecida.
-Esta noite quero ver seu rosto – disse ele, simplesmente.
Intrigada pela novidade, obedeci ao seu pedido e me virei. Silenciosamente o observei, enquanto ele tirava suas roupas, podendo, pela primeira vez, vê-lo completamente. Ele parecia muito mais feroz e animalesco sem roupa. Estremeci ao vê-lo nu. Novamente, como na primeira noite, me ocorreu que ele parecia bem mais fera do que homem.
Mas ele é um homem, insisti, recusando-me a aceitar qualquer idéia que desse fim àqueles prazeres noturnos. E fechei meus olhos com a aproximação da fera nua.
-Abra os olhos, Bela! – rosnou ele.
Eu o fiz e vi sua masculinidade apontada diante de meus lábios. Ele pegou minha cabeça com as mãos, mas eu resisti. A Fera deteve-se em forçar-se em minha boca, mas também não soltou minha cabeça.
Olhei aquilo à minha frente. Era diferente de um homem normal. Além de maior, tinha uma coloração bem mais escura. Experimentei colocar minha língua para fora, passando-a levemente no objeto que me trouxera tanto prazer. A Fera estremeceu e subitamente fui tomada pelo desejo de satisfazê-lo. Abri a boca e primeiro o acarinhei suavemente com os lábios, mas logo me vi sugando, faminta. Ele era tão enorme que eu só conseguia tomá-lo parcialmente, mesmo assim, com grande esforço, mas ele não parecia se incomodar; a porção que eu conseguia ter, eu tomava com gosto, e o abocanhava com os lábios, língua e maxilar.
Subitamente a Fera me deteve e saiu de minha boca empurrou-me sobre a cama e afastou minhas pernas. Eu olhava dentro de seus olhos escuros, enquanto ele se aproximava. Havia algo brilhando ali – algo que não era humano. Eu queria desviar, mas seu olhar prendia o meu. Uma onda de terror passou por mim.
A Fera rugiu ruidosamente ao me penetrar. Minhas pernas estavam totalmente afastadas, enquanto eu tentava acomodar sua forma imensa. Ele se roçava e gemia impiedosamente, servindo-se de minha carne macia. Seu hálito quente ardia em minha pele e eu olhava com terror e fascínio, enquanto seus dentes afiados cuidadosamente mordiscavam meus ombros e seios.
Mas meu terror vinha acompanhado por aquele prazer familiar que a Fera já cultivara em mim. Ambos atuavam junto a ele, levando-me a uma paixão que eu jamais experimentara. Eu me deleitava com o pêlo animal que cobria seu corpo e os sons que ele emitia ao me possuir animalescamente. Eu me contorcia e gemia, com suas mãos brutas e imensas machucando minha carne macia, incessantemente, enviando arrepios de prazer abaixo da superfície. Eu gritava repetidamente, em total abandono, suplicante e tonta, sob as sensações de profunda agonia e prazer que me inundavam. Era uma onda de prazer atrás da outra, até que ouvi vagamente um rugido tremendo da Fera, em meio aos meus gritos.
Antes que pudesse recobrar o fôlego, já era de manhã!
Parti com tanta animação que nem pensei na minha Fera durante dias. Meu pai se recuperou logo que cheguei, e fiquei entretida pelos dias movimentados da família numerosa. Um mês se passou num instante e era hora de regressar ao castelo.
Sem dúvida, as histórias que você leu fizeram com que eu parecesse um tanto indelicada e até relutante em voltar à minha Fera. Isso estava muito longe de ser verdade. Eu sentia terrivelmente a sua falta! Eu queria regressar ao castelo mais que tudo. Porém, minha mãe caía em prantos sempre que eu tentava partir.
Assim, quase dois meses se passaram, até que um dia, tarde da noite, acordei sonhando com o castelo e a minha Fera. Tudo estava escuro no sonho, e eu andava pelos corredores do castelo à procura da Fera. Ao entrar em seu quarto, o vi dormindo serenamente em sua cama. Ao me aproximar dele, me ocorreu que minha Fera não estava dormindo, ele estava morto! Meu próprio grito havia me alertado.
Subitamente, eu me lembrei do aviso da Fera, de que ele certamente morreria se eu ficasse longe por mais de um mês!
Imediatamente pulei da cama e arrumei minhas coisas. Pela manhã, eu estava pronta para partir e, após uma despedida triste, porém firme, iniciei minha jornada de volta ao castelo e à minha Fera. Oh, como sofri nesse dia, temendo que talvez nunca mais voltasse a vê-lo! Mal sabia eu o quanto havia de verdade naquilo…
Ao final daquele dia, quando finalmente cheguei ao castelo, corri direto ao quarto da Fera. Ele estava deitado na cama, exatamente como em meu sonho.
-Não! – gritei, correndo até junto dele. -Por favor, Fera, não morra!
Sua cabeça inclinou ligeiramente ao ouvir minha voz. Vibrei de felicidade e o enlacei em meus braços. -Graças a Deus você não está morto -eu murmurava por entre lágrimas.
-Você voltou – foi tudo que ele disse.
-Sim, voltei… para sempre! -Eu sabia que jamais o deixaria novamente. -Você quer se casar comigo, Bela? -perguntou ele. -Sim, Fera – eu disse, chorando. -Sim, sim, sim!
Eu mal tinha pronunciado essas palavras quando, subitamente, houve um clarão. No momento seguinte, um estranho estava sentado no lugar onde a Fera estivera deitada. Minha fera havia desaparecido. Suspirei atordoada e dei um passo atrás.
-Oh, Bela – exclamou o estranho. -Você finalmente me libertou da maldição!
