
Conversando ontem com uma amiga masoquista pensamos juntas sobre o que rege esse nosso desejo. Não encontramos uma resposta para o que está por detrás dele e nem que me dissessem sábios e deuses eu acreditaria.
Prefiro acreditar que não há resposta pra isso, só há o SENTIR e não o que o motiva.
Mas do mesmo modo que não há uma resposta que me satisfaça, outras questões se fazem prementes - quanto mais me comprometo a refletir mais questões encontro -
Por que nem todo mundo sente igual?
Por que existem formas de sentir que são mais “brutais” que outras? Mais “sujas” e “marginais”?
Sei que as palavras são pesadas e feias e que quem lê pode imaginar que faço mal juízo. Eu não faço mal juízo, porque não faço mal juízo de mim mesma, do meu sentir.
Pensei em conjunto com minha amiga que as pessoas não gostam de falar de SM, ou melhor, as pessoas não gostam de falar desse SM. O SM roxo de bolinhas pretas cujo fundamento é o abuso. Porque é esta a verdade, o fundamento desse nosso SM é o abuso. O fundamento do SM, desse meu SM roxo de bolinhas pretas é o sádico abusar e a masoquista querer ser abusada, não temos defesa, mais que isso, não queremos ter defesa. O fundamento desse SM é nós masoquistas acharmos lindo a nossa degradação física e moral. Somos assim.
Mas…
Como conversei também hoje, existe um leque de opções de práticas e desejos e buscas e modo de sentir, tem gente que gosta de vivenciar a coisa sempre e em profundidade, não se enxerga sem ela, não está SM e sim é SM. E tem gente que gosta de vez em quando… e, fora isso, nem todos que gostam sentem roxo com bolinhas pretas, óbvio, e os que não sentem assim se esforçam pra não mostrar esse lado obscuro que é a perversão pura. Penso que porque esse lado sombrio vai contra a idéia de fazer o SM aceito por todos de dentro e de fora dele.
Cria-se então o discurso da normalização. Como disse minha amiga masoquista, vira o “hospício da normalidade”.
Mas voltemos à degradação.
Eu e minha amiga usamos para descrevê-la a palavra linda. A degradação física e moral é linda.
Vulnerabilidade, cacos espalhados, um ônus pesado associado a um bônus nem sempre de mesma proporção, humilhação, destroçamento, implosão, a perda da capacidade de se defender, ou o não desejar mais se defender. Sensações e emoções que agem como uma droga dentro da gente e nos deixam presas a elas. Masoquistas são mendigas. Mendigamos pancada, mendigamos monossílabos, mendigamos atenção e desprezo, nos humilhamos mesmo quando achamos que temos razão (penso inclusive que numa relação SM roxa com bolinhas pretas, sádico e masoquista não conhecem o significado da palavra “brigar”, não que a masoquista se anule a ponto de não ter opinião, ela tem, ela expõe, mas não existe briga porque sabemos exatamente quem manda e gostamos de ser subjugadas).
Dessa conversa com minha amiga que suscitou mais dúvida que certeza me apareceu um novo descompasso.
Eu fiquei aqui até tarde da noite lendo poesia enquanto conversava. E dentre tantas poesias que li, de novo essa do Glauco Matoso veio aqui lamber minha testa.
Mas hoje, hoje eu olhei pra esse soneto com outros olhos. Hoje eu discordo dele.
93 CONSENSUAL – Glauco Matoso [1999]
O sadomasoquismo é uma quimera.
O verdadeiro sádico é carrasco,
diverte-se causando dor ou asco,
contanto que não seja o que o outro espera.
Masoca pra valer não delibera,
atira-se sem medo do penhasco,
atura pisoteio até dum casco
e, numa arena, nunca escolhe a fera.
Querer que se completem é besteira,
pois o prazer do escravo frustra o dono,
e um cara só tortura quem não queira.
O jeito é o fingimento, e finjo sono
sabendo que o demônio da cegueira
vem me causar a insônia e o abandono.
O sadomasoquismo, pra quem SENTE esse SM roxo de bolinhas pretas, ora pois… não é uma quimera! Não é utopia, ilusão, fantasia, sonho ou imagem de minha imaginação, não é fingimento, como diz o poeta. É REAL.
O SM, esse SM é de uma realidade, brutalidade, marginalidade e crueza sem fim.
Sádicos e masoquistas que SENTEM assim me compreenderão e buscarão em suas imagens mentais diversos momentos em que, já fora de situação de cena, apenas foram quem são. Perversos. Por que é isso que nós somos. Não buscamos pra gente a pecha da normalidade, porque sabemos que nossa identidade sexual é diferente e, por ser diferente, lidamos num contexto erótico com coisas que pra outros podem não ser eróticas e que, na cabeça de muitos, nem deveriam ser.
