Essa semana li um romance, se chama: O Garçom B – o diário verídico de um amor sadomasoquista http://yahoo-compare.buscape.com.br/prod_ficha?idu=1850105210.
Vou ser chata e estragar a leitura de quem se interessar ok? Ahhh na boa, quem não estiver a fim de ter sua leitura comprometida, é só não ler o post, uai!
A história que diz ser verídica é contada em 1ª pessoa no melhor estilo “Meu Querido Diário”. Gira em torno de 2 personagens: Alma de Assis – a autora – e o Garçom B – o sádico do qual ela se enamora. Há ainda, como uma espécie de “coadjuvante” ou melhor dizendo “grilo falante”, o psicanalista de Alma, o Dr. Z (mas a tresloucada nunca dá ouvidos aos conselhos do Dr).
Alma inicia seu livro traçando um perfil psicológico de si mesma, ela narra sua história de vida desde pequena – filha de pai violento e repressor e de mãe narcisista e omissa – até encontra-se com o Garçom.
Resumo Alma em uma palavra que aprecio muito: desgovernada.
Alma é uma dessas mulheres que buscam desesperadamente no outro uma razão para continuar a viver. É incapaz de construir algo de seu. Carece de força, carece de luz, carece de alma mesmo. É dependente, depressiva bipolar com pensamentos obsessivos, suicida em potencial, adora o lugar de vítima nos relacionamentos afetivos, é irresponsável, mãe omissa.
É uma mulher que a vida toda usou o sexo como moeda de troca na busca de afeto. Ela gosta de sexo, goza, mas o associa com amor desmedido à priori. Na busca de afeto se submete ao sexo e tem medo de dizer não (ela nem sabe dizer não pra começar) e perder o afeto do qual inclusive ela nunca foi possuidora.
É uma anti-mulher… Alma procura um homem que a salve, embora só tenha se relacionado em toda sua vida, com homens que a destroem. Bem está na cara que odiei Alma né? rsss
Quem é o Garçom B?
Ora, é um homem casado com uma mulher feia que o sustenta, pai de uma filha. Trabalha num restaurante em frente a casa de Alma. É um homem muito bonito e viril – segundo a descrição de Alma – que sente um tesão doido, absoluto em seviciar, humilhar, usar, sujeitar, degradar e açoitar a mulher (não a sua esposa, claro). Não é descrito com nenhum traço de humanidade: ele não cuida, não orienta, não se responsabiliza por seus atos com Alma e muito menos se preocupa em dominá-la. Ele não é um dominador, ele é um sádico. Um sádico que na descrição de Alma beira o “maníaco”, ele exemplificaria claramente o lado pejorativo do termo “pervesão”, o cara é quase um psicopata.
Ele é nojento.
O livro não fala de BDSM, fala de uma relação sadomasoquista sem SSC (embora penso eu que sempre de alguma forma haja um C, Alma deu o Consensual a essa relação, ela só ocorreu porque ela deixou, porque ela assim o quis, contudo o motivo pelo qual Alma dá o consensual, é o motivo errado. Alma se descobre masoquista e sente prazer, muito prazer na dor (embora não assuma e prefira se vitimizar), mas o C não vem do prazer enlouquecido que ela sente na dor e sim da paixão obsessiva que desenvolve por B. Logo, Alma se submete por paixão.
Alma se “entrega” (uma entrega capenga, afinal nem auto-estima ela tem… o que se entrega a um sádico tem valor, quando sequer se possui respeito e amor por si mesmo? E a “entrega” dela não é entrega visto que busca o aprisionamento dele), perde todas as suas referências, mas não pelo prazer em ser submissa ou sadomasoquista, mas porque acredita que se ela assim o fizer, consentir a tudo, B irá amá-la e se sentirá preso a ela como ela se sente presa a ele e que ele dependerá dela, como ela é dependendente dele. “Farei tudo que B quiser, para que ele não me deixe nunca” – diz Alma.
Embora a narrativa seja moralista… fica muito a critério do leitor a tomada de posição: Alma é vítima, algoz ou cúmplice? Ela seduz e encena ou é auto-destrutiva?
Não é um livro bom ou bonito, não é bem escrito, não possui lirismo algum, não tem belas metáforas, é um relato sem imparcialidade. Mas é um livro interessante, um livro pra se ler com olhos críticos, o vejo quase como um livro paradidático.