Pisquei os olhos, tentando compreender as palavras do homem. Ele estava explicando que era minha Fera, mas, na verdade, tratava-se de um príncipe que fora transformado em Fera pela maldição de uma bruxa diabólica. Por ser uma bruxa extremamente perversa, ela acrescentara como condição quase inalcançável de sua libertação que ele se casasse com seu verdadeiro amor ainda sendo uma Fera!
Então, pensei, esse estranho é a minha Fera. Observei seu rosto e vi que ele era, de fato, um belo príncipe. Não pude descrever a decepção que senti, além disso, jamais vira minha Fera tão feliz quanto nesse dia. Nós nos casamos.
E agora tenho de terminar minha fábula, pois está ficando tarde e está na hora de me preparar para meu marido, o príncipe. Agora ele vem ao meu quarto e, como sempre, preciso estar pronta para ele.
Mas não posso buscar brilho selvagem em seus olhos.
Ou ouvir aquele rosnado ensurdecedor.
Parei de procurar por essas coisas há anos.

Madore, Nancy
Contos de fadas eróticos / Nancy Madore; tradução de Alice Klesck. -Rio de Janeiro: HR, 2007.
Tradução de: Enchanted: erotic bedtimes stories for women
ISBN 978-85-7687-385-3
Junho 7, 2009
O Delírio de Galeno por Isaias Pessotti
Isaias Pessotti é escritor e ex-professor titular de psicologia da Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto. É autor de “Os nomes da Loucura” e “O século dos Manicômios”.
No século II, o médico grego Galeno definiu alucinação e ilusão ao distinguir os delírios da razão e dos sentidos
Sintomas clássicos de algum distúrbio mental são as alucinações, tais como ver pessoas ou objetos inexistentes, ou “ouvir vozes” sem que ninguém emita som algum. Diversamente, quando a percepção absurda ou distorcida refere-se a objetos reais e presentes não há alucinação; há o que em psicologia se chama “ilusão”. Mas em psicopatologia só interessam certas ilusões. As ilusões de óptica, ou as provocadas por um mago, por exemplo, são percepções normais.
Enquanto eventuais sintomas de algum distúrbio mental, alucinação e ilusão não se equivalem. Esquirol, em 1838, as distinguiu de forma lapidar: “Um homem que tem a convicção íntima de uma sensação realmente percebida, quando nenhum objeto exterior capaz de excitar aquela sensação está ao alcance do sentido, está em estado de alucinação: é um visionário… a ilusão ao contrário é um erro dos sentidos, que não põe em questão a presença real do suporte da percepção. Há sempre impressão real dos objetos exteriores. Impressão dos sentidos”.
Como se vê, o critério discriminante de Esquirol é presença ou ausência de um objeto real. Trata-se, em ambos os casos, de erros de percepção.
Galeno (131-200), como outros grandes médicos antigos, já se ocupara com a distinção entre alucinação e ilusão. Mas com um critério diverso, que ele ilustra ao relatar um episódio pessoal de delírio: “Alguns também deliram por causa do desarranjo de sua faculdade de pensar, mas conservaram por um curto momento sua faculdade crítica e a recuperaram o bastante para… resistir e compreender o que lhes ocorria… eu acreditava ver esvoaçando sobre meu leito fiapos escuros… eu executava movimentos para pegá-los… Ouço dois meus amigos presentes dizerem entre eles \\’olha ele já está tentando pegá-los\\’. Eu compreendi perfeitamente o que me estava acontecendo, o que eles diziam, e como sentia em mim que minha inteligência não sofria perturbação eu disse: Vocês têm razão, venham ajudar-me para que a loucura (phrenitis) não me domine”.
É um caso de delírio dos sentidos, mas não de delírio da razão, segundo Galeno. Pelo critério de Esquirol, seria um episódio de alucinação, pois os fiapos não existem, e há a convicção de uma sensação realmente percebida. Mas aqui existe a consciência de que essa percepção é enganosa. O critério discriminante, entre os dois tipos de delírio, para Galeno, é a consciência da falsidade da percepção alucinatória, no delírio dos sentidos, e a ausência dela no delírio da razão. Sem prejuízo de haver a “convicção íntima de uma sensação realmente percebida”. A diferença de critérios se explica: como bom discípulo de Pinel, Esquirol enxerga alucinação e ilusão como erros, incoerências entre a experiência sensorial e a realidade objetiva. Galeno, como bom seguidor de Platão, procurou apontar o papel da razão, da “faculdade crítica”, ou seja, da consciência da percepção, em cada um deles.
O que Esquirol chamaria de alucinação seria para Galeno um delírio da razão. Há alucinação quando se perde a “faculdade crítica”; mesmo quando a percepção errada se refere a um objeto real e presente. Mesmo nos casos que Esquirol consideraria ilusões.
Maio 24, 2009
O que é um psicopata? por Scott O. Lilienfeld e Hal Arkowitz
Scott O. Lilienfeld e Hal Arkowitz são professores de psicologia; o primeiro, da Universidade Emory, e o segundo, da Universidade do Arizona. – Tradução de Julio Oliveira
O termo “psicopata” caiu na boca do povo, embora na maioria das vezes seja usado de forma equivocada. Na verdade, poucos transtornos são tão incompreendidos quanto a personalidade psicopática.
Descrita pela primeira vez em 1941 pelo psiquiatra americano Hervey M. Cleckley, do Medical College da Geórgia, a psicopatia consiste num conjunto de comportamentos e traços de personalidade específicos. Encantadoras à primeira vista, essas pessoas geralmente causam boa impressão e são tidas como “normais” pelos que as conhecem superficialmente.
No entanto, costumam ser egocêntricas, desonestas e indignas de confiança. Com freqüência adotam comportamentos irresponsáveis sem razão aparente, exceto pelo fato de se divertirem com o sofrimento alheio. Os psicopatas não sentem culpa. Nos relacionamentos amorosos são insensíveis e detestam compromisso. Sempre têm desculpas para seus descuidos, em geral culpando outras pessoas. Raramente aprendem com seus erros ou conseguem frear impulsos.
