Pensamento Submisso

Dezembro 22, 2009

“A vida é muito curta para ser pequena”

Arquivado em: Amizade, Experiência Pessoal — rose @ 5:32 pm

Desejo a todos os que vem aqui, com intenção ou apenas caindo de paraquedas, um feliz Natal e um excelente 2010. Sugiro que leiam a entrevista abaixo com Mario Sergio Cortella e que nunca se esqueçam que ‘a vida é muito curta para ser pequena’, carpe diem.

Até o ano que vem.

rose

Mario Sergio Cortella: não adie seu encontro com a espiritualidade

 

entrevista concedida a José Tadeu Arantes

Na juventude, o filósofo Mario Sergio Cortella experimentou a vida monástica em um convento da Ordem Carmelitana Descalça. Durante três anos, aprendeu a viver em comunidade, a não ter propriedades, a guardar silêncio. Abandonou a perspectiva de ser monge – mas não a espiritualidade – para seguir a carreira acadêmica. Hoje, com 55 anos, é professor universitário de educação, conferencista em instituições públicas, empresas e ONGs, comentarista em vários órgãos da mídia e autor de 10 livros, que prefere chamar de “provocações filosóficas”Existe também a religiosidade que quer beber diretamente na fonte, que busca a relação sem mediações com o divino.
O divino, o sagrado, pode ganhar muitos nomes. Pode ser Deus no sentido judaico-cristão-islâmico da palavra; pode ser deuses; pode ser uma vibração, uma iluminação. Independentemente de como o denominamos, há algo que reconhecemos como transcendente, que ultrapassa a coisificação do mundo e a materialidade da vida, que faz com que haja importância em tudo o que existe. Desse ponto de vista, não basta que eu me conecte com os outros ou com a natureza. Preciso fazer uma incursão no interior de mim mesmo, em busca da vida que vibra em mim e da fonte dessa vida. É essa fonte que alguns chamam de Deus. A conexão com essa fonte é aquilo que os gregos chamavam de sympatheia, que significa simpatia. Trata-se de buscar uma relação simpática com o divino.

Sempre é tempo de balanço, de rever trajetórias, de refazer escolhas. Fim de ano nos chama especialmente para isso. Em meio à correria das compras, dos encontros, dos comes e bebes, conseguimos um intervalo para a reflexão? Para nos perguntar: afinal, o que estamos fazendo nesta vida? O filósofo Mario Sergio Cortella tem levado esse tema a vários ambientes. Professor da Pontifícia Universidade Católica e da Fundação Getulio Vargas, ambas em São Paulo, e da Fundação Dom Cabral, em Belo Horizonte, ele foi discípulo do educador Paulo Freire e atuou como secretário municipal de Educação de São Paulo. “Minha pretensão não é dar respostas, mas elementos para as pessoas formularem melhor suas perguntas”, disse no início da entrevista.

Em época de Natal, a sensação é de que há algo a mais na atmosfera. Para uns, é encantamento, elevação. Para outros, apenas nervosismo, que se traduz em febre de consumo, excessos alimentares e conflitos interpessoais. Existe lugar para a espiritualidade em meio a tanta agitação?
Em algumas situações, aquilo que chamamos de espírito de Natal” é algo cínico, que agrega os indivíduos em torno de festividades de conveniência. Mas há muitas pessoas que, independentemente de serem cristãs ou não, têm, nesta época do ano, uma verdadeira experiência do “comemorar”. Gosto dessa palavra porque “comemorar” significa “lembrar junto”. E do que nós lembramos? De que estamos vivos, partilhamos a vida, de que a vida não pode ser desertificada.

Há uma pulsão de vida.
Claro que, a todo instante, está colocada também a possibilidade de que a vida cesse. Somos o único animal que sabe que um dia vai morrer. Aquele gato, que dorme ali, vive cada dia como se fosse o único. Nós vivemos cada dia como se fosse o último. Isso significa que você e eu, como humanos, deveríamos ter a tentação de não desperdiçar a vida. Escrevi um livro chamado Qual É a Tua Obra?, que começa com uma frase de Benjamin Disraeli, primeiro-ministro britânico no século 19. Ele disse: “A vida é muito curta para ser pequena”.

Como não apequenar a vida?
Dando-lhe sentido. A espiritualidade ou religiosidade é uma das maneiras de fazê-lo. A religiosidade, não necessariamente a religião. Religiosidade que se manifesta como convivência, fraternidade, partilha, agradecimento, homenagem a uma vida que explode de beleza. Isso não significa viver sem dificuldades, problemas, atribulações. Mas, sim, que, apesar disso tudo, vale a pena viver. Meu livro Viver em Paz para Morrer em Paz parte de uma pergunta: “Se você não existisse, que falta faria?” Eu quero fazer falta. Não quero ser esquecido.

Fale mais da diferença entre religiosidade e religião.
Religiosidade é uma manifestação da sacralidade da existência, uma vibração da amorosidade da vida. E também o sentimento que temos da nossa conexão com esse mistério, com essa dádiva. Algumas pessoas canalizam a religiosidade para uma forma institucionalizada, com ritos, livros – a isso se chama “religião”. Mas há muita gente com intensa religiosidade que não tem religião. Aliás, em minha trajetória, jamais conheci alguém que não tivesse alguma religiosidade. Digo mais: nunca houve registro na história humana da ausência de religiosidade. Todos os primeiros sinais de humanidade que encontramos estão ligados à religiosidade e à ideia de nossa vinculação com uma obra maior, da qual faríamos parte.

De onde vem essa ideia?
Existe uma grande questão que é trabalhada pela ciência, pela arte, pela filosofia e pela religião. A pergunta mais estridente: “Por que as coisas existem? Por que existimos? Qual é o sentido da existência?” Para essa pergunta, há quatro grandes caminhos de reposta: o da ciência, o da arte, o da filosofia e o da religião. De maneira geral, a ciência busca os comos”. A arte, a filosofia e a religião buscam os “porquês”, o sentido. A arte, a filosofia e a religião são uma recusa à ideia de que sejamos apenas o resultado da junção casual de átomos, de que sejamos apenas uma unidade de carbono e de que estejamos aqui só de passagem. Como milhões de pessoas no passado e no presente, acho que seria muito fútil se assim fosse. Eu me recuso a ser apenas algo que passa. Eu desejo que exista entre mim e o resto da vibração da vida uma conexão. Essa conexão é exatamente a construção do sentido: eu existo para fazer a existência vibrar. E ela vibra em mim, no outro, na natureza, na história.

Como você busca essa relação?
De várias maneiras. Às vezes, na forma de um agradecimento. Às vezes, na forma de um pedido. Às vezes, por meio de uma oração consagrada pela tradição – porque, como dizia Mircea Eliade, o maior especialista em religião do século 20, “o rito reforça o mito”. Às vezes, recorrendo a um gesto espontâneo. Outro dia, eu estava em uma cidade litorânea, onde iria palestrar. Em frente ao hotel, havia uma praia. Caminhando descalço sobre a areia, às 5 e meia da manhã, sentindo o sol que nascia, me veio um forte sentimento de gratidão e rezei, em silêncio, uma oração, das consagradas. Já ontem, eu estava reunido com a família em volta da mesa. Diante da cena dos meus filhos com as esposas, novamente senti gratidão. Ergui a taça de vinho e brindei em agradecimento por aquele momento. Nem sempre a minha relação é de gratidão. Às vezes, é de apelo. Na crença, verdadeira para mim, de que a fonte de vida pode reforçar a minha capacidade de viver, eu peço.

Existe, hoje, um maior impulso para a espiritualidade ou trata-se apenas de mais uma onda passageira?
Guimarães Rosa disse que “o sapo não pula por boniteza, pula por precisão”. De acordo com o headhunter e professor de gestão de pessoas Luiz Carlos Cabrera, a grande virada no mundo empresarial brasileiro ocorreu, de fato, no dia 31 de outubro de 1996 às 8h15, quando um avião da TAM, com 96 pessoas a bordo, todos eles executivos, exceto a tripulação, caiu sobre a cidade de São Paulo. Perdi dois amigos de infância nesse acidente. Aquele foi um momento de inflexão no mundo corporativo. Eu compartilho dessa opinião. As pessoas começaram a pensar: eu podia estar naquele voo e o que eu fiz até agora? Toda a ânsia que caracteriza o mundo corporativo, focada no lucro, na competitividade, na carreira, começou a ser relativizada.

Mas existem também fatores de fundo, que afetam o mundo.
É claro. Um fator, talvez o principal, foi que o século 20, apostando na ciência e na tecnologia, nos prometeu a felicidade iluminada e ofereceu angústia. Em prol da propriedade, sacrificou-se a vida, a convivência, a consciência. O stress tornou-se generalizado, afetando adultos, jovens e até as crianças. Há uma grande diferença entre cansaço e stress. O cansaço resulta de um trabalho intenso, mas com sentido; o stress, de um trabalho cuja razão não se compreende. O cansaço vai embora com uma noite de sono; o stress fica.

Há uma forte cultura da pressa e da distração.
A tecnologia nos proporcionou a velocidade. Mas, em vez de usá-la apenas para fazer as coisas rapidamente, nós passamos a viver apressadamente. Assim como existe uma grande diferença entre cansaço e stress, existe também entre velocidade e pressa. Eu quero velocidade para ser atendido por um médico, mas não quero pressa durante a consulta. Quero velocidade para ser atendido no restaurante, mas não quero comer apressadamente. Quero velocidade para encontrar quem eu amo, mas não quero pressa na convivência. Tempo é uma questão de prioridades. Muita gente argumenta não ter tempo para a espiritualidade, para cuidar do corpo. E segue nesse ritmo apressado até sofrer um infarto. Se não for fatal, o infarto funciona como um sinal de alerta. O dia continua a ter 24 horas, mas quem sobrevive passa a acordar uma hora mais cedo para caminhar e se exercitar. O impulso espiritual também é um sinal de alerta. Não há pressa em segui-lo. Mas cuidado: é muito arriscado adiar indefinidamente para o ano que vem.

Na juventude, o filósofo Mario Sergio Cortella experimentou a vida monástica em um convento da Ordem Carmelitana Descalça. Durante três anos, aprendeu a viver em comunidade, a não ter propriedades, a guardar silêncio. Abandonou a perspectiva de ser monge – mas não a espiritualidade – para seguir a carreira acadêmica. Hoje, com 55 anos, é professor universitário de educação, conferencista em instituições públicas, empresas e ONGs, comentarista em vários órgãos da mídia e autor de 10 livros, que prefere chamar de “provocações filosóficas”Existe também a religiosidade que quer beber diretamente na fonte, que busca a relação sem mediações com o divino.
O divino, o sagrado, pode ganhar muitos nomes. Pode ser Deus no sentido judaico-cristão-islâmico da palavra; pode ser deuses; pode ser uma vibração, uma iluminação. Independentemente de como o denominamos, há algo que reconhecemos como transcendente, que ultrapassa a coisificação do mundo e a materialidade da vida, que faz com que haja importância em tudo o que existe. Desse ponto de vista, não basta que eu me conecte com os outros ou com a natureza. Preciso fazer uma incursão no interior de mim mesmo, em busca da vida que vibra em mim e da fonte dessa vida. É essa fonte que alguns chamam de Deus. A conexão com essa fonte é aquilo que os gregos chamavam de sympatheia, que significa simpatia. Trata-se de buscar uma relação simpática com o divino.

Sempre é tempo de balanço, de rever trajetórias, de refazer escolhas. Fim de ano nos chama especialmente para isso. Em meio à correria das compras, dos encontros, dos comes e bebes, conseguimos um intervalo para a reflexão? Para nos perguntar: afinal, o que estamos fazendo nesta vida? O filósofo Mario Sergio Cortella tem levado esse tema a vários ambientes. Professor da Pontifícia Universidade Católica e da Fundação Getulio Vargas, ambas em São Paulo, e da Fundação Dom Cabral, em Belo Horizonte, ele foi discípulo do educador Paulo Freire e atuou como secretário municipal de Educação de São Paulo. “Minha pretensão não é dar respostas, mas elementos para as pessoas formularem melhor suas perguntas”, disse no início da entrevista.

Em época de Natal, a sensação é de que há algo a mais na atmosfera. Para uns, é encantamento, elevação. Para outros, apenas nervosismo, que se traduz em febre de consumo, excessos alimentares e conflitos interpessoais. Existe lugar para a espiritualidade em meio a tanta agitação?
Em algumas situações, aquilo que chamamos de espírito de Natal” é algo cínico, que agrega os indivíduos em torno de festividades de conveniência. Mas há muitas pessoas que, independentemente de serem cristãs ou não, têm, nesta época do ano, uma verdadeira experiência do “comemorar”. Gosto dessa palavra porque “comemorar” significa “lembrar junto”. E do que nós lembramos? De que estamos vivos, partilhamos a vida, de que a vida não pode ser desertificada.

Há uma pulsão de vida.
Claro que, a todo instante, está colocada também a possibilidade de que a vida cesse. Somos o único animal que sabe que um dia vai morrer. Aquele gato, que dorme ali, vive cada dia como se fosse o único. Nós vivemos cada dia como se fosse o último. Isso significa que você e eu, como humanos, deveríamos ter a tentação de não desperdiçar a vida. Escrevi um livro chamado Qual É a Tua Obra?, que começa com uma frase de Benjamin Disraeli, primeiro-ministro britânico no século 19. Ele disse: “A vida é muito curta para ser pequena”.

Como não apequenar a vida?
Dando-lhe sentido. A espiritualidade ou religiosidade é uma das maneiras de fazê-lo. A religiosidade, não necessariamente a religião. Religiosidade que se manifesta como convivência, fraternidade, partilha, agradecimento, homenagem a uma vida que explode de beleza. Isso não significa viver sem dificuldades, problemas, atribulações. Mas, sim, que, apesar disso tudo, vale a pena viver. Meu livro Viver em Paz para Morrer em Paz parte de uma pergunta: “Se você não existisse, que falta faria?” Eu quero fazer falta Não quero ser esquecido.

Fale mais da diferença entre religiosidade e religião.
Religiosidade é uma manifestação da sacralidade da existência, uma vibração da amorosidade da vida. E também o sentimento que temos da nossa conexão com esse mistério, com essa dádiva. Algumas pessoas canalizam a religiosidade para uma forma institucionalizada, com ritos, livros – a isso se chama “religião”. Mas há muita gente com intensa religiosidade que não tem religião. Aliás, em minha trajetória, jamais conheci alguém que não tivesse alguma religiosidade. Digo mais: nunca houve registro na história humana da ausência de religiosidade. Todos os primeiros sinais de humanidade que encontramos estão ligados à religiosidade e à ideia de nossa vinculação com uma obra maior, da qual faríamos parte.

