Pensamento Submisso

Junho 29, 2008

O Sadomasoquismo em relação com o Narcisismo por Sacher

Arquivado em: BDSM, Filmes, Masoquismo, Psicanálise, Sadomasoquismo — rose @ 12:04 am

Texto original pode ser encontrado em A Insubmissa

Introdução

Trazemos alguns autores que estudaram o masoquismo e o narcisismo e que buscam uma explicação das origens do sadomasoquismo e uma aproximação entre narcisismo e sadomasoquismo. Laplanche não acredita que o sadismo ligado ao prazer sexual seja entendido como um retorno a fase sádico-anal, devido a um trauma pré-edipico, contrariando toda a literatura que tem como base as teorias de Freud para explicar a perversão. Não pretendemos resgatar o desenvolvimento dessa perspectiva, mas sim, trazer as hipóteses do sadomasoquismo ter uma ligação muito próxima do narcisismo.

Base teórica

Glickauf-Hughes, em sua obra “Etiologia do masoquismo e narcisismo (1997), demonstrou que na mesma família, podemos ter filhos masoquistas e narcisistas, e que são diferentes situações que vão levar a diferentes personalidades, mas já aponta uma aproximação entre masoquismo e nacisismo. Na revisão que este autor fez, “Cooper (1988) descreve uma personalidade masoquista – narcisista que compartilha varias características de personalidade incluindo a busco do perfeccionismo , necessidade de sentir-se especial e sentimentos de grandiosidade e insignificância .

Alem disto, Stolorow (1975) descreve algumas das características narcisistas do masoquismo, incluindo a recuperação do autocontrole. Kernberg (1975) discute o temperamento nato das crianças como uma das causas do desenvolvimento dos desvios de personalidades masoquistas e narcisistas, em particular. Kernberg acredita que uma excessiva quantidade de agressão nata predispõe um dado individuo em direção ao em direção a patologia narcisista/masoquista uma vez que existe uma grande quantidade de agressividade a ser neutralizada.

Finalmente Glickauf-Hughes and Wells (1995) relatam a predominância de aspectos narcisistas em pacientes masoquistas, incluindo problemas de controle da auto-estima, dificuldades de se relacionar em publico, simulação de sentimentos e tendência a formar conluios narcisistas ou perfeccionistas”.

Rothstein em sua obra “Sadomasochism in the neuroses conceived of as a patthological compromise formation” (1991) em conclusão de seu trabalho, volta a citar o narcisismo no masoquismo: “Aspectos narcisistas do masoquismo são mais provavelmente sujeitos a serem analisados quando um está trabalhando com fortes aspectos auto destrutivos da personalidade de um paciente. É particularmente importante focar nas fantasias narcisistas de manifestações masoquistas quando um encontra o outro no questionamento” como ele pode fazer isto consigo mesmo? “(Rothstein 1983, 1984).”

Na revisão realizada por Rothstein neste trabalho, Bergier (1961) cita o narcisismo como explicação para a gênese do masoquismo o fato do recém-nascido ter a necessidade de lidar com sua natural megalomania (Narcisismo infantil), cujo conflito resulta inevitavelmente numa situação masoquista, o prazer pelo desprazer.

Laplanche (1985) descreve esse narcisismo infantil em relação à escolha narcísica dos pais, que tornam o recém-nascido em “Sua Majestade”, pela atitude que se manifesta a supervalorização, a idealização e o sentimento megalomaníaco de onipotência. Este autor coloca em dúvida que o sadismo tenha origens na fase pré-edipica, devido a um trauma nesta fase com retorno a fase sádico-anal e coloca o sadismo como “agressividade” e não como origem da perversão sádica. Para esse autor, o masoquismo é uma pulsão primária e o sadismo é secundário ao masoquismo.

Freud em seu texto “Formulações sobre os princípios do funcionamento mental (1911) nos traz uma percepção do que seria uma célula narcísica, remetendo a biologia, evoca a vida intra-uterina, que é bom lembrar, ainda não havia ego, onde a criança sente-se plena, saciada, sem sofrimentos e sem a necessidade de lutar pelo que necessita. Uma espécie de estagnação local da energia libidinal anobjetal, isto é, não existe investimento a um objeto. Isso seria o narcisismo originário. Nosso sono e sonho poderiam ser comparados a esse estado narcísico, já que nossas necessidades seriam satisfeitas através dos sonhos. Esse fato abre um campo para se investigar as psicoses, que se caracterizam por alucinações.