Não é de surpreender, portanto, que haja um grande número de psicopatas nas prisões. Estudos indicam que cerca de 25% dos prisioneiros americanos se enquadram nos critérios diagnósticos para psicopatia. No entanto, as pesquisas sugerem também que uma quantidade considerável dessas pessoas está livre. Alguns pesquisadores acreditam que muitos sejam bem-sucedidos profissionalmente e ocupem posições de destaque na política, nos negócios ou nas artes.
Especialistas garantem que a maioria dos psicopatas é homem, mas os motivos para esta desproporção entre os sexos são desconhecidos. A freqüência na população é aparentemente a mesma no Ocidente e no Oriente, inclusive em culturas menos expostas às mídias modernas. Em um estudo de 1976 a antropóloga americana Jane M. Murphy, na época na Universidade Harvard, analisou um grupo indígena, conhecido como inuíte, que vive no norte do Canadá, próximo ao estreito de Bering. Falantes do yupik, eles usam o termo kunlangeta para descrever “um homem que mente de forma contumaz, trapaceia e rouba coisas e (…) se aproveita sexualmente de muitas mulheres; alguém que não se presta a reprimendas e é sempre trazido aos anciãos para ser punido”. Quando Murphy perguntou a um inuit o que o grupo normalmente faria com um kunlangeta, ele respondeu: “Alguém o empurraria para a morte quando ninguém estivesse olhando”.
O instrumento mais usado entre os especialistas para diagnosticar a psicopatia é o teste Psychopathy checklist-revised (PCL-R), desenvolvido pelo psicólogo canadense Robert D. Hare, da Universidade da Colúmbia Britânica. O método inclui uma entrevista padronizada com os pacientes e o levantamento do seu histórico pessoal, inclusive dos antecedentes criminais. O PCL-R revela três grandes grupos de características que geralmente aparecem sobrepostas, mas podem ser analisadas separadamente: deficiências de caráter (como sentimento de superioridade e megalomania), ausência de culpa ou empatia e comportamentos impulsivos ou criminosos (incluindo promiscuidade sexual e prática de furtos).
Três mitos
Apesar das pesquisas realizadas nas últimas décadas, três grandes equívocos sobre o conceito de psicopatia persistem entre os leigos. O primeiro é a crença de que todos os psicopatas são violentos.
Estudos coordenados por diversos pesquisadores, entre eles o psicólogo americano Randall T. Salekin, da Universidade do Alabama, indicam que, de fato, é comum que essas pessoas recorram à violência física e sexual. Além disso, alguns serial killers já acompanhados manifestavam muitos traços psicopáticos, como a capacidade de encantar o interlocutor desprevenido e a total ausência de culpa e empatia. No entanto, a maioria dos psicopatas não é violenta e grande parte das pessoas violentas não é psicopata.
Dias depois do incidente da Universidade Virginia Tech, em 16 de abril de 2007, em que o estudante Seung-Hui Cho cometeu vários assassinatos e depois se suicidou, muitos jornalistas descreveram o assassino como “psicopata”. O rapaz, porém, exibia poucos traços de psicopatia. Quem o conheceu descreveu o jovem como extremamente tímido e retraído.
Infelizmente, a quarta edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-IV-TR) reforça ainda mais a confusão entre psicopatia e violência. Nele o transtorno de personalidade anti-social (TPAS), caracterizado por longo histórico de comportamento criminoso e muitas vezes agressivo, é considerado sinônimo de psicopatia. Porém, comprovadamente há poucas coincidências entre as duas condições.
O segundo mito diz que todos os psicopatas sofrem de psicose. Ao contrário dos casos de pessoas com transtornos psicóticos, em que é freqüente a perda de contato com a realidade, os psicopatas são quase sempre muito racionais. Eles sabem muito bem que suas ações imprudentes ou ilegais são condenáveis pela sociedade, mas desconsideram tal fato com uma indiferença assustadora. Além disso, os psicóticos raramente são psicopatas.
O terceiro equívoco em relação ao conceito de psicopatia está na suposição de que é um problema sem tratamento. No seriado Família Soprano, Dra. Melfi, a psiquiatra que acompanha o mafioso Tony Soprano, encerra o tratamento psicoterápico porque um colega a convence de que o paciente era um psicopata clássico e, portanto, intratável. Diversos comportamentos de Tony, entretanto, como a lealdade à família e o apego emocional a um grupo de patos que ocuparam a sua piscina, tornam a decisão da terapeuta injustificável.
Embora os psicopatas raramente se sintam motivados para buscar tratamento, uma pesquisa feita pela psicóloga Jennifer Skeem, da Universidade da Califórnia em Irvine, sugere que essas pessoas podem se beneficiar da psicoterapia como qualquer outra. Mesmo que seja muito difícil mudar comportamentos psicopatas, a terapia pode ajudar a pessoa a respeitar regras sociais e prevenir atos criminosos.
| PARA CONHECER MAIS |
| Without conscience – The disturbing world of the psychopaths among us. Robert D. Hare. Guilford Press, 1999.Handbook of psychopathy. Christopher J. Patrick (ed.), Guilford Press, 2007. |
Maio 17, 2009
Potencialidades de Perversão por Paulo Roberto Ceccarelli
in Boletim de Novidades da Livraria Pulsional, São Paulo, ano XI, 113, 79-82, set. 1998.
e-mail: pr@ceccarelli.psc.br
homepage: www.ceccarelli.psc.br
É comum acontecer que um ato, uma palavra, uma iniciativa, tenha um resultado oposto ao desejado: visava-se um determinado objetivo; entretanto tal objetivo foi subvertido por aqueles a quem a palavra, o ato, a iniciativa foi dirigido. O princípio segundo o qual não se deve mentir pode acarretar um mal maior do que o efeito da mentira.