De onde vem essa ideia?
Existe uma grande questão que é trabalhada pela ciência, pela arte, pela filosofia e pela religião. A pergunta mais estridente: “Por que as coisas existem? Por que existimos? Qual é o sentido da existência?” Para essa pergunta, há quatro grandes caminhos de reposta: o da ciência, o da arte, o da filosofia e o da religião. De maneira geral, a ciência busca os comos”. A arte, a filosofia e a religião buscam os “porquês”, o sentido. A arte, a filosofia e a religião são uma recusa à ideia de que sejamos apenas o resultado da junção casual de átomos, de que sejamos apenas uma unidade de carbono e de que estejamos aqui só de passagem. Como milhões de pessoas no passado e no presente, acho que seria muito fútil se assim fosse. Eu me recuso a ser apenas algo que passa. Eu desejo que exista entre mim e o resto da vibração da vida uma conexão. Essa conexão é exatamente a construção do sentido: eu existo para fazer a existência vibrar. E ela vibra em mim, no outro, na natureza, na história.

Como você busca essa relação?
De várias maneiras. Às vezes, na forma de um agradecimento. Às vezes, na forma de um pedido. Às vezes, por meio de uma oração consagrada pela tradição – porque, como dizia Mircea Eliade, o maior especialista em religião do século 20, “o rito reforça o mito”. Às vezes, recorrendo a um gesto espontâneo. Outro dia, eu estava em uma cidade litorânea, onde iria palestrar.

Em frente ao hotel, havia uma praia. Caminhando descalço sobre a areia, às 5 e meia da manhã, sentindo o sol que nascia, me veio um forte sentimento de gratidão e rezei, em silêncio, uma oração, das consagradas. Já ontem, eu estava reunido com a família em volta da mesa. Diante da cena dos meus filhos com as esposas, novamente senti gratidão. Ergui a taça de vinho e brindei em agradecimento por aquele momento. Nem sempre a minha relação é de gratidão. Às vezes, é de apelo. Na crença, verdadeira para mim, de que a fonte de vida pode reforçar a minha capacidade de viver, eu peço.

Existe, hoje, um maior impulso para a espiritualidade ou trata-se apenas de mais uma onda passageira?
Guimarães Rosa disse que “o sapo não pula por boniteza, pula por precisão”. De acordo com o headhunter e professor de gestão de pessoas Luiz Carlos Cabrera, a grande virada no mundo empresarial brasileiro ocorreu, de fato, no dia 31 de outubro de 1996 às 8h15, quando um avião da TAM, com 96 pessoas a bordo, todos eles executivos, exceto a tripulação, caiu sobre a cidade de São Paulo. Perdi dois amigos de infância nesse acidente. Aquele foi um momento de inflexão no mundo corporativo. Eu compartilho dessa opinião. As pessoas começaram a pensar: eu podia estar naquele voo e o que eu fiz até agora? Toda a ânsia que caracteriza o mundo corporativo, focada no lucro, na competitividade, na carreira, começou a ser relativizada.

Mas existem também fatores de fundo, que afetam o mundo.
É claro. Um fator, talvez o principal, foi que o século 20, apostando na ciência e na tecnologia, nos prometeu a felicidade iluminada e ofereceu angústia. Em prol da propriedade, sacrificou-se a vida, a convivência, a consciência. O stress tornou-se generalizado, afetando adultos, jovens e até as crianças. Há uma grande diferença entre cansaço e stress. O cansaço resulta de um trabalho intenso, mas com sentido; o stress, de um trabalho cuja razão não se compreende. O cansaço vai embora com uma noite de sono; o stress fica.

Há uma forte cultura da pressa e da distração.
A tecnologia nos proporcionou a velocidade. Mas, em vez de usá-la apenas para fazer as coisas rapidamente, nós passamos a viver apressadamente. Assim como existe uma grande diferença entre cansaço e stress, existe também entre velocidade e pressa. Eu quero velocidade para ser atendido por um médico, mas não quero pressa durante a consulta. Quero velocidade para ser atendido no restaurante, mas não quero comer apressadamente. Quero velocidade para encontrar quem eu amo, mas não quero pressa na convivência. Tempo é uma questão de prioridades. Muita gente argumenta não ter tempo para a espiritualidade, para cuidar do corpo. E segue nesse ritmo apressado até sofrer um infarto. Se não for fatal, o infarto funciona como um sinal de alerta. O dia continua a ter 24 horas, mas quem sobrevive passa a acordar uma hora mais cedo para caminhar e se exercitar. O impulso espiritual também é um sinal de alerta. Não há pressa em segui-lo. Mas cuidado: é muito arriscado adiar indefinidamente para o ano que vem.

Dezembro 20, 2009

Texto de roger {RF}

Arquivado em: BDSM, Humilhação, Masoquismo, Relação D/s, Sadomasoquismo — rose @ 12:02 pm

O texto abaixo é de roger{RF} e foi retirado do blog Frágil Reino http://rainhafragil.wordpress.com

 Destaco os seguintes trechos, os trechos que me definem:

 “Perder o controle, não saber o que virá em seguida, estar vulnerável e subjugado aos caprichos de outra pessoa é mesmo emocionante.” (…) “Muitos pensam que o grande prazer do masoquista é a dor. Isso é até verdade em alguns casos. Eu também curto apanhar, mas a “graça” para mim não é SÓ isso. Para mim, o grande barato é a sujeição.

 

 

Estar subjugada… sujeição. É isso. 

 

Meus adendos ao artigo “A fantasia de ser dominada”, da Revista Nova.

A Revista Nova publicou um artigo intitulado “A fantasia de ser dominada”, onde expõe algumas teorias que procuram explicar por que muitas mulheres possuem esse desejo e mostra dicas de como realizá-lo com o mínimo de riscos. Para acessar o artigo, clique aqui: http://ow.ly/rC1R

Eu, já “versado” no BDSM (sigla que designa as seguintes práticas: Bondage e Disciplina, Dominação e Submissão, Sadismo e Masoquismo) achei a matéria apenas razoável. Entretanto, como ela não é dirigida para os pervertidos sado-fetichistas como eu, e sim para um público leigo no assunto, mas de mente aberta e que topa novas experiências para incrementar a relação, creio que o artigo está de bom tamanho e que serve aos seus propósitos.

Abaixo comentários meus acerca de alguns trechos do artigo (em itálico entre aspas):

“Outro fator excitante: quando a amarram e a obrigam a transar, você não tem o menor controle. A situação é imprevisível, não dá para saber o que virá em seguida… Quem não sente um frio na barriga com o inesperado, o imponderável?”

A melhor comparação que conheço sobre uma sessão BDSM (o intercurso sadomasoquista) é a de andar de olhos vendados numa montanha russa desconhecida. Você mal faz idéia do rumo que tomará, a duração e a intensidade da experiência. Perder o controle, não saber o que virá em seguida, estar vulnerável e subjugado aos caprichos de outra pessoa é mesmo emocionante. Misture isso ao prazer sexual e então…

Muitos pensam que o grande prazer do masoquista é a dor. Isso é até verdade em alguns casos. Eu também curto apanhar, mas a “graça” para mim não é SÓ isso. Para mim, o grande barato é a sujeição. Eu e meu corpo estão disponíveis para o que minha Dona, a Rainha Frágil, bem entender naquela hora. Não faço idéia do que ela fará afim de obter seu prazer, se usará alguns de seus equipamentos de tortura ou simplesmente manipulará meu tesão, mas ela vai obter de qualquer forma.

A dor não é o fim, é apenas o meio. E sabe lá Deus (e minha Rainha) o que acontecerá até o final.

Obviamente que o prazer e a segurança serão maiores se você for dominado(a) por alguém que conheça e confie. Melhor ainda se ele(a) souber o que é que te excita e o que te broxa legal.

Como você será um mero brinquedinho, é bom que saibam que botões apertar.

“Vale lembrar ainda que esse tipo de brincadeira erótica está ligado à submissão. Portanto, desejar colocá-lo em prática pode ser uma maneira de escapar ou se desconectar da sua identidade real e do stress do cotidiano. Um jeito de abandonar as responsabilidades e se entregar total e absolutamente às vontades do outro, sem precisar pensar, refletir ou tomar decisões. Nada mais relaxante e redentor para mulheres que andam sobrecarregadas de obrigações e tarefas…”

Fantasia clássica de um escravo (o “passivo” numa relação BDSM. Nesse texto, “escravo” designará tanto o escravo, como a escrava): ser mantido preso (na masmorra, numa prisão, no quarto de empregada) contra sua vontade e sair de lá somente para apanhar e dar prazer ao seu Dominador (o “ativo” numa relação BDSM. Nesse texto, “dominador” designará tanto o dominador, como a dominadora) – coisas que “coincidentemente” também dão prazer ao escravo. Enquanto está preso, seu Dono lhe dá de comer e cuida de sua integridade física.

Ou seja, o Dominador se responsabiliza pelo seu escravo e este ainda “sofre” coisas que lhe excitam.

Bom demais, não?

Pior que isso tem respaldo na vida real: Soube de um escravo que, após perder o emprego, ligou para uma dominadora com quem teve algumas sessões e avisou que iria morar com ela e serví-la enquanto não arranjava emprego.

Obviamente, o aviso foi rechaçado.

É claro que que um bom escravo não é totalmente passivão. Ele sempre buscará novas e diferentes formas de agradar e surpreender seu dominador.

“A quarta hipótese para explicar o desejo de ser possuída à revelia é que, lá no fundo, algumas de nós considerem o sexo algo sujo ou errado e, inconscientemente, sintam-se culpadas por ter prazer. Então, ao imaginar que estão sendo forçadas a fazer aquilo, se liberam, aproveitando muito mais o rala-e-rola. ‘Às vezes, representar uma personagem permite deixar de lado ressentimentos, dificuldades no relacionamento, autocensura. Facilita viver as sensações’, fala Marina.”

Fugindo um pouco do assunto, essa teoria me lembrou uma prática comum no BDSM: a “Feminização Forçada”, onde a Dominadora “obriga” (Entre aspas. Mais à frente, mostro que não há nada forçado ou obrigado numa sessão BDSM saudável) o escravo a vestir trajes femininos, a se maquiar e até a andar e se comportar como uma mulher ou menina.

A teoria: o sujeito gosta de se vestir e agir feito uma mulher, mas não admite. Daí, para curtir esse prazer, ele é “forçado” por sua Dominadora a se feminizar.

Quem me conhece e já deu uma lida nesse blog, já percebeu que curto muito ser feminizado, mas comigo não tem esse negócio de “forçado”. Eu me feminizo com maior prazer, adoro quando minha Dona e suas amigas me feminizam, e sempre que surge a oportunidade me exponho feminizado em público. Não tenho a menor vergonha de admitir isso. Trajes e maquiagens femininas me deixam ligadão.

“Essa transa com pegada forte pode envolver gritos e tapas de mentirinha ou ser mais romântica, quando seu amor amarra você com lenços de seda e atiça seus sentidos aos poucos, construindo lentamente um orgasmo de ver estrelas. ‘Qualquer variação é normal, DESDE QUE FUNCIONE COMO UM ADITIVO, E NÃO COMO MOTOR DE ARRANQUE PARA QUE O SEXO ACONTEÇA’, pontua Marina.”

Observação tão importante que transcrevi em caixa alta. Se para transar você precisa apanhar ou ser humilhado(a), ou seja, se você se excita sexualmente SOMENTE através da dor física/psicológica, então você possui problemas, e eu sugiro que procure ajuda.

“Seu homem, que vai se sentir o machão-todo-poderoso, precisa ser habilidoso para a cena não se tornar cômica em vez de sexy. Se decidem usar algemas, por exemplo, certifiquem-se de que as chaves estão à mão.”

A grande maioria das algemas vendidas em sex shops possuem travas de segurança, que permitem abrí-las, mesmo sem a chave. Até algemado, é possível se libertar.

“Indispensável também descobrir seus limites.”

A observação mais importante do artigo. É bom saber até que ponto se é capaz de ir para não correr o perigo de decepcionar seu Dominador ou, pior, se ferir gravemente. Tiro por experiência própria: quando fui ter pela primeira vez uma sessão BDSM com uma Dominadora, a Rainha Frágil (sim, ela foi minha primeira Dominadora, e até hoje continuo sendo seu escravo), lhe jurei que eu agüentaria tudo, que ela podia mandar brasa! Aí, quando pela primeira vez apanhei com uma palmatória de couro, cheguei a uma importante conclusão:

AQUILO DÓI PRA CARAMBA!!!

Na terceira palmada, “pedi pra sair”.

(Só não foi mais constrangedor porque ela caiu na risada quando pedi para que parasse. Experiente, não se deixou enganar pelo meu papo amador de “eu-suporto-qualquer-coisa!”)

Costumo classificar os limites em três:

1. Expansíveis
Aqueles que, com um pouco de conversa e muita prática, podem ser superados. De novo, experiência pessoal: penetração. Apavorei-me quando minha Dona tentou me penetrar com o dedo. “Travei” legal. Ela então conversou bastante comigo e convenceu-me a experimentar. Bem aos poucos. Começou com os dedos em luva de látex embebidos em lubrificante, depois um pequeno plug, passei para um maior e agora curto vibradores e bolinhas tailandesas. Sugestão: para evitar sujeira e bactérias do ânus, é bom usar esses acessórios com camisinhas.

2. Intransponíveis, mas adaptáveis.
Aqueles que não se consegue superar, mas pelo menos dá para dar um jeitinho de seu Dominador curtir. A Rainha Frágil por exemplo ADORA quando seus escravos bebem sua urina (uma prática fetichista, urofagia, bem mais comum do que a gente imagina). Tem escravo que também adora beber urina, mas eu não, e dificilmente superarei esse limite, pois, sempre que tentava, começava a vomitar. Não tem jeito. PORÉÉÉÉM… ser “urinado” é outra coisa, consigo tolerar. Sim, sentir aquele líquido quente e de odor forte escorrendo pela nuca, descendo as costas e pingando pelo cóccix é mesmo nojento, Mas como não me provoca náuseas, nem coisa parecida, então me submeto a isso para a alegria de minha Dona (o sorrisão dela vale a pena).

3. Intransponíveis MESMO!
Aqueles que são insuperáveis MESMO! Não se consegue superá-lo, nem mesmo coragem de tentar ou ao menos contorná-lo. No meu caso, um desses limites seria a asfixia erótica. Tá certo que tenho até certo interesse, mas como, além do risco de morte, há o de seqüelas, acho que mesmo surgindo a oportunidade de experimentar, iria recusar.

“Pesquisas mostram que o medo pode ser um afrodisíaco poderoso — desde que o casal não exagere na dose, ou estragará tudo. ‘Qualquer jogo erótico precisa ser seguro e consensual e não deve provocar dor física ou emocional’, alerta a especialista. ‘Não é porque esse tipo de sexo contém elementos de conquista à força, recebendo o nome técnico de estupro fantasioso, que vamos confundir com atos de violência e agressão.’”

O BDSM saudável é apoiado por um importante tripé, O “SSC”: São, Seguro e Consensual.

