textos retirados de: www.misslibidonopaisdasmaravilhas.blogspot.com
O MASOQUISTA – ou como arranjar maneira de sofrer sempre
“(…)
O Dr. E. Pichon-Riviére demonstrou que não se pode imaginar um masoquista sem um sádico que exerce sobre ele um poder, o desvalorize e tenha prazer à sua custa ao desencadear dor física e moral. Tudo está na ligação.
Freud abordou esta perversão em termos de relação: um indivíduo não pode conceber-se fora da relação com outro, inter-funcional e reciprocamente estimulante, mostrando que o retorno, à própria pessoa, de uma pulsão parcial – que é a sua realização mais perfeita – depende da ação que o outro exerce sobre si, no fantasma ou na realidade. No entanto, o Dr. E. Pichon-Riviére convida a pensar cada relação como um triângulo: são dois na aparência mas, inconscientemente, um terceiro está presente. (…)
Tenho (Alberto Eiguer – psiquiatra, psicanalista, especialista em terapia familiar) tendência a pensar que o comportamento sádico imaginado por um masoquista nada tem a ver com aquele que o sádico realmente pratica. (…) No masoquista, a parte imaginativa da sua perversão é importante, tanto mais que a abstinência sexual lhe fornece um complemento de prazer através da insatisfação. Freud propõe expor-nos o modo como nos constituímos a partir daquilo que temos originalmente, a saber, uma torrente de forças insensatas. E Freud consegue inverter integralmente a questão, dado que o masoquismo, uma vez transformado em representação, nos ajuda a viver; mais tarde dirá que é isso que permite ao indivíduo domesticar a sua pulsão de morte, que se funde com Eros, constituindo o masoquismo um compromisso entre estas duas partes. Deleuze assinalou a disparidade entre o funcionamento do perverso sádico e o do masoquista, em que o primeiro se mostra impulsivo enquanto o segundo é sonhador ou até lírico.
AS TRÊS FORMAS DE MASOQUISMO PARA FREUD
Na perversão masoquista a pessoa não pode aceder ao prazer sexual se não experimentar um verdadeiro sofrimento físico, que lhe é infligido de acordo com modalidades por ela decididas – é isto que normalmente se entende por masoquismo. Freud dividiu isso em três categorias, algumas não diretamente sexuais:
1) masoquismo sexual
2) masoquismo moral (ou de caráter)
3) masoquismo feminino
A isto opõe-se um sadismo sexual, sadismo moral e um… sadismo naturalmente “masculino”, que podemos associar a ativo e dominador, embora estas duas características não cubram integralmente o masculino…
(…)
COMO IDENTIFICAR UM MASOQUISTA
Sob a aparência de docilidade e discrição, todo o masoquista se arrisca a esconder um ser capaz das piores cóleras e até da destrutividade mais insensata, uma aptidão para fazer mal, tanto mais perigosa quanto imprevista. Masoquista é alguém que se queixa de não ter vivido senão desgraças. É um azarado. Só lhe fizeram porcarias. A sua vida é um desfiar de insucessos. Toda a gente abusa dele. Ninguém jamais lhe agradece. No entanto, encontra desculpas para os que foram duros, implacáveis ou destituídos de escrúpulos para com ele. Não diz forçosamente que gosta de ser desprezado, castigado ou rejeitado. Por outro lado, não sabe tirar o menor proveito dos momentos de prazer. Se tem êxito, fica descontente. Por vezes encoleriza-se ou amua; atenção, pode estar à espera de uma reprimenda. Evite pois dizer-lhe que ele é bonito ou que faz bem aquilo que faz: na melhor das hipóteses procurará demonstrar-lhe o contrário, na pior, odiá-lo-á. Teste: dê-lhe um presente muito, realmente muito bonito e valioso. A resposta será: “Não se devia ter incomodado.” Dir-me-á que é uma resposta freqüente. A diferença é que o masoquista pensa mesmo isso, sem qualquer falsa modéstia. Sofre com isso. Uma prova: algum tempo depois, como por acaso, o presente estragar-se-á ou partir-se-á.”
(a ser continuado…) Adaptado de “Pequeno Tratado das Perversões Morais”
Alberto Eiguer (1997)
O MASOQUISMO FEMININO
“(…) Na edição do livro de Kraft-Ebing (“Psychopathia Sexualis” 1899) explica-se peremptoriamente que se o masoquismo sexual é menos raro na mulher isso deve-se à sua predisposição erótica, a qual tende para a subordinação e sujeição. É assim que o homem a quer. O ritual da galanteria, onde ela se pode fazer desejar, seria uma recompensa para a mulher, antes de se oferecer ao macho. Em última análise, seria uma prova de resistência e de força do homem, que, assim, revelaria a sua potência, oferecendo-se em vassalagem e sabendo ao que ela se refere. Para Kraft-Ebing, um traço tipicamente feminino seria a busca de tormentos que ela se inflige por demissão. Mencionam, como igualmente típicos na mulher, o reconhecimento das suas faltas nas disputas conjugais, a sua dependência, bem como a dificuldade de descarga completa da sua tensão sexual. (…)
Seria no entanto lamentável concluir pela inutilidade do conceito de masoquismo feminino. (…)
Pichon-Rivière (1994) propõe como exemplo de masoquismo feminino o da prostituta. Porque motivo dá ele exatamente este exemplo patológico se a prostituta vive das experiências de masoquismo moral: risco de encontros com homens violentos, desagradáveis, que a desprezam ou podem transmitir-lhe doenças sexualmente transmissíveis; posição social marginal e, por vezes, masoquismo sexual? A prostituta tem prazer na medida em que não goza sexualmente, em que o cliente é um intruso impotente, incapaz de seduzir uma mulher. A dependência caricatural em relação ao proxeneta corresponde ao masoquismo moral: rupturas e fugas para ser maltratada.
Penso que o masoquismo feminino se traduz aqui na escolha de uma sexualidade marginal em que o sexo é onipotente. Pichon-Rivière faz alusão à revolta contra a família. A passividade feminina emerge aqui como um emblema; o sexo, como um objeto utilitário, que compensa pelo dinheiro o nível do masoquismo feminino. A privação do prazer de que ela contudo dispõe (o ardor do cliente) surge então como um traço pertinente deste masoquismo.
Mas porque é que uma mulher haveria de aproveitar todas as oportunidades eróticas que se lhe apresentam, sem distinção, sem se permitir a rejeição ou sequer a repugnância? Este masoquismo manifesta-se, segundo Freud, no quadro do que é essencialmente feminino. Citarei o caso de mulheres estéreis, que procuram por múltiplos meios ter um filho, com freqüência à custa de grandes sacrifícios, exames penosos, operações extenuantes, e que, quando todos esses meios se revelam ineficazes, voltam a recorrer a eles. A perda do seu equilíbrio parece-lhes justificar-se. A vida do casal sofre com isso. Tudo gira em torno de uma esperança por vezes magra. Os novos métodos de procriação, tão úteis, fazem-nos descobrir a extensão do problema. O masoquismo não é aqui menos enigmático. Desejo de apaziguar uma depressão, necessidade de se reparar, de consolar a mãe que a mulher abandonou para investir num marido?”
In “Pequeno Tratado das Perversões Morais” Alberto Eiguer (1997)
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olá, gostaria de saber, e entender mais sobre o masoquismo moral…
Comentário por selma — Junho 29, 2009 @ 12:47 pm |