Daí a questão: deve-se mentir quando dizer a verdade pode levar aqueles, a quem esta verdade é dirigida, a um estado de angústia e desespero capazes de provocar atos perigosos contra si próprio e contra outros?
Mais ainda: a boa intenção e a convicção interior contrabalançam os efeitos perversos não esperados da ação original? Tais perguntas evocam uma antiga questão ética: é-se responsável pelos efeitos secundários que não se desejou?
O trágico da existência nos remete ao sentido primeiro e geral da perversão: desvio, derrapagem, do bem em mal, cujo paradigma é a Criação: o ato criador é bom mas o criado, não sendo Deus, implica a possibilidade do mal.
Perversão da Sexualidade
Perversão, do latim perversio, define a “ação de perverter”, “transformar em mal”, “depravação”, “corrupção”; perversão dos costumes, do gosto artístico… Fala-se de ato perverso, de conselho perverso, máquina perversa, etc.
Psicologicamente, a perversão define um desvio de tendências devido a problemas psíquicos. Na esfera do sexual, o substantivo se aplica para qualificar alguns atos: na medida em que uma finalidade é dada à sexualidade humana, toda pratica sexual que desvia desta finalidade é dita perversa.
Na base deste julgamento encontra-se a noção de uma sexualidade normal, segundo a natureza, cujo desvio, a depravação (pravus) é definido como “contra a natureza”. Um tal discurso se baseia na concepção teológica de uma Natureza (physis), herdeira do pensamento grego, em particular de Aristóteles. Sustenta-se que existem inclinações naturais nas coisas, e que tudo que é natural apraza a Deus, logo é bom. É nesta perspectiva que São Tomas de Aquino qualifica certas práticas sexuais como “contra a natureza” alegando uma natureza comum aos homens e aos animais. Assim, toda vez que a sexualidade desvia da finalidade primeira que a referência animal nos mostra – união de dois órgãos sexuais diferentes para a preservação da espécie – estamos diante de uma perversão: pedofilia, necrofilia, masturbação, heterossexualismo separado da procriação, homossexualismo, sodomia…
Este discurso teológico leva a certas ações jurídicas destinadas a reprimir todo ato perverso. É assim que determinados atos ditos “contra a natureza”, logo violentos pois são considerados um atentado ao pudor ou à opinião pública, acarretam severas sanções.
No século XIX nasce o discurso psiquiátrico que, à sua maneira, retoma a definição de perversão em função de uma finalidade natural e universal, dando uma continuidade às posições teológicas e jurídicas: o que é penal passa a ser da ordem médica. Algumas práticas sexuais são então qualificadas de “patológicas”, o que faz surgir novas formas de perversões onde o outro é usado para obtenção de prazer e, mais uma vez, a finalidade natural é subvertida. Voyerismo, exibicionismo, sadismo, masoquismo, vêm juntar-se à infindável nosografia psiquiátrica da época.
A ruptura psicanalítica
É no ambiente moralista da Viena do principio do século que Sigmund Freud lança, em 1905, um ensaio de 40 páginas que constitui, na época, apenas mais uma publicação dentre muitas outras. Os Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, fez de Freud uma figura extremamente impopular. Freud recebe insultos e injúrias; é taxado de imoral, obsceno e não é mais cumprimentado na rua.
Enquanto seus predecessores se empenharam minuciosamente em classificar, etiquetar, enfim, a traçar o inventário das perversões sexuais, Freud realiza uma virada fundamental e profundamente inovadora. A contribuição de Freud para a compreensão da perversões não vem do tipo de material clínico observado, mas da afirmação escandalosa de que as tendências perversas catalogadas pelos seus colegas como aberrações humanas assombram o espíritos de todos os homens, inclusive daqueles que as catalogaram estando também presentes nas crianças: “a criança é um perverso polimorfo”.
Freud afirma que o inconsciente dos homens é animado pelos desejos que os perversos põem em cena. Na perversão, as pulsões inconscientes aparecem “a céu aberto”; no neurótico as pulsões agem na clandestinidade, disfarçadas de várias maneiras, através dos sintomas: “a neurose é o negativo da perversão”. As perversões sexuais deixam então de ser uma prática que só eles – os perversos – exibem e passam a ser entendidas como algo presente, ainda que no inconsciente, em todos os seres humanos. Como diz Hamlet no final do segundo ato: “a se tratar cada homem segundo seu merecimento, quem escapará do açoite?”
A tudo isto acrescenta-se um outro escândalo que contraria a visão que a biologia, a moral, a religião e a opinião popular têm da natureza da sexualidade: o objetivo da sexualidade humana não é a procriação; ela escapa à ordem da natureza, agindo a serviço próprio: ela é contra a natureza.
A visão freudiana da pulsão sexual diversificada, anárquica, plural e parcial – oral, anal, escopofílica, vocal, sádica, masoquista e tantas outras roupagens que ela pode tomar – abre uma nova dimensão para se pensar a perversão que ultrapassa as fronteiras da sexualidade genital.
É assim que certas posturas teóricas que se reivindicam detentoras da Verdade e cuja preocupação central é de encaixar o sujeito numa categoria de diagnóstico, as práticas clínicas daí advindas com conseqüências por vezes catastróficas na relação transferencial, determinadas atitudes dos discípulos de seitas psicanalíticas que traduzem um embotamento de qualquer atividade crítica e outros tantos fatos de observação cotidiana, tudo isto conforta a idéia dos efeitos hipnóticos perversos que as identificações aos ideais podem provocar.