Numa sessão BDSM, é imprescindível que esses elementos estejam presentes. Eles diferenciam uma sessão BDSM de um caso de abuso, violência doméstica ou psicopatia. Separam um praticante BDSM de um louco ou de um marido violento, por exemplo. Nunca se submeta a práticas de dominação contra a própria a vontade e se não se sentir seguro consigo ou com o Dominador. Evite práticas que envolvam riscos excessívos à sua integridade física e psicológica.

“Que tal combinar com seu homem um código íntimo e pessoal para sinalizar sim e não? (…) Uma vez que vai brincar com o perigo, só entre nessa ao lado de alguém em quem confie completamente. Estabelecendo regras, o resultado será prazer em último grau.”

No contexto BDSM, existe a “Palavra de Segurança” (“safeword”). O escravo quando não agüenta mais, diz a palavra, sinalizando ao Dominador que chegou ao limite. Alguns casais usam duas palavras de segurança: uma para interromper a sessão e outra para que o Dominador maneire um pouco no que está fazendo: por exemplo, diminuir o ritmo das palmadas, dos pingos das velas, etc. Há casos de três palavras: a terceira é para interromper uma tortura que o escravo não suporta mais, e o Dominador então deve começar outra.

Entre os praticantes exaltados, há uma certa polêmica em relação à Palavra de Segurança. Já que pode interromper a sessão quando bem entende, dizem que o verdadeiro poder está nas mãos do escravo e não na do Dominador.

Gente, a Palavra de Segurança apenas confere ao escravo o controle da situação, mas não o domínio. O escravo pode dizer quando a sessão deve acabar, mas não diz o que o Dominador tem de fazer e como fazer.

Além do mais, esse “Poder” é totalmente fictício, só “funciona” dentro de uma sessão BDSM, que, agora você já deve ter percebido, é uma espécie de teatro ou RPG sexual, onde cada parceiro escolhe um papel e o segue até o fim. Um escravo numa sessão BDSM não continua sendo um escravo na “vida social”. Um bom Dominador tem plena consciência disso. A Rainha Frágil jamais me ordenaria a andar de quatro encoleirado no meio de uma rua movimentada. Ela separa a “vida BDSM” da “vida pública”. Além disso, sabe muito bem que eu me recusaria a fazê-lo. E eu tenho toda a permissão de questionar alguma ordem ou vontade sua se eu não me sentir seguro com tal ordem ou vontade.

Afinal, ela não é uma rainha de verdade, nem eu sou um escravo de verdade. Somos apenas duas pessoas que curtem praticar uma divertida e excitante fantasia sexual.

Por isso, mesmo sendo seu escravo, tenho também todo o direito de ter opiniões diferentes das dela, veja só…

Por isso, cuidado com quem leva o BDSM a sério demais!

E… nossa!, quanta coisa para uma matéria que considerei apenas “razoável”, hein?

Muita coisa ficou de fora. O BDSM é um universo imenso, excitante e apaixonante. Felizmente taí a bendita Internet para quem quiser se aprofundar mais nele. Alguns sites que indico aos iniciantes:

Desejo Secreto – http://www.desejosecreto.com.br
GasMask – http://gasmask.wordpress.com
Out of the Shadows: About BDSM – http://www.sexuality.org/authors/lauren/AboutBDSM.html

Pra finalizar, parabéns à Revista Nova. A matéria é bem suscinta, informativa e despida de preconceitos comuns em artigos similares que leio em outras revistas. E, se foi capaz de me provocar – eu, que sou do “meio” -, então espero que tenha estimulado as leitoras interessadas em experimentar.

Mas lembrando: sempre de forma sã, segura e consensual.

Setembro 30, 2009
Categorias: Artigos, BDSM e Fetiches, Matérias e Reportagens . . Autor: escravo roger{RF}

 

Dezembro 18, 2009

“I want to be alone”

 
 
Eu sei que posso dar tudo, se eu me sentir presa.
Um dia (anos atrás) eu me propus a dar tudo, apenas por me sentir muito presa (só senti, é fato… e foi tão bom sentir, foi a esplêndidaúnicaalegriademinhavida me sentir tão presa e foi minha perdição, aquela dor me prendeu por anos a fio, como foi bom sentir aquela dor de pano de chão apodrecido num canto sujo do banheiro escuro de caminhoneiro, humilhada).
Sem isso… sem esse sentimento de pertencer, sem me sentir na prisão, eu não consigo dar nada.
Me aprisione.
Faça doer.
Por favor, me aprisione e então, faça o que quiser de mim.
Aja sobre mim para que eu em submissão, reaja abaixando a cabeça, reaja lambendo o chão, eu pano de chão.
Ação Dominadora – reação submissa. Foi assim que aprendi e não sei mais me submeter sem a ação.
A verdade é essa, não sei mais me submeter, só sei ser submetida.
Ação e reação.
Prisão.
Solta?
Solta… solta só irei bater cabeça.
Solta serei livre.
Confusa e livre.
Solta não tem como ser submissa.
E solta… ahhh se for pra ficar solta prefiro ficar sozinha e ter sessões avulsas, descompromissadas, dessas que quando caba cada um vai pro seu lado gozar sozinho, porque se é sozinho.
Novamente sozinha.
Ora…
Eu não sou o supra sumo da submissão.
Eu não sou “submissa de alma”.
Nunca disse que eu era “submissa de alma”, ao contrário sempre disse que precisava de ser controlada, dominada,submetida, presa, humilhada, machucada.
Eu preciso ser um pano de chão, tem de haver dor real - eu nunca omiti isso e nunca menti sobre isso. Palavras doces não me prendem. Gosto delas, é fato, mas não me preenchem.
E eu não parto do pressuposto da paixão para me submeter, logo…
Eu preciso da ação Dominadora.
Eu sou assim. Eu sou doente. E para as doentes como eu, só há três possibilidades: ser alvo da ação Dominadora, a camisa de força ou a solidão.
“I want to be alone” …

Novembro 29, 2009

No Caminho…

Arquivado em: BDSM, Entrega, Masoquismo, Relação D/s, Sadomasoquismo — rose @ 3:24 am

 A Dominação em si acontece quando alguém oferta seu corpo ou sua alma (mente) a vontade de outrem, em detrimento do seu próprio desejo.

Nos meus primeiros passos neste vasto universo, aprendi que só se está realmente entregue quando há um vazio, uma sensação de que não há vontade. Naquele momento não lhe ocorre pedir, direcionar ou mesmo desejar que algo aconteça. É pura sensação, é pura reação. Os sons parecem distantes, as perguntas lhe parecem completamente confusas e o pensamento incoerente.

As reais percepções dos caminhos tomados aparecem depois, e até mesmo as reais sensações, é quando as marcas lhe orgulham pois trazem a carga do sucesso de ter conseguido, ter ido além, não por e através de você mas sim pela condução Dele.

Neste momento, nesse momento, você é o ser mais vulnerável, você abriu mão de todas as suas defesas. Aquelas que durante a vida, nos percalços, nos “nãos” recebidos e na percepção de julgamentos alheios, você constrói.

Aqui soltamos as lágrimas contidas, as palavras nunca ditas, as manifestações reais do seu ser. Ali você é você, impura, imprudente, despudorada e às vezes até agressiva. E tem alguém ali ao seu lado puxando mais e mais, querendo ver o seu “pior”, tirando você do seu mundo tão bem construído, erguido sob sólidas condições de sobrevivência, pacífico.

 Alguém que te mostra o outro lado do universo, que te apresenta ao seu atrativo “circo de horrores”. Ali estão as mais diversas figuras, formas, sombras, luzes, cores, sons e odores. O assustador “parque de diversões” com todos os variado perigos atrativos. E Ele te oferece um passaporte vitalício.

Mas há condições implícitas nesse tentador convite: você tem que participar de toda a festa, entrar em cada brinquedo e experimentar cada doce. Conflito entre desejo e medo. Mas a mão que te segura, assegura: estarei ao seu lado todo o tempo, basta segurar forte na minha mão.

Então no algo da montanha russa você percebe que não devia estar ali e se vê “morrendo”, “esborrachando no chão” e percebe que Ele sorri. Você o odeia, você vê o monstro. Grita com Ele mas Ele não ouve.

Depois da descida o carro para. Você não tem pernas, sua voz não sai, o coração está saindo pela boca, sente frio, ânsias de vomito, frêmitos. Ele está ali e te toma pela mão, te abraça, te aquece, fala por ti e para ti. Diz que sua cor está voltando, o quanto está linda e perfeita. O quanto é corajosa.

 Você começa a sorrir novamente. Pergunta pela próxima viagem.

A condução que não lhe permite voltar atrás. O momento que o não vem à mente e a boca diz sim.

A certeza de que apesar de tudo você vai voltar.

(vaca profana – vaquinha)

Novembro 15, 2009

Por que hoje, eu sou esse poema

Arquivado em: Amor, BDSM, Entrega, Experiência Pessoal, Humilhação — rose @ 6:30 pm

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O Guardador de Rebanhos (Canto XXXIX) – Alberto Caieiro
 
O mistério das coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.

Outubro 21, 2009

Silêncios

Arquivado em: Experiência Pessoal, Poesia — rose @ 1:26 pm
silencio 
Do nada,
vem o silêncio que nos ensurdece.
É o momento
que o poeta descansa.
É o tempo que poucos ouvem,
do silêncio.
pedra atirada n´água
estrela caindo do céu
letras, brincando, sem véu.
O surgimento consolidado,
como cimento.
Mas, antes de existir luz e escuridão,
houve o silêncio, sem permissão.
houve o silêncio.
sonífero do tudo…
das pedras
das estrelas
das letras.
Quando se foi o silêncio
intruso passageiro
se foi o ouvir.
Do tudo,
vem o som que nos emudece.
Sandra Barbosa

Outubro 9, 2009

Presente

Arquivado em: Experiência Pessoal — rose @ 10:26 pm

 

Ain’t Got No / I Got Life – Nina Simone 

 
   
Ain’t got no home, ain’t got no shoes Não tenho casa, não tenho sapatos
Ain’t got no money, ain’t got no class Não tenho dinheiro, não tenho classe
Ain’t got no skirts, ain’t got no sweaters Não tenho roupa, não tenho suéteres
Ain’t got no faith, ain’t got no beard Não tenho fé, não tenho barba
Ain’t got no mind Não tenho mente
   
Ain’t got no mother, ain’t got no culture Não tenho mãe, não tenho cultura
Ain’t got no friends, ain’t got no schooling Não tenho amigos, não tenho escolaridade
Ain’t got no name, ain’t got no love Não tenho nome, não tenho amor
Ain’t got no ticket, ain’t got no token Não tenho passagem, não tenho ficha telefônica
Ain’t got no God Não tenho Deus
 
What have I got? O que eu tenho?
Why am I alive anyway? Porque eu estou viva?
Yeah, what have I got? Sim, o que eu tenho?
Nobody can take away Ninguém pode se livrar disso
 
I got my hair, I got my head Tenho meu cabelo, tenho minha cabeça
I got my brains, I got my ears Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas
I got my eyes, I got my nose Tenho meus olhos, tenho meu nariz
I got my mouth, I got my smile Tenho minha boca, tenho meu sorriso
 
I got my tongue, I got my chin Tenho minha língua, tenho meu queixo
I got my neck, I got my boobs Tenho meu pescoço, tenho meus seios
I got my heart, I got my soul Tenho meu coração, tenho minha alma
I got my back, I got my sex Tenho minhas costas, tenho meu sexo
 
I got my arms, I got my hands Tenho meus braços, tenho minhas mãos
I got my fingers, Got my legs Tenho meus dedos, tenho minhas pernas
I got my feet, I got my toes Tenho meus pés, tenho meus dedos dos pés
I got my liver, Got my blood Tenho meu fígado, tenho meu sangue
 
I’ve got life, I’ve got my freedom Tenho vida, tenho minha liberdade
I’ve got the life Tenho a vida
 
I got a headache, and toothache, Tenho uma dor de cabeça e dor de dente
And bad times too like you, Momentos ruins como você
I got my hair, I got my head Tenho meu cabelo, tenho minha cabeça
I got my brains, I got my ears Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas
I got my eyes, I got my nose Tenho meus olhos, tenho meu nariz
I got my mouth, I got my smile Tenho minha boca, tenho meu sorriso
 
I got my tongue, I got my chin Tenho minha língua, tenho meu queixo
I got my neck, I got my boobies Tenho meu pescoço, tenho meus seios
I got my heart, I got my soul Tenho meu coração, tenho minha alma
I got my back, I got my sex Tenho minhas costas, tenho meu sexo
 
I got my arms, I got my hands Tenho meus braços, tenho minhas mãos
I got my fingers, Got my legs Tenho meus dedos, tenho minhas pernas
I got my feet, I got my toes Tenho meus pés, tenho meus dedos dos pés
I got my liver, Got my blood Tenho meu fígado, tenho meu sangue
 
I’ve got life, I’ve got my freedom Tenho vida, tenho minha liberdade
I’ve got life, I’m gonna keep it Tenho a vida, vou conservar isso
I’ve got life, I’m gonna keep it Tenho a vida, vou conservar isso

Setembro 18, 2009

Mi Cumpleaños

Arquivado em: Experiência Pessoal — rose @ 8:25 pm

Diviérteme el día de mi cumpleaños, porque nunca volverás a ser tan joven. Pero tengo cuidado, porque nunca has sido tan viejo. Feliz Cumpleaños a mi.

 

εїз

“Ser disponível a vontade do outro é saber-se desnecessária”

εїз

 

 

Completando hoje 39, certa ainda de que a frase acima é a minha verdade pessoal.

Setembro 17, 2009

Caminhando pelo Bairro Gótico – Barcelona – set.2009

Arquivado em: Experiência Pessoal — rose @ 2:48 pm

As praças - como a da imagem abaixo que fica frente a uma Igreja - são amplas (afinal para queimar seres humanos em fogueiras em praça pública faz-se necessário espaço, muito espaço). Já as ruas, de pedra, têm no máximo um metro e meio de largura, não passam carros. As construções, também em pedra, imponentes. Gárgulas, muitas gárgulas e quimeras nos tetos – dizem que serviam como “guardiãs”, protegendo das influências maléficas os locais onde estavam implantadas e também para embelezar os orifícios por onde as águas escorriam dos telhados para o chão. Sombra, muita sombra… Cantos e escadarias. Detalhes esculpidos pela mão humana há mais de 9 séculos atrás. Muitos detalhes. Igrejas .  Muita gente circulando durante dia e noite, sem parar. Imagino como deve ser a paisagem sem gente nas ruas, no escuro. Fecho os olhos e vejo. Tudo ermo, silencioso. Um bom cenário para castigos, a Idade Média…

Barcelona - Rose 406

Bairro Gótico – Barcelona – set.2009

Arquivado em: Experiência Pessoal — rose @ 2:44 pm

Barcelona - Rose 387Barcelona - Rose 375Barcelona - Rose 376

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Agosto 26, 2009

Arquivado em: Experiência Pessoal — rose @ 2:31 pm

Essa semana fui à Polícia Federal buscar meu passaporte e à casa de câmbio adquirir os euros necessários. Dentro do táxi, tocava essa canção. Fechei os olhos e a enxerguei. A enxerguei como um filme. O filme da minha existência.

