Texto original em: http://br.geocities.com/domtormentos/
Há masoquismo na submissão e submissão no masoquismo ou são coisa absolutamente distintas, ou seja, masoquista é quem sente prazer na dor e submisso é quem sente prazer em obedecer, assim muito bem definidos?
No livreto de Estela Welldon da série Conceitos da Psicanalise – Sadomasoquismo, editora Ediouro: Segmento Duetto, constam algumas citações de psicanalistas, como: “O masoquista é um revolucionário da auto-submissão. A pele de carneiro que ele usa esconde um lobo. sua rendição implica desafio; sua submissão, oposição. Sob sua suavidade encontra-se a dureza; sob sua subserviência oculta-se a rebeldia”, de Theodor Reik, em “Masoquismo no Homem Moderno”; “Como criador da representação, o masoquista nunca é verdadeiramente uma vítima, porque na realidade nunca abre mão do controle, e sob esse ponto de vista toda a situação serve apenas para retratar um sofrimento de mentira”, de Robert J. Stoller, em “Perversão”; e ainda, “O masoquista busca apenas certas formas especificas de sofrimento e humilhação”, de R.M Loewenstein, em “Uma contribuição para a Teoria Psicanalitica do Masoquismo”. Ela utiliza tais citações para mostrar que diversos psicanalistas apontaram para a incrível necessidade de controle demonstrada pelos masoquistas.
Utilizo tais citações para perguntar: Seria esta necessidade de controle mais uma suposta diferença entre masoqusitas e submissas? Mas se são diferentes porque encontramos a palavra “submissão” quando especialistas falam de masoquismo? Agora se são, por assim dizer, farinha do mesmo saco, porque surge
aí a expressão “necessidade de controle”, tão negada pelas submissas? E quanto a “humilhação”, é tara de submissa ou de masoquista, ou é uma estória a parte?
Penso que uma das dificuldades de entendermos a relação entre submissão e masoquismo está no fato de muitas vezes não diferenciarmos o jogo de D/s de uma uma relação, ou relacionamento, D/s. Quando pensamos em submissão quase sempre pensamos em relacionamento, em a submissa X ser escrava e propriedade do Dominador Y. Esquecemos que a Dominação e submissão é também um jogo que pode
ser desenvolvido sem relacionamento, sem encoleiramento, enfim, para fazer uma analogia, seria como confundir os assuntos sexo e casamento. No D/s jogo estamos falando em Sessão, no D/s relacionamento estamos falando de encoleiramento, propriedade, etc. Quando pensamos em masoquismo quase sempre pensamos unicamente em Sessão e quando falamos em submissão, esquecemos que também é um jogo que pode ser desenvolvido apenas no período de tempo de uma Sessão e pensamos em relacionamento, daí fica mais complicado para vermos as semelhanças entre submissão e masoquismo.
Já ouvi a expressão “masoquismo moral” para se referir a submissão e acho-a pertinente uma vez que, se o ser humano não foi feito para apanhar, ser torturado e sentir dor, também não foi feito para ser submisso. O ser humano é dotado de vontade própria e o que deve prevalecer nele, por natureza, é a igualdade, o respeito à sua vontade e sua dignidade. Como o corpo reclama através da dor da agressão ao seu físico, a mente reclama também através da contrariedade da agressão contra sua vontade e dignidade humana, logo há paradoxo e perversão muito semelhante em ambas os casos. Porque digo perversão?
Porque tais indivíduos, submisso e masoquistas, por algum motivo sentem diferente, ao contrário. Por algum motivo encontraram um meio de sentir prazer no que não deveria dar prazer, na dor, na submissão à vontade de alguém, na degradação moral. E entendo por submissão quando se sente prazer (chegando a ficar molhada, ereto, ou as vezes nem tanto, só aquele calafrio perturbador e delicioso de origem misteriosa…rss.) em ser mandada, em ter dirigida a si a ação (ordem, gesto) dominante e não apenas o simples suportar (mas mesmo o aparentemente “simples suportar”, pode está escondendo uma tendência, pode ser que seja desta forma que dê prazer, não assumido, não reconhecido, senão, porque suportar afinal?). O obedecer é a reação que completa o mistério, o prazer, e é feito quase com gratidão pelo prazer que dá. É algo como que a parte do submisso no processo do seu próprio prazer. Em alguns casos é como se o prazer que dá obrigasse o submisso a obedecer, mesmo contra a sua vontade. Por tudo isso é que uma chamada submissa ou submisso autênticos podem ter com um Dominador apenas Sessões de D/s, sem necessariamente haver práticas que envolvam dor física, no entanto, não deixa de ser uma espécie de masoquismo, uma forma diferente do que a maioria de nós está acostumado a entender como masoquismo, a saber, sentir prazer na dor física. Essa separação fomos nós mesmos quem fizemos. Em toda a psicanálise não há nada escrito sobre a submissão fora do tema sadomasoquismo, e é associada ao masoquismo. Isso tudo é a base, agora, com quem vai se relacionar, se vai ser um relacionamento duradouro ou não, se vão manter um clima de D/s fora das Sessões, é das preferências pessoais de cada indivíduo e obedecem a outros critérios de sua personalidade, tanto para os adeptos da dor quanto para os da obediência. Nós temos inventado muitas coisas desde o surgimento da internet e se por um lado é bom porque especifica as tendências individuais, por outro, gera uma confusão dos diabos. Alguns até chegam a pensar que uma coisa nada tem a ver com a outra apenas porque as preferências dentro do assunto são diferentes.