Gostaria de centrar o debate em um dos espaços onde as potencialidades de perversão podem ser observadas de forma privilegiada: a televisão. Como já foi dito, as pulsões constituem os elementos de base do psiquismo humano. Estes elementos recalcados, sempre prontos a fazerem irrupções brutais nos mais variados lugares para a obtenção de prazer imediato e ao menor preço possível, utilizam-se de representações oferecidas pelo mundo externo na busca de descarga que produza satisfação.
Os efeitos perversos de televisão
Existe no imaginário popular uma tendência a circunscrever a perversão unicamente ao sexual. Tal posição, reducionista e perigosa, reflete um moralismo que insiste em discutir problemas de alcova, deixando fora do debate as verdadeiras questões éticas. É assim, por exemplo, que muitos se chocam com cenas de sexo na televisão, mas toleram com naturalidade constrangedora situações onde a violência, que podem incluir o estupro, e o desrespeito ao outro (mulheres, crianças, minorias) são exibidas de forma perversa.
No caso de crianças o efeito desta situação é particularmente preocupante. Sabemos da importância dos pais na estruturação do mundo interno destas últimas. Na constituição da psicossexualidade, os investimentos libidinais, que traduzem movimentos pulsionais, se dirigem aos genitores. Ora, quando estes não servem de suporte identificatório a criança buscará modelos fora do âmbito familiar. Igualmente, para construir seu sistema de valor ético-moral a criança pode tomar, quando faltam-lhe referências no ambiente onde está inserida, aquilo que a televisão mostra como coordenadas de base.
Cenas que evocam violência, agressividade, aquelas que sugerem relações baseadas na desconfiança, na falta de solidariedade e outras tantas, podem incentivar comportamentos e propor “valores éticos” divergentes daqueles necessários para a construção de uma estrutura social calcada no respeito e no direito do cidadão.
Quanto aos adolescentes, a situação tampouco é simples: estes buscam modelos externos durante o período de separação e luto dos modelos familiares. Um exemplo das múltiplas derrapagens é o recurso à droga – ou à violência, à uma sexualidade compulsiva etc. Aqueles carentes de referências encontram nestes expedientes respostas lá onde os pais, e em seguida a sociedade, nada lhes propõem, “assegurando” ao sujeito a ilusão de pertencer a um grupo e propiciando-lhes, ao mesmo tempo, uma defesa contra o perigo de se entrar em contato com representações inconscientes, cujos conteúdos são potencialmente depressivos.
Alguns movimentos anti-sociais dos adolescentes traduzem bem esta configuração. Em ambos os casos – crianças e adolescentes – quando o mundo interno se encontra mal estruturado e pobre em imagos identificatórias, a televisão pode oferecer “soluções” a conflitos internos.
Mas os adultos não estão ao abrigo do retorno de elementos da sexualidade infantil: a atração que produzem determinados programas reatualizam complexos inconscientes. A televisão passa a ser então uma válvula de escape para moções pulsionais recalcadas: é o caso de alguns programas, filmes, ou barbaridades descritas pelos jornais e revistas, às quais assistimos, ou lemos, num misto de horror e fascínio.
Toda leitura do mundo que se defina como única e verdadeira produz necessariamente uma perversão pois representa apenas uma das possíveis traduções do real. Muitas vezes a realidade criada pela televisão, seja na publicidade ou nos programas, pode exibir, ainda que camuflada, um grau de perversão altamente sofisticado na medida em que, seguindo normas rígidas do mercado em acordo com interesses econômicos dos patrocinadores propõe, sobretudo às crianças e aos adolescentes, referências de comportamento e de consumo por vezes em completa contradição com suas realidades sócio-econômicas.
As potencialidades de perversão são inúmeras e certas programações da televisão podem ser altamente nefastas para a sociedade mesmo quando a intenção inicial não foi perversa. Trata-se, então, menos de saber se determinada cena mostrada na TV é EM SI perversa mas antes, em que circunstância, em que contexto, tal cena pode produzir efeitos perversos.
Paulo Roberto Ceccarelli*
e-mail: pr@ceccarelli.psc.br
* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Consultor científico (Editorial Reader) do “International Forum of Psychoanalysis”; Membro do Conselho Científico da Revista Psychê; Membro do Conselho Científico da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental; Membro Fundador da ONG TVer; Vice-presidente do TVer-MG; Professor Adjunto III no Departamento de Psicologia da PUC-MG; Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia da Quarta Região (CRP/O4).
Maio 8, 2009
Avohai
Na pedra de turmalina e no terreiro da usina eu me criei
Vou lavar de madrugada e na cratera, condenada, eu me calei
E se eu calei foi de tristeza você cala por calar
Mais e calada vou ficando só falo quando mandar
Rebuscando a consciência com medo de viajar
Até o meio da cabeça do cometa,
girando na carrapeta no jogo de improvisar
Entrecortando eu sigo bem a linha reta
Eu tenho a palavra certa prá doutor não reclamar
Avohai Avohai Avohai Avohai
Março 23, 2009
Sussurros
Estava lendo o blog da Rainha Frágil gosto do blog dela.
No fim do texto que acabei de ler está a parte mais legal, diz assim: “Se você deseja serví-la, sirva e não espere nada em troca. Esteja presente. Suporte o desprezo. Esteja disponível. Se deseja serví-la, faça desde já.”
Li e pensei: são os sussurros da minha mente submissa que nunca haviam sido transcritos em palavras… é, agora alguém transcreveu
Março 19, 2009
Março 16, 2009
Suécia retira sadomasoquismo da lista de doenças mentais

O governo sueco desclassificou há alguns dias como transtornos mentais alguns comportamentos sexuais antes considerados “desviantes”. As autoridades consideraram que o sadomasoquismo, o fetichismo e o travestismo são preferências sexuais como outras quaisquer, e que mantê-los na lista de doenças era uma forma de discriminar e estigmatizar seus praticantes.