Você vai me Seguir

Composição: Chico Buarque

Você vai me seguir aonde quer que eu vá Você vai me servir, você vai se curvar Você vai resistir, mas vai se acostumar Você vai me agredir, você vai me adorar Você vai me sorrir, você vai se enfeitar E vem me seduzir Me possuir, me infernizar Você vai me trair, você vem me beijar Você vai me cegar e eu vou consentir Você vai conseguir enfim me apunhalar Você vai me velar, chorar, vai me cobrir e me ninar

Agosto 17, 2009

Reli esse livro, com olhos de D/s

Arquivado em: Livros — rose @ 8:43 pm

“Obediência não é o suficiente. A não ser que uma pessoa esteja sofrendo, como você pode ter certeza que ela está obedecendo à sua vontade e não à dela? O poder está em infringir dor e humilhação. O poder está em rasgar mentes humanas em pedaços e colocá-las juntas de volta em novas formas escolhidas por você mesmo.”

 

Trecho extraído do livro 1984, de George Orwell

Agosto 1, 2009

Me esqueça

Arquivado em: Experiência Pessoal — rose @ 6:59 pm

“Eu não sei dizer, nada por dizer… então eu escuto… Se você disser, tudo o que quiser…então eu escuto… lá, lá, lá, lá, lá, lá. lá, lá, lá Fala lá, lá, lá, lá, lá, lá. lá, lá, lá Fala Se eu não entender, não vou responder… então eu escuto Eu só vou falar, na hora de falar… então eu escuto… lá, lá, lá, lá, lá, lá. lá, lá, lá Fala lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá Fala” (Secos e Molhados)

Fala-se de tudo, fala-se de todos. Fala-se do que não se viu. Fala-se do que não se sabe. Fala-se do que se fantasia. Fala-se do que se acha que aconteceu. Fala-se de confissões feitas em confiança. Fala-se. Vento. Espalha. Esquece. Cala!

Julho 31, 2009

Barba Azul

Arquivado em: Castigo, Contos — rose @ 12:49 pm

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Era uma vez um rico cavalheiro que adquiriu muitas propriedades espalhadas ao longo de vários reinos. Ele viajava muito de um lugar para outro, jamais permanecendo por muito tempo num local, para que ninguém soubesse exatamente onde residia nem o que fazia ou com quem. Por isso havia muita curiosidade e especulação sobre ele.

Essas circunstâncias eram agravadas por seu aspecto, que parecia confirmar sua aparente excentricidade, pois ele era tão desafortunado que possuía uma barba azul. Seu misterioso estilo de vida, aliado à sua aparência peculiar, depunha contra ele de modo provavelmente injusto e o reputava como dono de um caráter duvidoso. Seu sobrenome foi esquecido e ele era conhecido simplesmente como Barba Azul.

A misteriosa vida de Barba Azul era assunto habitual das conversas entre vizinhos de suas inúmeras mansões, castelos e propriedades, e, como as histórias contadas sobre ele, sua reputação se tornava mais e mais escandalosa. De fato, acreditava-se firmemente que Barba Azul possuía tantas propriedades exclusivamente para abrigar inúmeras esposas. Mas, como elas não apareciam, ficava estabelecido que tinham sofrido alguma tragédia. Ninguém sabia dizer ao certo quem eram as mulheres. No entanto, as damas se retraíam de medo sempre que Barba Azul se aproximava.

Acontece que uma das vizinhas de Barba Azul era uma viúva com duas filhas adultas. Ao visitar sua propriedade naquela região, Barba Azul notou as filhas e, logo depois, revelou à viúva seu desejo de se casar com uma delas, deixando que as próprias moças escolhessem com quem seria. Porém, diante da oferta de Barba Azul, as filhas da viúva o passaram repetidamente uma à outra, já que nenhuma das duas gostava da idéia de ter um marido de aspecto tão medonho e passado tão duvidoso. Assim, elas o recusaram seguidamente, até que Barba Azul, no empenho de ganhar a afeição de uma ou de outra, as convidou para um de seus castelos distantes. Elas logo aceitaram, pois estavam curiosas por saber como vivia Barba Azul e averiguar se eram verdadeiros os boatos sobre sua fortuna extraordinária e suas excentricidades.

Então a viúva e suas duas filhas, junto com um  grupo de amigos íntimos, foram se hospedar no castelo de Barba Azul. Todos permaneceram como convidados um mês inteiro, período que transcorreu com inúmeras festas, belos jantares e outros tipos de divertimento que ninguém queria que acabasse, muito menos as filhas da viúva. Aliás, a visita correu tão bem que a irmã mais velha começou a achar que Barba Azul já não era tão temível de ser olhado, e até sua barba já não parecia tão azul.

Pouco tempo depois, Barba Azul e a filha mais velha da viúva estavam casados. E, apesar dos boatos sobre ele, sua noiva encontrou um marido amável e atencioso, que não economizava para prover todos os seus desejos. Ela ingressou contente em sua nova vida com ele.

Porém, como todos que já foram casados sabem, há muita coisa que não se descobre sobre o outro até um bom tempo depois do casamento. Certo dia, a esposa de Barba Azul descobriu isso, quando o marido se preparava para partir rumo a uma longa viagem que o manteria afastado por pelo menos uma semana, cuidando de negócios. Ela estava decepcionada pelo fato de o marido se ausentar tão rápido após o casamento, mas Barba Azul logo lhe sugeriu que se divertisse, dando festas e enchendo o castelo de convidados. Deu-lhe uma argola com muitas chaves que abriam todas as portas dos cômodos, dando acesso a todos os pertences em seus interiores, de modo que ela tivesse qualquer coisa que seu coração desejasse.

Mas, subitamente, a fisionomia de Barba Azul ficou séria. Ele apontou para uma chave pequenina, de aparência estranha, presa à argola. Ao mostrar a chave à esposa, Barba Azul explicou que era da porta de um pequeno cômodo no final do corredor, no andar térreo do castelo. Sem maiores explicações, Barba Azul proibiu terminantemente que ela usasse a chave e entrasse no cômodo, alertando-a que sofreria imensamente caso o desobedecesse. Apesar de suas repetidas tentativas para saber a razão dessa proibição, ela nada conseguiu. Ela olhava a pequena chave enquanto o marido se despedia carinhosamente.

É de se pensar que a esposa de Barba Azul estivesse ávida por chamar seus amigos e dar uma grande festa, mas, na verdade, enquanto via a carruagem do marido se afastar através da janela, ela foi tomada pela curiosidade de saber o que havia no quartinho no fim do corredor térreo do castelo. E, de fato, a pobre dama não conseguia pensar em mais nada, tornando-se totalmente incapaz de encontrar prazer nos inúmeros luxos que estavam diante dela.

Levando a chavinha até o quarto proibido, ela ficava de um lado para o outro dos longos corredores do castelo de Barba Azul, refletindo sobre o aviso dado pelo marido. A certa altura, ela se viu em pé na soleira da porta do quarto no qual sua entrada fora proibida. -Preciso dar uma olhada aí dentro, ou não terei paz – ponderou ela.

Sem pensar mais sobre o assunto, ela cuidadosamente encaixou a pequena chave no buraco da fechadura e virou a maçaneta. Ao soltá-la, a porta se abriu, mas o quarto estava um breu, com as cortinas fechadas. Ela percorreu os bolsos em busca de fósforos e, ao achá-los, rapidamente acendeu um.

Ela deu um passo à frente assim que seus olhos, acostumando-se à escuridão, pousaram sobre uma mesa imensa. Havia algemas presas à mesa, com o propósito óbvio de prender alguém. Seus olhos se arregalaram.

Em outra parte do quarto ela viu uma corda grossa pendendo do teto. Mais ou menos no meio da corda havia uma algema e, logo abaixo, a corda se dividia em duas partes ligadas a outra algema presa ao chão. Numa parede próxima havia várias tiras de couro, de diversos comprimentos e larguras.

Ao olhar os objetos horrorizada, a esposa de Barba Azul subitamente lembrou dos inúmeros boatos que ouvira sobre as esposas anteriores do marido, todas supostamente mortas. De repente, lhe ocorreu que ele provavelmente as teria matado nesse mesmo quarto, já que, sob seu olhar inexperiente, os objetos que via ali não serviam para outro propósito.

Mas não havia mais tempo para pensar sobre a questão e, naquele exato momento o fósforo que ela segurava lhe queimou os dedos. Com um rápido gemido, a moça largou no chão o fósforo e a argola com as chaves, aterrorizada. Tremendo muito, ela apalpou em busca das chaves na escuridão e, finalmente após encontrá-las, saiu correndo do quarto proibido, passando pelo corredor, e entrou na primeira porta que encontrou aberta. Desabou numa cadeira.

Apavorada, ela lentamente foi recobrando a compostura. Dizia a si mesma que o marido não teria como saber que ela entrara no quarto – pois não tocara em nada. Pensando nisso, ela olhou o chaveiro e suspirou. Seria só sua imaginação, ou a chavinha do quarto proibido havia mudado? Sim, ela se tornara vermelho vivo!

Essa descoberta fez com que seu coração voltasse a disparar e, desesperada, ela pegou uma ponta de seu casaquinho e esfregou a chave vigorosamente, mas, apesar de todo o seu empenho, o vermelho não saía da chave. Depois de um tempo ela percebeu que se tratava de uma chave encantada e, se seu marido a visse, saberia que ela o havia desobedecido. Mas ela pensou:

-Se eu tirar a chave da argola, talvez Barba Azul acredite que ela se perdeu.

Ao pensar nisso, uma sombra escura recaiu sobre ela. Ao olhar para cima, ela viu ninguém menos que Barba Azul, em pé, à sua frente. Ela escondeu as chaves atrás de si e tentou desesperadamente parecer feliz ao vê-lo, mas ele podia ver em seu rosto, mais pálido que a morte, que ela entrara no quarto proibido.

Entretanto, Barba Azul não acusou a esposa imediatamente. Em vez disso, falou com ela de forma agradável, contando-lhe que, ao se aproximar da cidade, encontrara um mensageiro que vinha ao seu encontro para dizer que o negócio havia sido concluído de forma satisfatória, o que tornava sua viagem desnecessária. Ele explicou tudo isso amavelmente, porém a pobre esposa não saberia dizer nada do que fora dito, de tão preocupada que estava.

Mas, por fim, Barba Azul pediu gentilmente à esposa que lhe desse a argola com as chaves. Como você pode imaginar, a moça fez tudo o que podia para retardar a entrega, mas o marido não mudava de assunto, e ela acabou lhe dando as chaves.

Barba Azul as examinou cuidadosamente, depois lhe disse: – Por que a chave que a proibi de usar ficou vermelha?

Ao ouvir isso, ela explodiu em lágrimas e confessou tudo, implorando que o marido a perdoasse. Mas Barba Azul agarrou-a vorazmente, arrastando-a, propositalmente, até o quartinho no fim do corredor, dizendo: – Agora você irá conhecer seu próprio destino naquele quarto!

A pobre mulher suplicou ao marido por piedade, com lágrimas correndo por seu lindo rosto, de modo que o mais duro dos corações teria amolecido. Mas Barba Azul virou o rosto, destrancando o quarto rapidamente, forçando a esposa relutante a entrar, e entrando em seguida. Depois trancou a porta atrás deles.

A esposa de Barba Azul subitamente ficou em silêncio, aguardando, em pé, no quarto escuro. Sem qualquer dificuldade ou hesitação, Barba Azul logo acendeu uma lanterna e a colocou numa mesinha, próximo à mesa com as algemas. Depois se aproximou da esposa.

Ela prendeu a respiração completamente aterrorizada, enquanto Barba Azul levou a mão até seu rosto e suavemente o acariciou, antes de baixar as mãos até seu pescoço, cuidadosamente pegando abaixo da gola de lese de seu vestido. Ela apertou os olhos, pensando que ele a estrangularia naquele mesmo instante. E, extraordinariamente, algo dentro dela voltou à vida, ao toque do marido. Ela ainda o amava!

De uma só vez ouviu-se o ruído de um rasgo, e seu vestido foi arrancado e puxado, em pedaços. Depois foi sua roupa de baixo e, antes que seus olhos se acostumassem à luz fraca, ela se viu diante do marido sem um fiapo de roupa sequer. Ela sentia novas lágrimas brotando em seus olhos, ao lembrar o carinho com que ele a segurara nos braços, apenas horas antes. O fato de que ele poderia matá-la (o que acreditava que ele estivesse prestes a fazer) partia seu coração.

Barba Azul conduziu a esposa até a corda que a deixara pensativa instantes antes. Com grande habilidade ele prendeu seus punhos à algema central, ajustando-a de forma que os braços ficassem estendidos acima da cabeça. Depois prendeu as algemas dos pés ao chão, que tinham uma distância que lhe causava uma sensação constrangedora. Horrorizada demais para falar, ela permanecia aberta e esticada, muda e  trêmula. Assim, após confiná-la, Barba Azul se aproximou da parede de onde pendiam as inúmeras cordas. Vendo que o marido as examinava criteriosamente, ocorreu-lhe o que seriam aquelas tiras de couro e como ele as usaria nela. Ao perceber isso, ela compreendeu também que sua vida não estava em perigo, mas ela estava apreensiva demais pelos horrores encobertos para que pudesse ter algum alívio. Ela começou a lutar com as amarras ao ver que ele escolhera uma tira negra grossa. Barba Azul se virou na direção da esposa dizendo: – Pelo grande amor que lhe tenho, você levará apenas trinta chicotadas.

Após um segundo de choque e silêncio, a esposa de Barba Azul começou novamente a rogar por clemência. Ele ignorou com a mesma calma e tom casual, prosseguindo um pouco mais alto para sobrepor seus gritos.

-Você irá contar as chicotadas à medida que eu as proferir. Se pular uma sequer, começarei do início. E também terá de aceitá-las por vontade própria, reconhecendo que as merece. Pode gritar, mas não poderá protestar, ou começarei novamente.

Logo após esse temeroso discurso, Barba Azul largou o chicote que voou brutalmente nas costas da esposa, pela primeira vez. Ela gritou e novas lágrimas brotaram em seus olhos.

-Começaremos novamente – foi a resposta cruel de Barba Azul e outra vez o chicote atingiu a carne de sua mulher. Dessa vez ela anunciou:

-Um!

Um instante depois outra chicotada a atingiu, e ela ouviu a própria voz gritar: -Dois! Choque e horror se misturavam à sua vergonha e, ainda assim, com o próximo golpe do chicote ela conseguiu gritar:

-Três!