Pense quantas vezes agiu numa situação corriqueira usando sua identidade sexual SM, numa conversa de msn por exemplo, alguém lhe impingiu dor (muitas vezes a pessoa do outro lado da tela, nem se tocou disso, que o que ela falava ou o modo como falava poderia te levar a associações que disparassem um gatilho emocional que levassem você a vivenciar uma situação dolorosa/humilhante) e você masoquista agarrou essa oportunidade de dor /humilhação com pernas e braços e foi fundo, bem fundo nela, ali, sozinha… sem o respaldo de ninguém (é porque tem isso também, tem gente que só se entrega a esse sentir se um outro cuidar dele, as que sentem o SM roxo de bolinhas pretas tão pouco se lixando se alguém vai cuidar ou não, se haverá alguém pra catar e colar os cacos depois ou não, porque ela já aprendeu a fazer isso por si mesma, paradoxalmente, é uma mulher de força, dignidade, de inteireza sem fim).
Não há fingimento. Há dor e um prazer que muitas vezes não é detectado sob a forma “salvadora” de gozo, de orgasmo, é apenas prazer imundo, energia dissipada.
Talvez pensem – se não há encenação com hora pra começar e acabar e orgasmo ao final, isso tudo é doentio – . Ao que respondo (talvez ingenuamente pois muitas de minhas idéias o são) que não é doentio porque inventaram 3 letrinhas SALVADORAS e ELÁSTICAS – SSC.
Que cada um então, encontre seu parceiro correto. Para terminar, um trecho de meu poema “sadomasoquista” favorito – excerto de “Versos Íntimos” de Augusto dos Anjos :
“(…) Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”
rose,
esse bdsm roxo de bolinhas pretas é contagioso e altamente virulento rs
Pois é , sao tantas coisas que queremos entender e responder que melhor nos fixarmos nas bolinhas meso e sentir,sentir,sentir.
beijocas
Comentário por anammk — Agosto 25, 2008 @ 6:29 pm |
.
Sabe ana, de todo o mundo de abobrinha que eu já escrevi ou colei aqui nesse blog, se eu tivesse de me definir e pra isso tivesse de escolher um único texto do blog, eu jogaria tudo no lixo e ficaria só com esse meu texto “Sadomasoquismo nu e cru”.
Semana passada dizia pra uma amiga muito querida minha, a Pamina, que houve um tempo em que eu já quis ir correndo embora, mas agora eu não quero mais.
Não sofro mais por sentir o que eu sinto ou por desejar o que desejo, não estou em conflito comigo mesma, encontrei a paz.
Claro que dói, como escrevi no comentário do post “Eu sou o que eu sou” semana passada, citando a frase de um Dominador amigo meu pra mim no gmail, a dor (externa ou interna) faz parte daquilo que me faz feliz.
Hoje não desejaria mais acordar baunilha. Uso o tempo todo o verbo ser, para me definir, porque eu sou sadomasoquista, eu não estou sadomasoquista.
Mas… quer saber ana? Na boa… Eu desencanei desse tipo de discussão porque pra mim as coisas [amém] se resolveram rss
A intenção de minhas postagens no meu blog atualmente é apenas essa, dizer: esta sou eu e eu estou muito bem, obrigada.
Eu estou em paz… eu não preciso mais do divã. Porque eu simplesmente sei que eu sou o que eu sou. Só isso.
Eu me identifico com esse meu texto “Sadomasoquismo nu e cru”, escrito no dia 30 de setembro de 2007, porque ele marca essa passagem, a da minha auto aceitação. E tem uma outra coisa muito interessante nele… as estatísticas do wordpress apontam que ele é o texto mais acessado do meu blog com 2.150 visualizações (até o presente momento). Freud explica rss
Bjo!
.
Comentário por rose — Agosto 25, 2008 @ 7:38 pm |
Ah…o austriaco explica tudo….
Que bom, rose,adorei teus comentarios depois do texto, forma um cenario super transparente sobre voce.
Se aceitar SM é um privilegio, uma conquista de poucos mesmo.Qdo a gente se aceita ,o mundo fica melhor rs.
Eu me aceito como sou, nao sou so SM, sou um novelo de mil fios entrelaçados, me entendo assim, uma trama mas é so questao de puxar o fio certo rs
beijinhos,linda
Comentário por anammk — Agosto 25, 2008 @ 8:37 pm |
Sabe lendo esse texto me esclareceu muitas duvidas dos meus sentimentos e prazeres que eu venho sentindo uma coisa que tenho preucurado mas n tenho encontrado, tenho precurado a razão dos meus sentimentos e prazeris tanto na dor quanto no meu coraçaõ mas eu sou um sabio que prelcura uma caminho é a respostas para tais coisas do meus prazeres e sentimentos talvez seja uma pessoa que talvez seja SM mas n percebi mas na vida a muitos pqs? mas ao mesmo tempo tb a muitas respostas, umas vc encontra, mas outras talvez nunca vai encontra, mas eu continuo minha jornada n sei se sou SM mas eu pareço um po ter sonhos de coisas que u acho que só os SM devem entender mas certas coisas tb n devem ser mostradas nem ditas mas demonstradas mas semprehaveruma resposta para todos os pqs? a minha busca terminou nesse sentimento e SM mas sempre precisarei de ajuda pq um sabio n sabe tudo porque cada dia ele sempre vai aprender uma coisa espero que um dia possa sentir isso que vc chama de SM roxo de bolinhas pretas xau
nikito_dark@hotmail.com
Comentário por Ilusão — Novembro 6, 2008 @ 7:00 am |