O país é o primeiro a atender às reivindicações do Revise F65, um movimento internacional que pede a retirada dessas três práticas do Catálogo Internacional de Doenças – CID. O CID é mantido pela Organização Mundial de Saúde e revisado periodicamente, e o Revise F65 luta especificamente contra os itens F65.0, F65.1, F65.5 e F65.6 do catálogo.
Com a adesão da Suécia, é provável que aconteça com o sadomasoquismo e demais fetiches o que aconteceu com a homossexualidade há algumas décadas atrás: o entendimento de que são apenas estilos de vida diferentes do habitual, que podem ser praticados de forma saudável, por pessoas perfeitamente integradas à sociedade.
O tema veio à baila na época em que a ONU estava fazendo inspeções no Iraque para verificar a existência de armas de destruição em massa. Um dos inspetores era integrante de um conhecido clube sadomasoquista de Washington, e foi muito criticado por setores da opinião pública por isso. Ele chegou a pedir demissão do cargo, mas o chefe da equipe, Hans Blix (coincidentemente, sueco), negou-lhe a dispensa, alegando que era um técnico competente e que seus gostos pessoais não tinham relevância no caso.
Os praticantes do sadomasoquismo garantem que a prática é saudável e segura. Afinal, é apenas um teatro, onde não há violência real ou coerção, e onde toda “submissão” é voluntária. Diz-se até que, na verdade, é o escravo que tem o controle da situação, porque toda vez em que achar que o mestre está indo longe demais, basta pronunciar a “senha de segurança” (safe word) que seu dominador é obrigado a interromper imediatamente o que estiver fazendo.

Para os interessados no assunto, eu indico o excelente filme alemão Verfolgt (Castigue-me), de 2006, que mostra uma relação sadomasoquista entre um jovem delinqüente e sua monitora de liberdade condicional, uma mulher de meia idade que tinha uma vida tranqüila, até que o jovem lhe pede que exerça sua autoridade de forma muito pouco convencional.
A carga emocional da relação entre os dois (onde não há sexo propriamente dito) é enorme, e transforma profundamente as suas vidas. É um filme brilhante, com uma fotografia espetacular em preto e branco, e que deve ser visto de mente aberta.
É claro que não será lançado no Brasil.
O Texto acima foi retirado do site: http://marcuspessoa.net e expressa opinião de seu autor.
Março 7, 2009
Então você quer ser uma escrava? A realidade por miria hunter
Eu decidi escrever esse artigo porque eu tenho visto muitas submissas entrando nesse estilo de vida esperando que as coisas sejam perfeitas, como se fosse um sonho. Eu não desejo arruinar os sonhos de ninguém, nem afastá-las da idéia, mas o que eu desejo é explicar como as coisas realmente são.Ser uma escrava pode ser, e tem sido para mim, uma vida maravilhosa. É tudo o que eu sempre quis ser. É também mais do que eu esperaria, e ter alguém explicando para mim as realidades, antes da minha decisão, teria facilitado a minha transição.
Para os objetivos desse artigo, estarei endereçando as questões relativas à ser uma escrava 24×7. Os comentários são meu ponto de vista, ou seja: uma escrava tendo um Dono. Mas isso não exclui outras combinações (masculinas- femininas). Claro que, para essas outras, não posso comentar sobre experiências pessoais. O que segue são as minhas experiências da vida real.
Primeiro, há algumas coisas que você precisa descobrir a seu respeito. Você quer estar numa relação 24×7? Quem sabe você deseja somente ser escrava durante as sessões? Ou talvez você deseje ser escrava apenas durante algumas atividades. Há diversas maneiras para ser uma escrava, e você terá que descobrir por você mesma o que é o adequado para você.
Segundo, você terá que aprender a ser honesta consigo mesma. Descubra o que você fará e o que não fará e o que poderá ser um “talvez”. Procure dentro de você o que você realmente deseja e, quando você o descobrir, seja honesta com quem você troca idéias. Não concorde com algo no longo prazo que você sabe que não poderá cumprir. Pergunte a você mesma as questões mais duras. O restante deste artigo irá mostrar para você a realidade de algumas situações nas quais você poderá basear suas decisões, em lugar de sonhos de terceiros sobre como poderia ou deveria ser.
Estará você preparada para abrir mão de 100% do controle da sua vida para alguém? Escravas 24×7 fazem isso. Em sessões ou cenas, isso acontece e seu Dono terá controle total mas, após o final, tudo voltará ao normal.
Você gosta de música “country”? Ou, quem sabe, Rock and Roll? Considere isso. O Dono, cuja coleira você eventualmente irá usar, poderá gostar somente de música clássica ou outro tipo que você não gosta. Será que você está preparada para abrir mão das suas seleções para ouvir somente a música que ele gosta?
Este tipo de sacrifício pode ocorrer com várias outras coisas que você hoje gosta. Eu, por exemplo, raramente consigo escutar o tipo de música que aprecio, porque ele prefere Hard-Rock. Quando eu sou uma boa garota ele, eventualmente, permite que eu ouça as minhas músicas, desde que todas as minhas tarefas estejam cumpridas. Note que eu disse “permite”. Uma coisa simples como ouvir música passa a ser uma recompensa para mim. Não é garantido que você terá essa ou outra permissão quando você o desejar. E esse tipo de limitação poderá ser aplicado a quaisquer outros pequenos prazeres que você tenha, como ver TV, escolher seus amigos, ou qualquer outra coisa.