Quanto a submissão nos que se assumem apenas masoquistas, também não creio que estes apreciem a dor pura e simples, sem o Sádico a emprestar sua personalidade e exercer o comando na administração dela. Assim, pelo menos durante a Sessão ele está se submetendo. Eu diria que, diferente das chamadas submissas, os(as) masoquistas apenas gostam menos do relacionamento D/s, com todo aquele clima de D/s fora das Sessões, mas apreciam o jogo, regado a uma quantidade de dor física.
A definição de masoquismo inclui a submissão e a humilhação; já a submissão, embora estejamos entendendo ultimamente como algo do mesmo nível e à parte, é meramente uma fatia do masoquismo, masoquismo sem dor física. Esse raciocínio que leva a criar uma coisa chamada submissão, a parte e diferente de masoquismo, se dá porque estamos entendendo erroneamente o masoquismo, única e
exclusivamente contendo dor física. Estamos dividindo o grupo em dois quando é tudo uma coisa só, com uns que não apreciam a dor e outros que a apreciam; uns que não apreciam a D/s fora de Sessão e outros que a apreciam; uns que não apreciam os jogos de humilhação e outros que o apreciam.
Saudações!
Tormentos
Maio de 2007
Passando só pra dizer que eu também te amo ! : )
Comentário por rainhafragil — Junho 24, 2008 @ 4:24 pm |
Gostei.Muito bom!
Passando rapido aqui….
rose, devo à vc um e-mail eu sei, estou trabalhando muito, deixarei passar esse furacão e mandarei o e-mail. ok?
Abs,
beta
Comentário por beta — Junho 25, 2008 @ 11:54 am |
Masoquismo de dor e masoquismo de obediência…
Conceptualmente é possível separá-los, é claro. Em termos de vivência não creio que seja fácil, ou sequer possível. Talvez possa ilustrar esta afirmação contando algo da minha experiência pessoal.
Tenho 58 anos. A minha primeira experiência como dominante foi quando eu tinha vinte e um – há 37 anos, portanto.
Nesse tempo eu tinha uma namorada por quem estava apaixonado. Havia muito tempo que tinha fantasias muito fortes de dominar uma mulher, mas nunca lho tinha dito com medo de a perder. A nossa relação era exclusivamente o que hoje se chama “baunilha”.
Um dia ela pediu-me que fizesse com ela algo de “diferente”. Isto deu origem a uma longa e difícil conversa durante a qual ela acabou por confessar que esse algo de “diferente” era eu bater-lhe.
E aqui entra uma coisa engraçada: as minhas fantasias de domínio nunca tinham sido fantasias de tortura ou de bater. Apesar de ter fantasiado durante anos com o prazer de dominar uma mulher e de ser obedecido em tudo por ela, essa fantasia nunca tinha incluído, pelo menos conscientemente, o causar-lhe dor física. Apesar disso, não tive dificuldade nem relutância em aceder ao pedido da minha namorada: acho mesmo que tive algum prazer.
A coragem que ela teve de me confessar esta fantasia deu-me coragem para lhe confessar a minha. E assim começou a fazer-se entre nós uma espécie de negócio: eu dava-lhe a dor física que ela desejava (cheguei mesmo a manufacturar um chicote artesanal) e ela satisfazia as minhas fantasias: ajoelhava-se aos meus pés, beijava-me a mão, ia comprar-me cigarros ou outra coisa qualquer como se fosse minha empregada, obedecia às minhas ordens mesmo quando eram embaraçosas para ela, como ir descalça aonde eu amandasse.