Tem-se discutido muito sobre a entrega, os motivos da entrega, as responsabilidades de dominadores e submissas na relação e, esse livrinho, embora não seja BDSM, mostra como mulheres podem procurar a dor e a humilhação e a submissão por motivos inadequados, como não enxergam os “sinais” que os homens dão – B nunca enganou Alma, ele disse a ela desde o início quem ele era e o que queria dela, disse com palavras: “eu te satisfaço, você me satisfaz. Mas não passa disso” ou ainda “Você não significa nada para mim” ou então: “Pois está gostando do cara errado. Eu sou casado. O negócio entre nós é só transa, nada mais do que isso!” ou mesmo “Diga ao seu analista que eu te bato porque você gosta”– diz B repetidas vezes. E diz, principalmente com atitudes, ele não quer vínculos, ele não se relaciona com ela, ele sequer conversa com ela, já chega na casa da doida de pau duro, tira a roupa, faz o que tem de fazer me uma hora, se veste e vai embora, ela não existe para ele… ela apenas não quis enxergar, e nós mulheres, fazemos essas escolha muitas vezes, preferimos fantasiar a enxergar.
E outra coisa interessantíssima exposta no livro, e que ocorre muito no meio SM, é que a Alma foi agüentando, agüentando, agüentando até o dia que a relação acaba (porque ela pisa na bola e ele se cansa dela) e nesse momento, quando ele se cansa dela e termina tudo, ela se torna a vítima enganada… e joga a m* toda no ventilador! “Não vou admitir que você me largue assim! Depois de tudo que você fez comigo! Você fez o que quis! Você me usou!” – diz Alma. E ela explodindo de raiva e humilhação escreve toda sua história com B, tudo… um relato imenso e o envia junto com uma caixinha de prata, forrada de seda vermelha, contendo todos os plásticos das camisinhas que foi colecionando, ao longo da relação com B, cada uma delas etiquetadas com data, para a esposa de B e cópias do relato minuncioso para o irmão dele, amigos de trabalho, patrão…Ora qual a semelhança dessa atitude de Alma com as de nossas companheiras submissas que, finda a relação com o Dono, vão à listas e comunidades e choram em praça pública a aviltação e degradação impingida por este homem mal? Bradam a falta de responsabilidade dele? Expõem a relação para todos sem um pingo de bom senso?
E, do mesmo modo que nas listas, a galera se agita e toma partido… e, do mesmo modo que nas listas, quem geralmente se ferra é a submissa doida que se expôs.
A esposa de B fica do lado dele e processa Alma por calúnia e difamação… rsss a desgovernada ainda tem de responder processo, procurar testemunhas (e ninguém aceita testemunhar, claro), ela virou a ré que pra escapar da condenação necessita de parecer médico que a coloque como incapaz e irresponsável por seus atos. Piora da depressão e passa os últimos dois anos se mutilando.
B continua bem… encontrando novas parceiras que queiram se colocar no papel de vítimas dele.
Como última observação, acho bacana o fato de Alma, após abandonada, ter buscado relações BDSM de verdade. Começa a ler anúncios de revistas e a se corresponder com Dominadores, as cartas enviadas a ela pelos Doms, transcritas, demonstram conceitos fundamentais como o de Limite e SSC. Mas não é isso que ela deseja… ela é uma masoquista, mas uma masoquista perdida, sem bom senso, sem auto-estima, fantasiosa… buscando amor e salvação, quando deveria buscar aprendizado, consciência de si mesma e prazer.
Não é literatura, mas recomendo uma leitura crítica.
Querida, eu gostei muito da sua crítica, foi simples e clara,e me fez entender muitas coisas. Claro que, após tantos anos, eu mudei muito, eu sinto a submissão como algo a ser dada como um presente ao homem amado e só admito ser violada pelo homem que me ame, no mais, acho sexo bom, e não tenho problemas com isso não, sou livre, mais livre do que era então. Não entendi certas coisas: vc pertence a uma comunidade SM? Que comunidade é esa? O que significa BDSM e SC?
Querida, este e-mail é tbém meu msn, entre nele se quiser, ou me escreva, vou gostar de me corresponder com vc.
Beijos…Alma
Comment por Alma de Assis — Novembro 11, 2008 @ 4:15 pm |