Há algum tipo de roupa que você goste? Cores ou perfumes que você sempre gosta de usar? Se seu Dono não aprovar, pode ser que você se veja usando roupas e cores com as quais você jamais sonharia. Quem sabe ele poderá escolher as suas roupas pela manhã? Será que você está preparada para aceitar graciosamente as escolhas dele? E se ele escolher roupas totalmente inapropriadas para o local onde você irá? Você aceitará sem hesitação? Eu tenho a sorte dele permitir que eu escolha as minhas roupas a maior parte das vezes. Mas, a qualquer tempo, ele poderá desejar que eu use outra coisa e eu terei que me trocar imediatamente. E, acredite-me, ele realmente pode exercitar esse direito. Eu aprendi a sempre perguntar o que ele deseja que eu use, quando vamos a algum local especial.
Estará você preparada para trocar seu estilo de cabelo, cor ou comprimento, para satisfazer seu Dono? Tudo isso passará a ser decisão dele, após você aceitar a sua coleira, da mesma forma que qualquer outra coisa que foi sua. você não mais terá nada. A partir do momento no qual você aceitar a coleira, tudo será dele. Você não mais terá o “seu” carro ou “suas” roupas, mas “dele”, que as emprestará a você quando ele o desejar. Se ele desejar, você não usará nenhuma roupa. Isso será escolha dele e não sua. Lembre-se: você terá que abrir mão do seu direito de escolha.
Você tem uma cadeira favorita ou uma certa forma de sentar ou caminhar? Seu Dono decidirá se você sentará na cadeira ou no chão. Ele terá a palavra se você irá cruzar as suas pernas ou se sentará com elas bem abertas. Você terá que pedir permissão para deitar-se ou para sentar-se. A maioria das escravas tem direito a um colchão no chão, sobre o qual podem deitar-se sem pedir permissão, porém a liberdade termina por ai. Você terá até que pedir permissão para sentar-se à mesa para comer junto do seu Dono.
Foi um dia cheio no trabalho. Você chega em casa desejando apenas tomar um bom banho e relaxar. Bem, isso depende da vontade DELE. Estar cansada, sentindo-se mal ou até doente não a libera das suas tarefas básicas de preparar a refeição dele, cuidar das coisas dele e você irá para a cama quando ele ordenar, estando você preparada ou não. Não haverá um “estou muito cansada” ou “não me sinto bem” ou até “estou na TPM”; nada disso. A menos que ele libere você das suas tarefas, será sua responsabilidade executá-las.
É sua responsabilidade informar seu Dono sobre seu estado de saúde. Afinal, cabe a você cuidar da coisas dele e você é uma das coisas que ele mais preza. Sabendo do seu estado, ele provavelmente liberará você das suas obrigações e cuidará para que você sinta-se melhor breve, em condições de voltas às suas atividades e capacidades.
Muitas vêm para este estilo de vida esperando serem usadas sexualmente, para servir seu Dono quando ele o desejar. Mas eles nem sempre consideram esse aspecto. O aspecto predominante na vida da escrava é estar à serviço do Dono e não ser servida por ele. Entretanto, estar sempre pronta para ele, a qualquer hora, pode ser uma expectativa não prevista. A velha desculpa “hoje não, querido, estou com uma dor de cabeça” não funciona no ambiente D/s.
Para assegurar que ele tenha prazer, você deve sempre expressar o seu prazer também. Nunca faça-o sentir que sexo é uma obrigação para você; algo que você só faz por ser parte da situação. Ao contrário, demonstre que você tem prazer com a relação.
Se seu Dono mandar você fazer alguma coisa, você não poderá questioná-lo. É sua obrigação responder ou agir sem fazer perguntas. Mais tarde, se isso for permitido na sua relação com ele, você poderá pedir permissão para fazer suas perguntas. Entretanto, é importante que você as faça apenas para satisfazer sua curiosidade, jamais para questionar a autoridade dele.
Você acha que ser uma escrava é ser coagida, forçada a servir? Você acha que você jamais poderia fazer isso a menos que fosse coagida? Então, pense de novo. Escravas entram no relacionamento por livre escolha. Não estamos mais nos dias de escravidão forçada; é uma questão de escolha. Sua escolha! Você é a pessoa que irá decidir entregar seu poder para seu Dono. E você irá fazer isso não porque você será forçada a tal, mas porque você precisa disso. Sim, durante seu relacionamento, você será obrigada a fazer coisas, mas nunca será nada contra aquilo que você é. Seu Dono poderá sentir que o fato de você obedecer a um determinado comando ajudará você a ser uma pessoa melhor ou ajudará você a se desinibir.
E como é o seu temperamento? Será você uma “estouradinha”, sempre pronta a perder o controle quando está zangada? Ou será você uma dessas que tudo aceitam e, de repente, se aborrecem por acharem que seus sentimentos foram feridos? Um Dono não deseja ter um capacho como escrava, nem alguém que viva tentando dizer a ele como fazer as coisas. Aprender quando e de que forma dizer as coisas será algo muito importante no seu relacionamento. Se você não disser ao seu Dono o que a incomoda, então você não terá nenhum direito de ficar zangada posteriormente. Por mais que você o ache onipotente e maravilhoso, ele não lê mentes: a menos que você diga, ele não terá como saber. A chave, como eu disse há pouco, é saber como dizer a ele.
Sua auto-disciplina é muito importante nessa relação. Você tende a postergar as coisas? Você não poderá fazer isso tendo um Dono. Haverão tarefas que seu Dono te dará que ele espera que sejam cumpridas numa forma e velocidades definidas por ele e não por você. Os desejos e necessidades dele serão colocados antes dos seus. Auto-disciplina é semelhante à auto-controle. Sua habilidade em completar as tarefas definidas pelo seu Dono será muito importante. Como uma escrava, você terá a necessidade de controlar suas ações de forma a permanecer dentro dos limites impostos por ele.