Barba Azul continuou a investida, e a esposa obedientemente gritava o número correspondente de cada uma das dolorosas chicotadas. Sistematicamente, Barba Azul parava para perguntar:

“Quantas chicotadas ainda quer, meu amor?”, ou “Diga-me, quantas chicotadas ainda devo lhe dar?”, ao que ela era forçada a responder com a quantidade restante para completar as trinta chicotadas. De alguma forma ela conseguiu fazer tudo isso, apesar de sua pele ter tomado um tom de vermelho ardente, muito antes de terminarem os trinta golpes.

Quando ela finalmente suportou a contagem, o marido se aproximou e carinhosamente beijou-lhe o rosto e lábios. Apesar de agora saber que ele não a mataria, ela ainda pensava no que estaria por vir. Mesmo assim, se viu retribuindo seus beijos, em parte por alívio, em parte por uma necessidade nova e incompreensível que crescia dentro dela. Ela começou a dizer palavras profundamente suaves de perdão e amor. Mas Barba Azul afastou os lábios dos dela, repreendendo-a carinhosamente.

-Uma esposa amorosa não lança mão de algo que não lhe foi livremente dado pelo marido.

Barba Azul cuidadosamente soltou as mãos e os pés da esposa, puxando-a para seus braços, carregando-a até a mesa das algemas. Ele a colocou sobre a mesa com cuidado, posicionando seu corpo para que ficasse sobre as mãos e joelhos, com as pernas bem afastadas. Depois Barba Azul forçou sua cabeça abaixo, para a mesa, e colocou inúmeros prendedores ao redor de seu pescoço para mantê-la no lugar.

Ela estava profundamente humilhada e agitada pelo fato de suas partes mais íntimas estarem à mostra.

Horrorizada, ela percebeu que o marido caminhara até aquela ponta da mesa e a observava.

Ela sentia seu hálito morno em seu corpo quando ele se aproximou, depois algo macio e molhado tocou suas partes expostas. Ela levou algum tempo até perceber que era sua língua e gemeu de prazer e apreensão. Ele prosseguiu implacavelmente, até que ela ficasse incapaz de lutar contra os sentimentos de excitação que a tomavam. Ela relutava sob as amarras, no empenho de aumentar seu próprio prazer. Mas, pouco antes de atingir o clímax, o marido parou, deixando-a ansiosa e aflita. Ele repetiu esse processo várias vezes e, a cada uma delas, provocava sua submissão perguntando:

-A quem obedecerás desse dia em diante? -E, a cada pergunta, o que mais poderia ela dizer, além de prontamente reconhecer seu poder e obedecê-lo?

Barba Azul continuou provocando a esposa desta forma por um tempo que, para ela, pareceu uma eternidade. Porém, ele subitamente parou e caminhou até o lado oposto da mesa, posicionando-se diretamente em frente a ela. Depois lhe soltou o pescoço e ergueu-lhe a cabeça. Já estava com as calças abertas e sua excitação estava a apenas alguns centímetros de seus lábios.

Ela hesitou por apenas alguns instantes antes de entender o que ele tinha em mente. Depois o tomou vorazmente, sentindo um apetite feroz em satisfazê-lo de qualquer maneira que ele a deixasse. Ele a observava atentamente, enquanto ela se deleitava com o prazer que lhe proporcionava.

Ela o tomava em golpes cada vez mais fortes e rápidos, mas quando ele estava a ponto de explodir, ela recuou, da mesma forma como ele fizera com ela. Naquele instante os olhares se encontraram, e ela pôde ver a exigência silenciosa. Hipnotizada por seu olhar poderoso, ela arqueou o pescoço e, num gesto submisso, o tomou novamente, realmente o saboreando.

Ao terminar, Barba Azul voltou a colocar carinho samente a esposa sobre a mesa e prendeu seu pescoço como antes. Depois saiu da sala.

Ela aguardou seu regresso em total agonia.

Ele finalmente voltou, carregando um pequeno frasco. Mais uma vez se colocou ao pé da mesa. Ela esperava ofegante enquanto o marido preparava seu próximo ato.

Ela sentiu uma sensação fria adentrando seu corpo e relutou para se afastar, mas Barba Azul a aquietou, segurando-a firmemente com sua mão livre. Algo a estava perfurando! Algo terrivelmente frio!

Ela lentamente percebeu que só podia ser algum tipo de objeto volumoso feito de líquido congelado, por sentir a penetração aguda e subseqüente umidade, à medida que o objeto derretia.

O frio despertou-lhe os sentidos, tornando-os mais alertas, de modo que o desejo que ela sentia foi se tornando doloroso. Mas antes que a dor se transformasse em prazer, o objeto se dissolveu. Ela gemia queixosa enquanto o marido lentamente repetia o processo e ria de vez em quando de sua óbvia irritação. Mas ela não percebia nada além da deliciosa tortura entre suas pernas.

Isso continuou até que a esposa de Barba Azul ficasse febril e trêmula. Ao vê-la assim, ele parou subitamente a ação agonizante e voltou a deixá-la sozinha no quarto. Ela gemeu baixinho. Havia uma dor excruciante pulsando ao longo de seu corpo e a posição em que ela se encontrava tornava impossível eliminá-la. A dor pungente latejava entre suas pernas, alastrando-se lentamente por seu tronco e membros. Ela sabia que teria de esperar até que o marido quisesse aliviá-la. E esperou.

Barba Azul finalmente voltou ao quarto, trazendo consigo outro recipiente. Ela prendeu novamente a respiração, conforme o marido retomou sua posição.

Dessa vez foram as mãos de Barba Azul que ela sentiu, acariciando-a. Ela gemeu de prazer, mas, segundos depois, sentiu um calor ardente no local onde ele havia esfregado, e gritou de frustração. Barba Azul voltou a aquietá-la e a manteve firme, mas o movimento de sua mão ficava mais brutal, furiosamente a detendo, até que ela não sentia nada além da queimação do lugar onde ele friccionara. Mas essa dor também deu lugar ao prazer, e ela alternava entre gritos e gemidos, num instante tremulando os lábios violentamente, no intuito de fugir de seu carinho torturante, logo depois movendo os quadris de encontro às suas mãos para aumentar o prazer. Mas ele sempre parava quando percebia sua satisfação e, à procura do ungüento misterioso, ele reiniciava o processo, abrindo-a, forçando o calor profundamente dentro dela.

Finalmente, a pobre dama já havia suportado tudo que podia, e começou a chorar desoladamente. Desgostoso por ver a esposa tão infeliz e pensando que ela já havia sido suficientemente punida, Barba Azul rapidamente soltou-lhe os membros e a ergueu na mesa. Ele a segurou firme nos braços e beijou seu rosto molhado repetidamente, confortando-a com palavras amorosas. Mas ela continuava a soluçar.

Percebendo o que a esposa queria, Barba Azul logo a puxou para si, penetrando seu corpo latejante. Ele fez amor com ela suavemente, pelo tempo que ela quis. Eles permaneceram ali, na verdade, pelo restante do dia, e dessa vez ele a satisfez repetidamente, até que seu sofrimento fosse inteiramente esquecido.

Assim como esquecidas as suas promessas de obedecer o marido, me atrevo a dizer que eles voltaram a visitar aquele quarto outra vez!

 

Contos de fadas eróticos / Nancy Madore; tradução de Alice Klesck. -Rio de Janeiro: HR, 2007.

Tradução de: Enchanted: erotic bedtimes stories for women

ISBN 978-85-7687-385-3

Julho 30, 2009

A Bela e a Fera por Nancy Madore

Arquivado em: Contos — rose @ 4:19 pm

bram-stokers-dracula-gary-oldman-and-sadie-frost22Meu nome é Bela. É provável que você já tenha ouvido falar de mim. Minha história, ou melhor, a história que contam a meu respeito, já foi repetida inúmeras vezes. Mas nem de longe é a minha história. Os detalhes foram totalmente omitidos. Eu pensaria que, depois de ser repetida tantas vezes, alguém, ao menos uma vez, esbarraria na verdade. E talvez alguns de vocês tenham lido por entre as frases ilusórias e desconfiado da verdade, por mais inacreditável e chocante que pareça. Ou talvez a verdade seja realmente fantástica demais para se acreditar. Admito que há vezes em que eu mesma quase não acredito, e tudo parece um sonho distante.

De fato, parte do que foi registrado como minha vida é verdade, já que, para salvar a vida de meu pobre pai, concordei em viver com uma temível criatura, mais fera do que homem. Também é verdade que me apaixonei pela Fera. Quanto ao que aconteceu depois disso, os livros de história são bem precisos em sua apresentação da Fera que, diante de minha declaração de amor, foi liberta de uma maldição e voltou à sua forma original, como um charmoso príncipe. Nós nos casamos naquele mesmo dia.

Mas aí terminam as semelhanças entre a lenda que vocês leram e a minha incrível narrativa. Porque eu não vivi “feliz para sempre”, depois daquele dia.

Eu sinto falta de minha Fera.

Enquanto definho por entre os corredores desse castelo, meu pensamento sempre regressa ao primeiro dia que passei aqui. Foi com grande tremor que deixei meu quarto naquele dia, com muita cautela, seguindo pelos vastos corredores que serpenteiam por essa fortaleza. Apesar de toda a especulação sobre o assunto (motivo pelo qual não preguei os olhos na noite anterior), eu não podia imaginar o porquê de a Fera ter solicitado minha presença. Passei aquele dia sozinha, entrando e saindo dos cômodos, olhando os arredores desconhecidos, enquanto tentava adivinhar o que vinha pela frente.

Não se pode dizer que vim para esse imenso castelo da Fera contra minha vontade, pois eu estava um tanto ansiosa em deixar para trás a pobreza e o tédio de minha infância. Portanto, quando o dever me premiou com essa aventura, não fiquei totalmente insatisfeita.

Eu não poderia dizer como um castelo deveria ser, mas pareceu-me que tudo o que vi era exatamente como deveria. Ancestrais de aparência um tanto austera me olhavam desdenhosos nas molduras penduradas nas paredes. Outras paredes exibiam tapeçarias de piqueniques franceses, vinhedos italianos e outros encontros exóticos. A mobília era entalhada na mais fina madeira, os carpetes exageradamente grossos e coloridos. Resumindo, tudo era um tanto extraordinário em sua elegância e esplendor.

Naquele dia não tive a chance de encontrar a Fera, enquanto vagava pelo castelo. Em minha chegada, na noite anterior, ele instruíra um serviçal a me conduzir diretamente ao meu quarto, depois rapidamente me despedi de meu pai, e o vi carregar dois baús pesados em sua carruagem. Eram presentes da Fera, que ordenara que enchessem os baús de tesouros para meu pai levá-los com ele. Pensar em minha família abrindo os baús me proporcionou satisfação e calma.

Não saí de meu quarto durante o restante da noite, por mais que estivesse inquieta e sem sono. Pelas longas horas daquela noite silenciosa, até o começo do dia seguinte, pensei sobre o fim de minha vida antiga, enquanto seguia de um cômodo a outro, olhando tudo, minuciosamente, sem ver uma alma Viva.

o jantar foi anunciado com o tocar de uma campainha, e foi então que voltei a encontrar a Fera. Apesar de sua aparência horrível e de sua voz rude, fui felizmente surpreendida ao descobrir que ele era, de fato, um anfitrião encantador, pois passamos o primeiro jantar conversando amistosamente, acompanhados de comida e bebida que deleitavam o paladar.

Assim que a refeição terminou, a Fera se levantou, me inspecionando por um instante com seus olhos escuros, antes de perguntar:

-Aceita se casar comigo, Bela?

Encarei a Fera estarrecida. O que eu deveria fazer? Embora meu coração estivesse batendo forte, em estado de alerta para não enfurecê-lo, de algum modo consegui sussurrar:

-Não, Fera. A Fera acenou ligeiramente com a cabeça e disse: -Então está bem -num tom que indicava já

esperar essa resposta, depois se foi pelo corredor.

Aliviada por não ter provocado a Fera com minha recusa à sua proposta, também deixei a sala de jantar para me recolher.

Esqueci de descrever meu quarto? Não pense que foi por não valer a pena, pois era e ainda é o quarto mais bonito que encontrei nesse elegante castelo.

Na noite anterior, assim que entrei no cômodo, estava preocupada em reparar em tudo ao redor. No entanto, nessa noite, passei de uma coisa para outra, examinando a enorme variedade de objetos que haviam sido colocados ali para meu conforto, até que meus olhos pararam na cama extraordinária em que eu iria dormir. Ao longo dos dosséis altíssimos exibiam-se entalhes detalhados de imagens de animais, circundando as bordas e subindo até o alto, onde havia um homem coroado. Eu desconhecia o significado dos entalhes extraordinários que adornavam aquelas molduras de madeira, mas, mesmo assim, olhava-os atentamente, de forma que sua beleza não foi desperdiçada comigo, apesar de minha criação humilde.

Ao lado da cama havia um buquê enorme, com mais de cem flores cor-de-rosa, colocadas num vaso imenso na mesinha-de-cabeceira. E posso garantir que, daquele dia em diante, nunca mais houve uma noite em que eu entrasse em meu quarto sem encontrar um lindo buquê de flores recém-colhidas.

A roupa de cama era tão magnífica quanto tudo em que pousei os olhos naquele dia, e um arrepio de puro deleite me percorreu quando mergulhei nos lençóis de seda pura. Foi uma sensação tão prazerosa que fiquei momentaneamente tentada a tirar minha camisola. Em vez disso, lentamente corri as mãos pelos lençóis. Meus sentidos rapidamente mergulharam em sensações exóticas, influenciados por tanto luxo.

Fui surpreendida em meio ao encantamento, quando uma luz subitamente entrou pela porta do quarto.

-Quem está aí? -perguntei, sentando e trazendo os lençóis de seda até o pescoço.

-Apenas eu, seu servo, a Fera -foi a resposta gentil. Seu comportamento era tranqüilizador e agradável, tanto quanto temível a sua aparência.

-Pode entrar – respondi, mais calma.

A Fera abriu a porta do meu quarto, mas não passou da soleira. Através da luz fraca do corredor, pude ver claramente o perfil de seu corpo que, não fosse sua gentileza, seria assustador. Esperei que ele falasse.

-Eu apenas gostaria de saber se correu tudo a contento, minha dama – disse ele, permanecendo

do lado de fora.

-A contento? -repeti, subitamente entretida. -Minha nossa, não! ]amais me atreveria a descrever esses aposentos como “a contento”. -Sorri ligeiramente por minha piadinha e joguei para o lado as cobertas extravagantes, me esticando até a mesa de cabeceira para acender o lampião.

A Fera continuou em silêncio e me encarava, aparentemente estarrecido. Vendo sua expressão, percebi que minha súbita resposta provavelmente o teria insultado, e logo procurei consertar as coisas.

-Oh, Fera! O que eu quis dizer é que… bem, é lógico que tudo está a contento. Nossa, muito mais que apenas a contento! Foi isso que eu quis dizer, claro.

 

Mas algo estava terrivelmente errado. Era como se a Fera nem sequer tivesse me ouvido. Sem pestanejar, pulei da cama e me aproximei dele, empenhada em me explicar. Mas só consegui dar alguns passos até paralisar-me de terror.