Foi então que eu aprendi uma coisa de que nunca mais me esqueci: é possível aprender a gostar das coisas. Bem cedo comecei a ter prazer em vergastar a minha namorada – e não foi difícil, porque o direito a causar dor é obviamente uma forma de domínio; e ela começou, embora mais lentamente, a ter prazer em obedecer-me e em humilhar-se perante mim. Assim, a minha fantasia e a fantasia dela, que tinham começado por se justapor, acabaram por se fundir uma na outra.
Éramos os dois muito ingénuos. Nunca tínhamos ouvido falar em BDSM (creio até que o termo nem sequer existia). Ambos tínhamos lido Sade (nem eu, nem ela gostámos), Leopold Sacher-Masoch (não nos disse nada, uma vez que falava de submissão masculina e o nosso negócio era o contrário) e a História de O (que foi uma revelação para os dois). O aspecto “bondage” nunca nos atraiu especialmente: às vezes eu amarrava-lhe os pulsos quando fazíamos amor, mas a primeira vez que a amarrei a sério foi por uma razão bem prática.
Havia meses que andávamos a tentar ter sexo anal. Éramos muito ingénuos e ignorantes, repito, e nunca nos ocorreu que uma boa lubrificação tornaria as coisas muito mais fáceis. Sempre que tentávamos ela sentia dor e por mais esforço que fizesse para ficar quieta acabava por se debater e tornar impossível a penetração. Decidimos entao que eu a amarraria fortemente à cama, na posição mais adequada para ser penetrada analmente, e assim fizémos. Apesar de ela ter ficado a sangrar durante alguns dias, a experiência foi razoavelmente satisfatória para ambos; mas só a repetimos muito mais tarde, depois de termos aprendido a importância da lubrificação e de não ser necessário amarrá-la.
Mais tarde, ao longo da vida, tive várias experiências de domínio e submissão com outras mulheres. Fui aprendendo com todas, a tal ponto que hoje mal consigo acreditar que alguma vez fui tão ignorante. Todas essas experiências foram diferentes umas das outras, mas todas elas tiveram uma coisa em comum: a co-existência do factor “dor física” com o factor “humilhação”. Mas ainda hoje o centro das minhas fantasias está na mulher submissa e obediente, não na mulher que aguenta e até exige quantidades enormes de dor física.
Comentário por Vanderdecken — Junho 26, 2008 @ 11:02 am |
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Muito obrigada Senhor Vanderdecken pelo seu relato tão sincero
Também por experiência pessoal eu acredito que de alguma forma, podemos passar a gostar de coisas que antes não faziam parte de nosso “rol” de fantasias principais, as vezes até mesmo de coisas que inicialmente numa negociação são tidas como limite, com o passar do tempo podem ser revistas, praticadas e podem se tornar algo prazeroso.
Mais uma vez agradeço sua disposição em relatar aqui sua experiência pessoal e seu modo de enxergar as relações sadomasoquistas.
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Comentário por rose — Junho 26, 2008 @ 1:20 pm |
Concordo com vc, rose, linda plutinha alada!
*sorrindo*
De início, o que mais me excitava era obedecer cegamente, minha relação com a dor era difícil e eu só suportava a dor por submissão. Adorava tudo fazer para dar prazer ao Dono. Com o tempo aprendi a ser masoquista da dor física. Comecei então a sentir falta da dor mal terminavam as sessões e descobri que quanto mais intensas e numerosas as torturas, mais rápido e mais fortes eram as saudades que eu sentia delas.
Isto, porém, não aconteceu de uma hora pra outra. A descoberta do masoquismo em mim aconteceu ao longo de 10 anos. Hoje em dia, há alguns dias que fico tão sensível que não suporto quase nada. Nestes momentos, choro, imploro, suplico soluçando que meu DONO não me bata… vai entender. Nestes dias, uma simples chicotada parece ter a força de 100… vai entender isso também.
Há pouco tempo descobri um masoquismo bem diferente de tudo que já havia vivido: descobri um prazer intenso na mágoa. Não é humilhação, é bem diferente. E é difícil de explicar. Só sei dizer que tanto no medo, quanto na mágoa, o efeito é delirante… rs… de novo, vai entender… rssssssss…
besos e besos, roselita!
*;-)
Comentário por Amar Yasmine do AQUILIS — Junho 28, 2008 @ 3:12 am |