Se ele disser que você não pode algo, você simplesmente não pode. Fazendo de qualquer forma ou não contando a ele não torna a atitude correta. No caso de uma relação Dono/escrava, o que ele NÃO sabe pode machucá-lo da mesma forma que pode machucar a relação que você levou tempo para construir. Mesmo uma simples mentira “inócua” pode destruir a confiança necessária para realmente estabelecer esse tipo de relacionamento.
Sobre as suas necessidades e vontades: você sabe a diferença entre elas? Se ainda não, eu recomendo fortemente que você as descubra antes de entrar na servidão. Algumas vezes pode ser difícil distinguir, mas será importante que você faça isso. Seu Dono irá assegurar que todas as suas necessidades sejam satisfeitas, mas as suas vontades, ou desejos, serão uma opção dele permitir ou não. Necessidades são requerimentos da vida para que você se mantenha saudável física e emocionalmente. Isso nos permite crescer espiritualmente e emocionalmente. Se você pode sobreviver sem uma determinada coisa, então essa é apenas uma vontade. E vontades são usualmente dadas como recompensa por bom comportamento.
Para ser uma escrava, haverão uma série de coisas a aceitar dentro de você e situações às quais se adaptar. Seu primeiro objetivo na vida será ver o prazer (tanto mental, quanto físico) do seu Dono, da forma em que ele o deseja. Para fazer isso, você deverá aprender bem sobre ele. Descubra o que o agrada e o que o desagrada. E, note que isso não significa apenas na área sexual. Você aprenderá que o sexo é apenas uma parte do seu relacionamento.
Aprenda a antecipar todas as necessidades dele, sem que seja algo forçado. As necessidades e vontades dele compreenderão estímulo intelectual, prazer físico, apoio emocional e outras coisas que serão únicas à ele. Lembre-se: físico não é apenas sexual. Prazer físico poderá incluir, sem estar limitado à, tocar, massagear, petiscos favoritos, roupas e cores, como exemplo. Será seu trabalho garantir que os prazeres físicos dele sejam satisfeitos de todas as formas. Pense sobre os cinco sentidos a torne o ambiente agradável para ele. Nunca esqueça: a coisa mais agradável para ele deve ser você.
Como escrava dele, você deverá descobrir o que agrada o seu Dono. Ele não deverá precisar pedir constantemente por coisas básicas – você deverá aprende-las. Se o copo dele está vazio, quietamente e de forma oportuna, você o encherá. Lembre-se você está fazendo isso para o prazer dele e não o seu. Apenas por ele não notar ou agradecer, não quer dizer que você esteja fazendo errado. Observe o sorriso dele. Ele está confortável? Se ele estiver alegre e contente, então você está trabalhando bem e o contentamento dele deve ser a sua recompensa. Mantenha em mente que você faz as coisas para ele e não para a sua própria satisfação. Sua felicidade deve vir de servir a ele e do fato dele estar alegre.
Como eu disse no início desse artigo, não estou tentando amedrontar e afastar você do mundo D/s. Meu objetivo é assegurar que, uma vez que você entre nesse mundo, você o faça de olhos abertos, sabendo completamente o que esperar. A estrada não será fácil. Você deverá re-aprender muita coisa do que você sempre teve como garantida: coisas que você faz sem nem mesmo pensar, como simplesmente sentar numa cadeira. Estes são ações sobre as quais a gente nem pensa mais. Isto é, até que você encontre o seu Dono.
Tudo o que você aprendeu antes de ler esse artigo provavelmente é verdade. Ser uma escrava é uma vida maravilhosa: é onde você é cuidada por alguém. A maior parte das decisões está fora das suas mãos e nas mãos do seu Dono. Mas muitas decisões ainda serão deixadas para você tomar. A maior parte dos Donos desejam uma escrava que seja esperta, que tenha senso de humor e vontade própria. Não há prazer em ter um capacho que apenas fica lá, aguardando ser pisada. Ele ficaria aborrecido bem rápido. Ser você mesma é o melhor conselho que posso dar e isso tem sido uma verdade absoluta para mim.
Ser uma escrava será tudo o que você sempre sonhou e muito mais, se você entrar nessa vida sabendo exatamente o que esperar dela. Se você realmente desejar esse tipo de vida, você perceberá que, logo após você entrar nela, você estará flutuando no ar. Partes do seu ser que nunca foram completas ou satisfeitas se completarão. Entregando o controle a outra pessoa, eu encontrei a minha liberdade: a liberdade de descobrir e ser a pessoa que eu sou, por dentro.
Espero que, após ler esse artigo, você seja capaz de fazer uma escolha mais consciente sobre esse tipo de vida. Nunca esqueça que o requerimento mais importante para a existência desse tipo de vida é a honestidade. Honestidade para com você mesma, em primeiro lugar. Entretanto, você descobrirá que isso não é tão fácil quanto parece. Uma vez que você aprender isso, você encontrará a sua paz e poderá entrar na servidão com sua mente clara, sabendo onde você está e para onde você deseja ir. Quando você aceitar a coleira do seu Dono, você abrirá mão dos seus direitos. Seus amigos, sua vida – nada permanecerá como seu. Ser uma escrava significa abrir mão de muito mais do que ser apenas uma submissa. Você abrirá mão de todos os seus direitos na vida. Escrava não é apenas uma palavra; é um estilo de vida, uma ação definida.
Tradução do original: “So, you want to be a slave ? The Realities”, by miria hunter.
http://fetishexchange.org/slave-realities.shtml
Traduzida pelo Carcereiro
Março 5, 2009
Guardei-me para Ti, como um segredo

| Guardei-me para Ti
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| Guardei-me para ti como um segredo Que eu mesma não desvendei: Há notas nesta guitarra que não toquei, Há praias na minha ilha que nem andei. É preciso que me tomes, além do riso e do olhar, |
Lya Luft