Teria eu ouvido um rugido? Minha mente se alternava entre choque e descrença. Isso era impossível! E seus olhos tinham um brilho tão estranho. Ele ficou totalmente imóvel, como um animal pronto para atacar.

-Fera? -sussurrei, mais em tom de súplica, que de interrogação.

E ele subitamente se foi.

Ainda fiquei ali por uns instantes, procurando recuperar minha compostura. Olhei minhas mãos trêmulas e percebi que minha camisola era totalmente transparente, de cima a baixo! A luminária que eu havia acendido só serviu para realçar minha nudez sob o tecido!

Não vi mais a fera até o jantar do dia seguinte. Ele foi gentil e refinado, como tinha sido durante nossa refeição anterior. Sempre que nossos olhares se cruzavam eu corava e me arrepiava por completo, mas ele nunca deu sinais de perceber. Seu comportamento chegava a aliviar meus medos e suspeitas, e voltei a ficar à vontade, achando sua conversa agradável e amistosa. Depois ele se levantou e me fez a mesma pergunta da noite anterior, o que faria

a cada noite a partir de agora. – Bela, você aceita se casar comigo? Ao que eu sempre respondia: – Não, Fera. Nossa amizade desabrochou. Ainda assim, todo ruído que ouvia em meu quarto, à noite, me deixava ansiosa e sem sono, esperando, sobressaltada, aquela leve batida em minha porta.

Mas a Fera não voltou a se aventurar perto de meu quarto.

Fui eu que, numa noite de insônia, passei pelo quarto dele, a caminho da biblioteca, em busca de algo para ler. Ao passar ouvi um barulho, bem parecido com um gemido, vindo do outro lado da porta. Parei bruscamente.

Em seguida ouvi novamente o ruído. Logo soube que era a Fera e fui tomada de compaixão por ele. Estaria adoentado?

Sem pestanejar, bati à porta. Alguns instantes se passaram e bati novamente. -Vá embora -finalmente o ouvi dizer, em tom suplicante. -Não vou – respondi, determinada. -Não até ver que você está bem. -Silêncio outra vez. -Por favor – implorei, voltando a bater. -Apenas abra a porta e me deixe…

-Afaste-se da porta, Bela! -ordenou ele, de modo áspero. -Vá embora agora mesmo, ou estará em perigo! -seu tom era controlado, mas a voz parecia desesperada.

Muitas vezes fiquei pensando por que não o deixei naquele momento. Já disse a mim mesma que não poderia ter deixado um amigo em apuros. Que foi minha curiosidade que não me permitira partir. Já disse a mim mesma uma infinidade de coisas, mas acho que você também não vai acreditar.

Virei-me em direção à maçaneta e abri a porta do quarto da Fera.

Estava um breu. Dei alguns passos à procura dele, em meio à escuridão. Subitamente a porta bateu atrás de mim. Meus cabelos se eriçaram.

A escuridão foi lentamente revelando algumas sombras. Meus olhos percorriam o cômodo imenso freneticamente, buscando pela silhueta da Fera. Subitamente ouvi o ranger das argolas no trilho, quase me matando de susto, e a cortina pesada sendo puxada, deixando o luar entrar no quarto. Agora eu podia ver a Fera claramente, à medida que se aproximava. Também podia ouvir sua respiração descompassada e, então, notei que ele ofegava.

Minha respiração também ficou mais acelerada e eu tentava desesperadamente encher os pulmões de ar. Era como se o quarto imenso tivesse sido reduzido à metade ao dar-me conta do porte gigantesco da Fera. O medo corria em minhas veias, deixando-me em estado de alerta quanto ao que havia ao redor. A Fera se aproximou lentamente, até ficar tão próximo que eu podia sentir seu hálito morno em minha pele. Até me arrisquei a pensar que sentia o calor vindo de seus olhos. Ele era quase meio metro mais alto que eu, com ombros largos, que mediam quase três vezes o meu tamanho. Havia um brilho incomum em seus olhos escuros. Eu me arrepiei, apesar do calor que emanava dele.

-Se você não quer que sua camisola seja destruída, tire-a já – disse a Fera, finalmente. Ele tinha um tom casual, mas seu comportamento era contido, revelando o esforço para manter o controle. Sua voz era áspera e tão profunda que ele mal conseguia transmitir a linguagem humana. Sua presença me dominava e oprimia. Seu olhar me hipnotizava. Seu hálito me queimava. Não havia nada que me lembrasse do amigo meigo com quem eu compartilhara tantas refeições.

Ainda assim, ao olhar em seus olhos, pasma, uma nova sensação brotava dentro de mim, misturando-se ao medo.

Totalmente imóvel, exceto por meu coração disparado, eu enfrentava meu apuro (enquanto isso, a sensação persistia e aumentava, até que subitamente me senti estranhamente excitada). Nesse estado, eu só via a situação de forma superficial e ponderava comigo mesma: Que poder eu teria para resistir à Fera? De fato, resistência parecia algo improvável com ele ali, altivo, acima de mim, silenciosamente esperando que eu obedecesse à sua ordem. Do que ele seria capaz, se eu não concordasse, eu não me atreveria a especular. A Fera que estava ali à minha frente parecia pronta para atacar ao menor movimento meu. No entanto, eu desconfiava ligeiramente que a Fera se empenharia ao máximo para ceder à minha vontade, desde que eu não tentasse fugir.

Durante o tempo em que fiquei ali, que me pareceram horas, apesar de terem sido provavelmente meros segundos, fui tomada por uma excitação que aos poucos crescia dentro de mim, sem admitir que não estava nem um pouco desesperada pelo fim daquela situação.

Com um movimento súbito, tirei a camisola, antes que mudasse de idéia. Muito agitada, fiquei aguardando pelo próximo passo da Fera, mas ela permanecia em silêncio por um tempo que pareceu interminável. Eu me perguntava se ele poderia ouvir meu coração frenético e seu eco ruidoso em meus ouvidos.

A Fera lentamente ergueu sua mão enorme e acariciou levemente meu rosto. Gemi de susto ao senti-lo. Sua mão era tão áspera que quase provocava dor ao toque.

Os olhos da Fera momentaneamente faiscaram de raiva, mas logo se aquietaram enquanto me estudavam, confusos.

– Não quero machucá-la, Bela – sussurrou ele. – Você é quem controla o destino de nós dois.

Não consegui compreender o significado de suas pala raso Sua presença lentamente me dominava, me e volvendo e encurralando em sua força perigosa. Como se ele estivesse me alertando sobre algo. Teria-ele dito que eu estava no controle? Será que eu deveria detê-lo? Eu me perguntava: eu poderia detê-lo? Eu me sentia fraca demais para me mover.

Por outro lado, suas mãos, um tanto grandes, como comentei, afagavam rudemente a minha pele, abrindo caminho até os meus seios. Para minha surpresa, meus mamilos reagiram imediatamente, enrijecendo ao toque. Quando ele os apertou, um gemido escapou dos meus lábios; a força bruta de suas mãos, junto com meu desejo crescente, era agonizante.

Ele continuou a me tocar e, ao chegar no meio de minhas pernas, senti-me levemente envergonhada, pois minha excitação se tornou evidente. A Fera agora estava mudando rapidamente – a cada instante se tornava mais fera e menos homem.

-De joelhos – rosnou ele, por entre a respiração pesada. Encarei-o, calada. A realidade do que estava se passando subitamente me assolou. Ele me possuiria da mesma forma como o faria com um animal. Era tarde demais para mudar de idéia, uma vez que ele já estava manobrando meu corpo na posição que ordenara, bem ali, no chão. Ele o fez com tanta destreza e habilidade que não tive dúvidas quanto à sua força, ou à futilidade que seria tentar fugir.

Por alguns instantes permaneci imóvel onde ele me posicionou. Enquanto isso a Fera se ocupava em livrar-se de suas roupas, atrás de mim. Ainda muito amedrontada para me arriscar a olhar a Fera e enfurecê-la, limitei-me a imaginar a indumentária tão dolorosa sob a qual ele se escondia. Mas minha curiosidade acabou vencendo o medo e, quase sem querer, minha cabeça se virou em sua direção. Um gemido involuntário saiu dos meus lábios.

Ele estava sem roupas, exceto pela camisa, que pendia aberta, revelando seu dorso coberto por pêlo animal. Da cintura para baixo seu corpo lembrava o de um leão, com imensas patas no lugar dos pés e um longo rabo pendurado até o chão. Porém, mais aterrador do que tudo era o que se projetava à frente, logo abaixo da cintura. Era de uma coloração vermelho-arroxeada, de um tamanho sobre-humano. Tive certeza de que meu corpo jamais seria capaz de acomodá-lo.

A Fera ouviu meu gemido e viu-me encarando-o horrorizada. Ele soltou um rugido terrível e pronunciou algo apenas parecido com “Vire-se!”

-Você vai me matar! – gritei, realmente horrorizada, apesar de obedecer à sua ordem rude.

-Prometo que você sobreviverá – respondeu ele, com a súbita recuperação de sua gentileza anterior. Sua voz tremia ao esforçar-se para falar.

-Terá de ser assim até que você nos liberte dessa maldição.

Fiquei hipnotizada por suas palavras, mas não tive tempo de lidar com elas, pois subitamente senti seu hálito quente, como um vapor, entre minhas pernas. Mesmo com tal preliminar, eu estava inteiramente desprevenida para o que viria a seguir.

Áspera como papel-jornal e maior que uma folha de carvalho, a língua da Fera lentamente serpenteou, adentrando as minhas partes mais íntimas. Quase saí de mim, mas a Fera me segurou firme, repetindo o ato mais e mais vezes. Ao mesmo tempo irritada e encantada pela persistência da coisa desumana que continuava roçando minha carne delicada, eu não podia fazer muito além de ora me movimentar e contorcer-me tentando desesperadamente me afastar, ora me apertar de encontro a ele. Sua língua imensa cobria toda a minha região exposta com um único golpe, depois finalizava sua invasão com o entusiasmo de um bicho faminto. Eu estava a ponto de desfalecer de tanta excitação.

Finalmente a Fera parou com um grunhido, e senti seus dedos enormes me arreganhando. A essa altura meu corpo inteiro sacudia violentamente.

Apesar de minha excitação, sentia uma pressão imensa à medida que a Fera começava a se apertar contra mim, por trás. Contestei com gritinhos e meu corpo instintivamente se inclinou à frente, numa tentativa de fugir da Fera invasora. No entanto, ele não permitiria, e suas mãos poderosas me agarraram fervorosamente pela cintura, me puxando de volta para trás, até que ele me penetrou. Gritei.

Com visível dificuldade, a Fera tentou manter o resquício humano que ainda possuía. Seu corpo inteiro balançou, enquanto ele me segurava firme no lugar, e, com uma voz abafada, disse:

-Você vai se acostumar comigo num instante.

Mas eu já estava me acostumando antes que ele terminasse a frase. Meu corpo todo subitamente pareceu em chamas. Eu gemia, me balançando para a frente e para trás. Aquilo era muito além do que eu jamais experimentara. Puxando os meus quadris com golpes curtos, a Fera começou uma investida gradual, mas permanente.

-Devagar – eu o ouvi murmurar, possivelmente para si mesmo, enquanto prosseguia penetrando meu corpo. Ele investia devagar e me segurava firmemente no lugar. Tudo o que eu podia fazer era permanecer imóvel, ofegante, morrendo de prazer num instante e, no outro, sentindo uma dor imensa.

Jamais pensei que fosse possível suportar a total penetração da Fera, mas foi. Quando ele me possuiu completamente, eu mal podia respirar, pois me sentia como se estivesse sendo perfurada. Eu só tinha consciência daquela parte em mim, onde ele me preenchia.

Bem devagar, respirando com dificuldade e em meio a rosnados, a Fera começou a se mover, entrando e saindo de mim. Ele prosseguiu em ritmo lento por um bom tempo, deixando que eu me acostumasse totalmente com ele. Mas, por fim, seus gemidos se tornaram mais altos e selvagens, e suas investidas passaram a ser mais fortes e rápidas. Sua respiração queimava a pele das minhas costas. Suas mãos perfuravam minha carne, machucando a pele sensível. Achei ter sentido seus dentes mordendo meu ombro.

Eu estava excitada a ponto de sentir dor. Já tendo perdido a timidez há muito, comecei a me tocar a fim de aumentar o prazer, enquanto me esfregava contra a Fera.

Mas era tarde demais. Com um grito ensurdecedor e uma última investida, a Fera me invadiu com um furor que pude sentir ao longo de minhas pernas trêmulas.

Fiquei profundamente desapontada e inclinada a me afastar, mas ele me segurou firme no lugar, permanecendo ao meu lado, inteiramente excitado, pegando minha mão e colocando-a de volta no meio de minhas pernas. Ele a segurou até que eu a mantivesse ali, como ele queria.

Fiquei temporariamente encabulada por ele saber o que eu estava fazendo, mas logo passou, e meu entusiasmo voltou. Ao me dar conta de que tinha o tempo que quisesse para aproveitar com a Fera, voltei a me estimular. Enquanto isso, ele lentamente saiu de mim, quase por completo, depois, igualmente devagar, voltou a me possuir. Ele continuou pacientemente, enquanto eu buscava meu próprio prazer.

Eu tinha todos os sentidos em estado de alerta e excitação. Minha pele se repuxava sob as mãos brutas que agarravam meus quadris. Meus ouvidos ecoavam com os sons animalescos dentro do quarto enluarado. Meus olhos se desviaram para o chão, onde se refletiam as imagens de nossas sombras contrastantes, fundindo-se uma na outra. Minhas coxas estavam meladas e molhadas em seu interior. Pensei nos dentes afiados da Fera em meus ombros, quando finalmente encontrei o prazer.

Isso deu início às minhas visitas noturnas ao quarto da Fera. Para mim, cada noite era mais prazerosa que a anterior, e eu já não me sentia envergonhada. Na verdade, minha Fera parecia cada vez menos fera para mim, e minha afeição por ele tornava-o até bonito. Apesar disso, a cada noite, quando a Fera me pedia em casamento, eu gentilmente declinava.

Um dia, meses depois, recebi um recado de que meu pai estava doente. Mostrei o bilhete à Fera durante o jantar. Após lê-lo, ele me olhou, aterrorizado.

-Bela, por favor, não vá – implorou ele.

-Mas eu preciso! – gritei. -Se algo acontecer ao meu pai antes que eu o veja novamente, eu jamais o perdoarei!

A Fera ficou em silêncio por um tempo. -Bela – disse ele, em tom suplicante-,se você deixar esse castelo será a minha morte.

-Não entendo – respondi, subitamente irritada com todo o mistério que o cercava. O fato de haver tantas perguntas sem resposta se tornara uma questão mal resolvida entre nós. Mais uma vez eu voltei a pedir: – Será que você não poderia explicar suas palavras misteriosas?

-Não posso – a resposta de sempre. Mas a aflição diante de sua impossibilidade de me dizer a verdade o tornava um pouquinho mais indulgente. Não vou impedi-la de deixar o castelo, contanto que prometa voltar para mim em um mês – disse ele. -Se você demorar mais que isso eu certamente morrerei.

-Prometo – respondi com um suspiro, sabendo que não arrancaria mais nada dele.

-Espero que você cumpra sua promessa, Bela – disse ele, inconsolável. Então se levantou, parando na soleira da porta. -Haverá dois baús para você encher com as riquezas do castelo e levar para a sua família.

Naquela noite eu estava mais ansiosa do que de costume para estar com a minha Fera, mas também havia muito a ser feito quanto aos preparativos de minha viagem. Apressava-me de um lado para o outro freneticamente, sempre ansiando pelo momento em que poderia estar com minha Fera, para uma despedida mais íntima.

Quando finalmente entrei em seu quarto, eu certamente tremia de excitação. A Fera estava sentada numa cadeira no canto do quarto escuro. Ao tirar meu roupão, posicionei-me, como de costume, na beirada da cama, da forma como ele mais gostava que eu fizesse. Em alguns segundos eu estava ensopada de suor, latejando por ele. Era assim que eu me sentia em relação a ele. Já era o suficiente estar ali, esperando, tremendo, com as mãos sobre os joelhos, na expectativa do que estaria por vir, despertando aquela reação em mim.

Eu nem o ouvi se aproximar, quando subitamente senti suas mãos rudes acariciando a minha pele macia.

-Vire-se – disse ele, repentinamente, em seu tom rouco.

Parei, por um instante, estarrecida.

-Esta noite quero ver seu rosto – disse ele, simplesmente.

Intrigada pela novidade, obedeci ao seu pedido e me virei. Silenciosamente o observei, enquanto ele tirava suas roupas, podendo, pela primeira vez, vê-lo completamente. Ele parecia muito mais feroz e animalesco sem roupa. Estremeci ao vê-lo nu. Novamente, como na primeira noite, me ocorreu que ele parecia bem mais fera do que homem.

Mas ele é um homem, insisti, recusando-me a aceitar qualquer idéia que desse fim àqueles prazeres noturnos. E fechei meus olhos com a aproximação da fera nua.

-Abra os olhos, Bela! – rosnou ele.

Eu o fiz e vi sua masculinidade apontada diante de meus lábios. Ele pegou minha cabeça com as mãos, mas eu resisti. A Fera deteve-se em forçar-se em minha boca, mas também não soltou minha cabeça.

Olhei aquilo à minha frente. Era diferente de um homem normal. Além de maior, tinha uma coloração bem mais escura. Experimentei colocar minha língua para fora, passando-a levemente no objeto que me trouxera tanto prazer. A Fera estremeceu e subitamente fui tomada pelo desejo de satisfazê-lo. Abri a boca e primeiro o acarinhei suavemente com os lábios, mas logo me vi sugando, faminta. Ele era tão enorme que eu só conseguia tomá-lo parcialmente, mesmo assim, com grande esforço, mas ele não parecia se incomodar; a porção que eu conseguia ter, eu tomava com gosto, e o abocanhava com os lábios, língua e maxilar.

Subitamente a Fera me deteve e saiu de minha boca empurrou-me sobre a cama e afastou minhas pernas. Eu olhava dentro de seus olhos escuros, enquanto ele se aproximava. Havia algo brilhando ali – algo que não era humano. Eu queria desviar, mas seu olhar prendia o meu. Uma onda de terror passou por mim.

A Fera rugiu ruidosamente ao me penetrar. Minhas pernas estavam totalmente afastadas, enquanto eu tentava acomodar sua forma imensa. Ele se roçava e gemia impiedosamente, servindo-se de minha carne macia. Seu hálito quente ardia em minha pele e eu olhava com terror e fascínio, enquanto seus dentes afiados cuidadosamente mordiscavam meus ombros e seios.

Mas meu terror vinha acompanhado por aquele prazer familiar que a Fera já cultivara em mim. Ambos atuavam junto a ele, levando-me a uma paixão que eu jamais experimentara. Eu me deleitava com o pêlo animal que cobria seu corpo e os sons que ele emitia ao me possuir animalescamente. Eu me contorcia e gemia, com suas mãos brutas e imensas machucando minha carne macia, incessantemente, enviando arrepios de prazer abaixo da superfície. Eu gritava repetidamente, em total abandono, suplicante e tonta, sob as sensações de profunda agonia e prazer que me inundavam. Era uma onda de prazer atrás da outra, até que ouvi vagamente um rugido tremendo da Fera, em meio aos meus gritos.

Antes que pudesse recobrar o fôlego, já era de manhã!

Parti com tanta animação que nem pensei na minha Fera durante dias. Meu pai se recuperou logo que cheguei, e fiquei entretida pelos dias movimentados da família numerosa. Um mês se passou num instante e era hora de regressar ao castelo.

Sem dúvida, as histórias que você leu fizeram com que eu parecesse um tanto indelicada e até relutante em voltar à minha Fera. Isso estava muito longe de ser verdade. Eu sentia terrivelmente a sua falta! Eu queria regressar ao castelo mais que tudo. Porém, minha mãe caía em prantos sempre que eu tentava partir.

Assim, quase dois meses se passaram, até que um dia, tarde da noite, acordei sonhando com o castelo e a minha Fera. Tudo estava escuro no sonho, e eu andava pelos corredores do castelo à procura da Fera. Ao entrar em seu quarto, o vi dormindo serenamente em sua cama. Ao me aproximar dele, me ocorreu que minha Fera não estava dormindo, ele estava morto! Meu próprio grito havia me alertado.

Subitamente, eu me lembrei do aviso da Fera, de que ele certamente morreria se eu ficasse longe por mais de um mês!

Imediatamente pulei da cama e arrumei minhas coisas. Pela manhã, eu estava pronta para partir e, após uma despedida triste, porém firme, iniciei minha jornada de volta ao castelo e à minha Fera. Oh, como sofri nesse dia, temendo que talvez nunca mais voltasse a vê-lo! Mal sabia eu o quanto havia de verdade naquilo…

Ao final daquele dia, quando finalmente cheguei ao castelo, corri direto ao quarto da Fera. Ele estava deitado na cama, exatamente como em meu sonho.

-Não! – gritei, correndo até junto dele. -Por favor, Fera, não morra!

Sua cabeça inclinou ligeiramente ao ouvir minha voz. Vibrei de felicidade e o enlacei em meus braços. -Graças a Deus você não está morto -eu murmurava por entre lágrimas.

-Você voltou – foi tudo que ele disse.

-Sim, voltei… para sempre! -Eu sabia que jamais o deixaria novamente. -Você quer se casar comigo, Bela? -perguntou ele. -Sim, Fera – eu disse, chorando. -Sim, sim, sim!

Eu mal tinha pronunciado essas palavras quando, subitamente, houve um clarão. No momento seguinte, um estranho estava sentado no lugar onde a Fera estivera deitada. Minha fera havia desaparecido. Suspirei atordoada e dei um passo atrás.

-Oh, Bela – exclamou o estranho. -Você finalmente me libertou da maldição!

Pisquei os olhos, tentando compreender as palavras do homem. Ele estava explicando que era minha Fera, mas, na verdade, tratava-se de um príncipe que fora transformado em Fera pela maldição de uma bruxa diabólica. Por ser uma bruxa extremamente perversa, ela acrescentara como condição quase inalcançável de sua libertação que ele se casasse com seu verdadeiro amor ainda sendo uma Fera!

Então, pensei, esse estranho é a minha Fera. Observei seu rosto e vi que ele era, de fato, um belo príncipe. Não pude descrever a decepção que senti, além disso, jamais vira minha Fera tão feliz quanto nesse dia. Nós nos casamos.

E agora tenho de terminar minha fábula, pois está ficando tarde e está na hora de me preparar para meu marido, o príncipe. Agora ele vem ao meu quarto e, como sempre, preciso estar pronta para ele.

Mas não posso buscar brilho selvagem em seus olhos.

Ou ouvir aquele rosnado ensurdecedor.

Parei de procurar por essas coisas há anos.

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Madore, Nancy

Contos de fadas eróticos / Nancy Madore; tradução de Alice Klesck. -Rio de Janeiro: HR, 2007.

Tradução de: Enchanted: erotic bedtimes stories for women

ISBN 978-85-7687-385-3

 

Junho 7, 2009

O Delírio de Galeno por Isaias Pessotti

Arquivado em: Psicanálise — rose @ 10:19 pm

Isaias Pessotti é escritor e ex-professor titular de psicologia da Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto. É autor de “Os nomes da Loucura” e “O século dos Manicômios”.

 

No século II, o médico grego Galeno definiu alucinação e ilusão ao distinguir os delírios da razão e dos sentidos

Sintomas clássicos de algum distúrbio mental são as alucinações, tais como ver pessoas ou objetos inexistentes, ou “ouvir vozes” sem que ninguém emita som algum. Diversamente, quando a percepção absurda ou distorcida refere-se a objetos reais e presentes não há alucinação; há o que em psicologia se chama “ilusão”. Mas em psicopatologia só interessam certas ilusões. As ilusões de óptica, ou as provocadas por um mago, por exemplo, são percepções normais.

Enquanto eventuais sintomas de algum distúrbio mental, alucinação e ilusão não se equivalem. Esquirol, em 1838, as distinguiu de forma lapidar: “Um homem que tem a convicção íntima de uma sensação realmente percebida, quando nenhum objeto exterior capaz de excitar aquela sensação está ao alcance do sentido, está em estado de alucinação: é um visionário… a ilusão ao contrário é um erro dos sentidos, que não põe em questão a presença real do suporte da percepção. Há sempre impressão real dos objetos exteriores. Impressão dos sentidos”.

Como se vê, o critério discriminante de Esquirol é presença ou ausência de um objeto real. Trata-se, em ambos os casos, de erros de percepção.

Galeno (131-200), como outros grandes médicos antigos, já se ocupara com a distinção entre alucinação e ilusão. Mas com um critério diverso, que ele ilustra ao relatar um episódio pessoal de delírio: “Alguns também deliram por causa do desarranjo de sua faculdade de pensar, mas conservaram por um curto momento sua faculdade crítica e a recuperaram o bastante para… resistir e compreender o que lhes ocorria… eu acreditava ver esvoaçando sobre meu leito fiapos escuros… eu executava movimentos para pegá-los… Ouço dois meus amigos presentes dizerem entre eles \\’olha ele já está tentando pegá-los\\’. Eu compreendi perfeitamente o que me estava acontecendo, o que eles diziam, e como sentia em mim que minha inteligência não sofria perturbação eu disse: Vocês têm razão, venham ajudar-me para que a loucura (phrenitis) não me domine”.

É um caso de delírio dos sentidos, mas não de delírio da razão, segundo Galeno. Pelo critério de Esquirol, seria um episódio de alucinação, pois os fiapos não existem, e há a convicção de uma sensação realmente percebida. Mas aqui existe a consciência de que essa percepção é enganosa. O critério discriminante, entre os dois tipos de delírio, para Galeno, é a consciência da falsidade da percepção alucinatória, no delírio dos sentidos, e a ausência dela no delírio da razão. Sem prejuízo de haver a “convicção íntima de uma sensação realmente percebida”. A diferença de critérios se explica: como bom discípulo de Pinel, Esquirol enxerga alucinação e ilusão como erros, incoerências entre a experiência sensorial e a realidade objetiva. Galeno, como bom seguidor de Platão, procurou apontar o papel da razão, da “faculdade crítica”, ou seja, da consciência da percepção, em cada um deles.

O que Esquirol chamaria de alucinação seria para Galeno um delírio da razão. Há alucinação quando se perde a “faculdade crítica”; mesmo quando a percepção errada se refere a um objeto real e presente. Mesmo nos casos que Esquirol consideraria ilusões.

Maio 24, 2009

O que é um psicopata? por Scott O. Lilienfeld e Hal Arkowitz

Arquivado em: BDSM, Psicanálise — rose @ 7:09 pm

Scott O. Lilienfeld e Hal Arkowitz são professores de psicologia; o primeiro, da Universidade Emory, e o segundo, da Universidade do Arizona. – Tradução de Julio Oliveira

 

O termo “psicopata” caiu na boca do povo, embora na maioria das vezes seja usado de forma equivocada. Na verdade, poucos transtornos são tão incompreendidos quanto a personalidade psicopática.

Descrita pela primeira vez em 1941 pelo psiquiatra americano Hervey M. Cleckley, do Medical College da Geórgia, a psicopatia consiste num conjunto de comportamentos e traços de personalidade específicos. Encantadoras à primeira vista, essas pessoas geralmente causam boa impressão e são tidas como “normais” pelos que as conhecem superficialmente.

No entanto, costumam ser egocêntricas, desonestas e indignas de confiança. Com freqüência adotam comportamentos irresponsáveis sem razão aparente, exceto pelo fato de se divertirem com o sofrimento alheio. Os psicopatas não sentem culpa. Nos relacionamentos amorosos são insensíveis e detestam compromisso. Sempre têm desculpas para seus descuidos, em geral culpando outras pessoas. Raramente aprendem com seus erros ou conseguem frear impulsos.

Não é de surpreender, portanto, que haja um grande número de psicopatas nas prisões. Estudos indicam que cerca de 25% dos prisioneiros americanos se enquadram nos critérios diagnósticos para psicopatia. No entanto, as pesquisas sugerem também que uma quantidade considerável dessas pessoas está livre. Alguns pesquisadores acreditam que muitos sejam bem-sucedidos profissionalmente e ocupem posições de destaque na política, nos negócios ou nas artes.

Especialistas garantem que a maioria dos psicopatas é homem, mas os motivos para esta desproporção entre os sexos são desconhecidos. A freqüência na população é aparentemente a mesma no Ocidente e no Oriente, inclusive em culturas menos expostas às mídias modernas. Em um estudo de 1976 a antropóloga americana Jane M. Murphy, na época na Universidade Harvard, analisou um grupo indígena, conhecido como inuíte, que vive no norte do Canadá, próximo ao estreito de Bering. Falantes do yupik, eles usam o termo kunlangeta para descrever “um homem que mente de forma contumaz, trapaceia e rouba coisas e (…) se aproveita sexualmente de muitas mulheres; alguém que não se presta a reprimendas e é sempre trazido aos anciãos para ser punido”. Quando Murphy perguntou a um inuit o que o grupo normalmente faria com um kunlangeta, ele respondeu: “Alguém o empurraria para a morte quando ninguém estivesse olhando”.

O instrumento mais usado entre os especialistas para diagnosticar a psicopatia é o teste Psychopathy checklist-revised (PCL-R), desenvolvido pelo psicólogo canadense Robert D. Hare, da Universidade da Colúmbia Britânica. O método inclui uma entrevista padronizada com os pacientes e o levantamento do seu histórico pessoal, inclusive dos antecedentes criminais. O PCL-R revela três grandes grupos de características que geralmente aparecem sobrepostas, mas podem ser analisadas separadamente: deficiências de caráter (como sentimento de superioridade e megalomania), ausência de culpa ou empatia e comportamentos impulsivos ou criminosos (incluindo promiscuidade sexual e prática de furtos).

Três mitos

Apesar das pesquisas realizadas nas últimas décadas, três grandes equívocos sobre o conceito de psicopatia persistem entre os leigos. O primeiro é a crença de que todos os psicopatas são violentos.

Estudos coordenados por diversos pesquisadores, entre eles o psicólogo americano Randall T. Salekin, da Universidade do Alabama, indicam que, de fato, é comum que essas pessoas recorram à violência física e sexual. Além disso, alguns serial killers já acompanhados manifestavam muitos traços psicopáticos, como a capacidade de encantar o interlocutor desprevenido e a total ausência de culpa e empatia. No entanto, a maioria dos psicopatas não é violenta e grande parte das pessoas violentas não é psicopata.

Dias depois do incidente da Universidade Virginia Tech, em 16 de abril de 2007, em que o estudante Seung-Hui Cho cometeu vários assassinatos e depois se suicidou, muitos jornalistas descreveram o assassino como “psicopata”. O rapaz, porém, exibia poucos traços de psicopatia. Quem o conheceu descreveu o jovem como extremamente tímido e retraído.

Infelizmente, a quarta edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-IV-TR) reforça ainda mais a confusão entre psicopatia e violência. Nele o transtorno de personalidade anti-social (TPAS), caracterizado por longo histórico de comportamento criminoso e muitas vezes agressivo, é considerado sinônimo de psicopatia. Porém, comprovadamente há poucas coincidências entre as duas condições.

O segundo mito diz que todos os psicopatas sofrem de psicose. Ao contrário dos casos de pessoas com transtornos psicóticos, em que é freqüente a perda de contato com a realidade, os psicopatas são quase sempre muito racionais. Eles sabem muito bem que suas ações imprudentes ou ilegais são condenáveis pela sociedade, mas desconsideram tal fato com uma indiferença assustadora. Além disso, os psicóticos raramente são psicopatas.

O terceiro equívoco em relação ao conceito de psicopatia está na suposição de que é um problema sem tratamento. No seriado Família Soprano, Dra. Melfi, a psiquiatra que acompanha o mafioso Tony Soprano, encerra o tratamento psicoterápico porque um colega a convence de que o paciente era um psicopata clássico e, portanto, intratável. Diversos comportamentos de Tony, entretanto, como a lealdade à família e o apego emocional a um grupo de patos que ocuparam a sua piscina, tornam a decisão da terapeuta injustificável.

Embora os psicopatas raramente se sintam motivados para buscar tratamento, uma pesquisa feita pela psicóloga Jennifer Skeem, da Universidade da Califórnia em Irvine, sugere que essas pessoas podem se beneficiar da psicoterapia como qualquer outra. Mesmo que seja muito difícil mudar comportamentos psicopatas, a terapia pode ajudar a pessoa a respeitar regras sociais e prevenir atos criminosos.

 

PARA CONHECER MAIS 
Without conscience – The disturbing world of the psychopaths among us. Robert D. Hare. Guilford Press, 1999.Handbook of psychopathy. Christopher J. Patrick (ed.), Guilford Press, 2007.

 

Maio 17, 2009

Potencialidades de Perversão por Paulo Roberto Ceccarelli

Arquivado em: BDSM, Freud, Humilhação, Masoquismo, Psicanálise, Sadomasoquismo — rose @ 9:15 pm

in Boletim de Novidades da Livraria Pulsional, São Paulo, ano XI, 113, 79-82, set. 1998.

e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

homepage: www.ceccarelli.psc.br

É comum acontecer que um ato, uma palavra, uma iniciativa, tenha um resultado oposto ao desejado: visava-se um determinado objetivo; entretanto tal objetivo foi subvertido por aqueles a quem a palavra, o ato, a iniciativa foi dirigido. O princípio segundo o qual não se deve mentir pode acarretar um mal maior do que o efeito da mentira.

Daí a questão: deve-se mentir quando dizer a verdade pode levar aqueles, a quem esta verdade é dirigida, a um estado de angústia e desespero capazes de provocar atos perigosos contra si próprio e contra outros?

Mais ainda: a boa intenção e a convicção interior contrabalançam os efeitos perversos não esperados da ação original? Tais perguntas evocam uma antiga questão ética: é-se responsável pelos efeitos secundários que não se desejou?

O trágico da existência nos remete ao sentido primeiro e geral da perversão: desvio, derrapagem, do bem em mal, cujo paradigma é a Criação: o ato criador é bom mas o criado, não sendo Deus, implica a possibilidade do mal.

Perversão da Sexualidade

Perversão, do latim perversio, define a “ação de perverter”, “transformar em mal”, “depravação”, “corrupção”; perversão dos costumes, do gosto artístico… Fala-se de ato perverso, de conselho perverso, máquina perversa, etc.

Psicologicamente, a perversão define um desvio de tendências devido a problemas psíquicos. Na esfera do sexual, o substantivo se aplica para qualificar alguns atos: na medida em que uma finalidade é dada à sexualidade humana, toda pratica sexual que desvia desta finalidade é dita perversa.

Na base deste julgamento encontra-se a noção de uma sexualidade normal, segundo a natureza, cujo desvio, a depravação (pravus) é definido como “contra a natureza”. Um tal discurso se baseia na concepção teológica de uma Natureza (physis), herdeira do pensamento grego, em particular de Aristóteles. Sustenta-se que existem inclinações naturais nas coisas, e que tudo que é natural apraza a Deus, logo é bom. É nesta perspectiva que São Tomas de Aquino qualifica certas práticas sexuais como “contra a natureza” alegando uma natureza comum aos homens e aos animais. Assim, toda vez que a sexualidade desvia da finalidade primeira que a referência animal nos mostra – união de dois órgãos sexuais diferentes para a preservação da espécie – estamos diante de uma perversão: pedofilia, necrofilia, masturbação, heterossexualismo separado da procriação, homossexualismo, sodomia…

Este discurso teológico leva a certas ações jurídicas destinadas a reprimir todo ato perverso. É assim que determinados atos ditos “contra a natureza”, logo violentos pois são considerados um atentado ao pudor ou à opinião pública, acarretam severas sanções.

No século XIX nasce o discurso psiquiátrico que, à sua maneira, retoma a definição de perversão em função de uma finalidade natural e universal, dando uma continuidade às posições teológicas e jurídicas: o que é penal passa a ser da ordem médica. Algumas práticas sexuais são então qualificadas de “patológicas”, o que faz surgir novas formas de perversões onde o outro é usado para obtenção de prazer e, mais uma vez, a finalidade natural é subvertida. Voyerismo, exibicionismo, sadismo, masoquismo, vêm juntar-se à infindável nosografia psiquiátrica da época.

A ruptura psicanalítica

É no ambiente moralista da Viena do principio do século que Sigmund Freud lança, em 1905, um ensaio de 40 páginas que constitui, na época, apenas mais uma publicação dentre muitas outras. Os Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, fez de Freud uma figura extremamente impopular. Freud recebe insultos e injúrias; é taxado de imoral, obsceno e não é mais cumprimentado na rua.

Enquanto seus predecessores se empenharam minuciosamente em classificar, etiquetar, enfim, a traçar o inventário das perversões sexuais, Freud realiza uma virada fundamental e profundamente inovadora. A contribuição de Freud para a compreensão da perversões não vem do tipo de material clínico observado, mas da afirmação escandalosa de que as tendências perversas catalogadas pelos seus colegas como aberrações humanas assombram o espíritos de todos os homens, inclusive daqueles que as catalogaram estando também presentes nas crianças: “a criança é um perverso polimorfo”.

Freud afirma que o inconsciente dos homens é animado pelos desejos que os perversos põem em cena. Na perversão, as pulsões inconscientes aparecem “a céu aberto”; no neurótico as pulsões agem na clandestinidade, disfarçadas de várias maneiras, através dos sintomas: “a neurose é o negativo da perversão”. As perversões sexuais deixam então de ser uma prática que só eles – os perversos – exibem e passam a ser entendidas como algo presente, ainda que no inconsciente, em todos os seres humanos. Como diz Hamlet no final do segundo ato: “a se tratar cada homem segundo seu merecimento, quem escapará do açoite?”

A tudo isto acrescenta-se um outro escândalo que contraria a visão que a biologia, a moral, a religião e a opinião popular têm da natureza da sexualidade: o objetivo da sexualidade humana não é a procriação; ela escapa à ordem da natureza, agindo a serviço próprio: ela é contra a natureza.

A visão freudiana da pulsão sexual diversificada, anárquica, plural e parcial – oral, anal, escopofílica, vocal, sádica, masoquista e tantas outras roupagens que ela pode tomar – abre uma nova dimensão para se pensar a perversão que ultrapassa as fronteiras da sexualidade genital.

É assim que certas posturas teóricas que se reivindicam detentoras da Verdade e cuja preocupação central é de encaixar o sujeito numa categoria de diagnóstico, as práticas clínicas daí advindas com conseqüências por vezes catastróficas na relação transferencial, determinadas atitudes dos discípulos de seitas psicanalíticas que traduzem um embotamento de qualquer atividade crítica e outros tantos fatos de observação cotidiana, tudo isto conforta a idéia dos efeitos hipnóticos perversos que as identificações aos ideais podem provocar.

Gostaria de centrar o debate em um dos espaços onde as potencialidades de perversão podem ser observadas de forma privilegiada: a televisão. Como já foi dito, as pulsões constituem os elementos de base do psiquismo humano. Estes elementos recalcados, sempre prontos a fazerem irrupções brutais nos mais variados lugares para a obtenção de prazer imediato e ao menor preço possível, utilizam-se de representações oferecidas pelo mundo externo na busca de descarga que produza satisfação.

Os efeitos perversos de televisão

Existe no imaginário popular uma tendência a circunscrever a perversão unicamente ao sexual. Tal posição, reducionista e perigosa, reflete um moralismo que insiste em discutir problemas de alcova, deixando fora do debate as verdadeiras questões éticas. É assim, por exemplo, que muitos se chocam com cenas de sexo na televisão, mas toleram com naturalidade constrangedora situações onde a violência, que podem incluir o estupro, e o desrespeito ao outro (mulheres, crianças, minorias) são exibidas de forma perversa.

No caso de crianças o efeito desta situação é particularmente preocupante. Sabemos da importância dos pais na estruturação do mundo interno destas últimas. Na constituição da psicossexualidade, os investimentos libidinais, que traduzem movimentos pulsionais, se dirigem aos genitores. Ora, quando estes não servem de suporte identificatório a criança buscará modelos fora do âmbito familiar. Igualmente, para construir seu sistema de valor ético-moral a criança pode tomar, quando faltam-lhe referências no ambiente onde está inserida, aquilo que a televisão mostra como coordenadas de base.

Cenas que evocam violência, agressividade, aquelas que sugerem relações baseadas na desconfiança, na falta de solidariedade e outras tantas, podem incentivar comportamentos e propor “valores éticos” divergentes daqueles necessários para a construção de uma estrutura social calcada no respeito e no direito do cidadão.

Quanto aos adolescentes, a situação tampouco é simples: estes buscam modelos externos durante o período de separação e luto dos modelos familiares. Um exemplo das múltiplas derrapagens é o recurso à droga – ou à violência, à uma sexualidade compulsiva etc. Aqueles carentes de referências encontram nestes expedientes respostas lá onde os pais, e em seguida a sociedade, nada lhes propõem, “assegurando” ao sujeito a ilusão de pertencer a um grupo e propiciando-lhes, ao mesmo tempo, uma defesa contra o perigo de se entrar em contato com representações inconscientes, cujos conteúdos são potencialmente depressivos.
Alguns movimentos anti-sociais dos adolescentes traduzem bem esta configuração. Em ambos os casos – crianças e adolescentes – quando o mundo interno se encontra mal estruturado e pobre em imagos identificatórias, a televisão pode oferecer “soluções” a conflitos internos.

Mas os adultos não estão ao abrigo do retorno de elementos da sexualidade infantil: a atração que produzem determinados programas reatualizam complexos inconscientes. A televisão passa a ser então uma válvula de escape para moções pulsionais recalcadas: é o caso de alguns programas, filmes, ou barbaridades descritas pelos jornais e revistas, às quais assistimos, ou lemos, num misto de horror e fascínio.

Toda leitura do mundo que se defina como única e verdadeira produz necessariamente uma perversão pois representa apenas uma das possíveis traduções do real. Muitas vezes a realidade criada pela televisão, seja na publicidade ou nos programas, pode exibir, ainda que camuflada, um grau de perversão altamente sofisticado na medida em que, seguindo normas rígidas do mercado em acordo com interesses econômicos dos patrocinadores propõe, sobretudo às crianças e aos adolescentes, referências de comportamento e de consumo por vezes em completa contradição com suas realidades sócio-econômicas.

As potencialidades de perversão são inúmeras e certas programações da televisão podem ser altamente nefastas para a sociedade mesmo quando a intenção inicial não foi perversa. Trata-se, então, menos de saber se determinada cena mostrada na TV é EM SI perversa mas antes, em que circunstância, em que contexto, tal cena pode produzir efeitos perversos.

Paulo Roberto Ceccarelli*

e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Consultor científico (Editorial Reader) do “International Forum of Psychoanalysis”; Membro do Conselho Científico da Revista Psychê; Membro do Conselho Científico da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental; Membro Fundador da ONG TVer; Vice-presidente do TVer-MG; Professor Adjunto III no Departamento de Psicologia da PUC-MG; Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia da Quarta Região (CRP/O4).

Maio 8, 2009

Avohai

Arquivado em: Amizade, Experiência Pessoal, Música — rose @ 1:25 pm

Na pedra de turmalina e no terreiro da usina eu me criei
Vou lavar de madrugada e na cratera, condenada, eu me calei
E se eu calei foi de tristeza você cala por calar
Mais e calada vou ficando só falo quando mandar
Rebuscando a consciência com medo de viajar
Até o meio da cabeça do cometa,
girando na carrapeta no jogo de improvisar
Entrecortando eu sigo bem a linha reta
Eu tenho a palavra certa prá doutor não reclamar

Avohai Avohai Avohai Avohai

Março 23, 2009

Sussurros

Arquivado em: Amizade, BDSM, Entrega, Humilhação, Masoquismo, Sadomasoquismo — rose @ 6:12 pm

Estava lendo o blog da Rainha Frágil gosto do blog dela.

No fim do texto que acabei de ler está a parte mais legal, diz assim: “Se você deseja serví-la, sirva e não espere nada em troca.  Esteja presente. Suporte o desprezo. Esteja disponível. Se deseja serví-la, faça desde já.”

Li e pensei: são os sussurros da minha mente submissa que nunca haviam sido transcritos em palavras… é, agora alguém transcreveu ;)

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