No momento em que o bebe nasce, ele mantém essa célula narcísica, pois todas as suas necessidades (o alimento = Seio materno) são satisfeitas imediatamente. Quando ele necessita chorar para receber o leite, aí temos uma busca por um objeto.

Na teoria da escolha do objeto, Freud, em seu texto “Uma introdução ap narcisismo” descreve como o sujeito se fixa neste ou naquele parceiro. Temos dois tipos:

a) Por apoio, isto é, auto-conservação, onde as pulsões sexuais se apóiam de início, na satisfação da pulsão do ego e posteriormente se fazem independentes, mas esse apoio continua a se revelar, primeiro a mãe e depois o substituto.

b) Narcisista – O objeto é escolhido a partir do modelo de si, ou seja, no modelo do ego. Se quisermos, podemos opô-lo como o amor do complementar, daquele que garante a vida.

Freud dá exemplos: – Escolhe do que se é ou do que se foi um dia, aquilo que gostaria de ser, da pessoa que foi parte de si própria.

Quem sofreu alguma perturbação no desenvolvimento da libido, escolhe o objeto de amor a partir de sua própria pessoa. Tudo indica que procuraram buscar a si mesmos como objetos de amor, escolha de um tipo que chamaria de narcisista. A Homossexualidade seria um exemplo.

Duas definições:

Pulsão do Ego = funções vitais para autoconcervação, não sexuais.

Libido do Ego = Pulsão sexuais.

Análise do filme “O Anjo Azul”

O Anjo Azul (Der Blaue Engel). Produtor: Erich Pommer (o mesmo produtor de “o gabinete do Dr. Caligari). Argumento: Baseado no Romance Professor Unrat de Heirich Mann. Direção: Josef Von Sternberg. Com Emil Junnings (Professor Immanuel Rath), Marlene Dietrich (Lola, Lola), Kurt Gerron (Kiepert, diretor da companhia).

Para ilustrar essa teoria, trago esse filme clássico, onde um professor respeitado e de uma cidade de Alemanha em 1924, se apaixona perdidamente por uma cantora de cabaré, chamada de Lola une, desde então, sua sorte à da mulher. Cinco anos mais tarde, cinco anos nos quais foi se degradando aos poucos, como um perfeito submisso, sendo humilhado pela própria mulher, a ponto de subir ao palco como palhaço, enquanto ela, entre as bambolinas se beija apaixonadamente com um jovem que acaba de conhecer. Humilhado em público, tenta agredir a ambos, mas impotente e deprimido, termina suicidando-se. A cegueira amorosa é o estigma inegável e definitivo do elemento narcísico.

A paixão amorosa aparece como o abandono da personalidade própria em proveito do investimento do objeto. O ego – reserva permanente de energia – que deveria manter sempre em si certo nível mínimo de energia libidinal, se enfraquece. O professor fez sua escolha objetal por apoio. Já Lola, uma narcisista, buscava apenas o ganho narcísico.

Nosso professor abandona sua personalidade própria em proveito do desejo de objeto, isto é, a mulher que despertou uma grande paixão. Com nossa Lola Lola, seu narcisismo fez com que suas emoções sexuais fossem inteiramente perdidas na administração de si mesma. Desta forma, quem assiste ao filme, a vê como uma sádica, pois humilha o tempo todo o professor se sentir piedade. No estado amoroso do professor, ele desprendeu seu próprio narcisismo, que foi capturado por Lola que representava a mulher auto-suficiente, belo animal auto-narcisista que só ama a si mesma.

O professor se degrada devido a perda de sua posição, levado a uma cegueira, devido a sua paixão. Com o ego fragilizado, o conflito com sua sexualidade anularam o ego e sua sexualidade manteve-se na fantasia, negando a vida, pois a sexualidade exclui a vida desse campo, tomando dela, protótipo para sua fantasia. O ego assume a ordem vital, a essência, sua homeostase “eu vivo pelo amor de mim, pelo amor do ego”. Como ele não tinha mais condições de manter esse equilíbrio, ele tenta voltar a ser o que era, mas não consegue e morre.

 

Bibliografia

 

LAPLANCHE, J. Vida e Morte em psicanálise, Porto Alegre, Artes Médicas, 1985.

ROTHSTEIN, A., Sadomasochism in the neuroses conceived of as a pathological compromise formation, Tradução: Siervo_SQ, Boston, Journal of the American Psychoanalytic Association, vol. 39, no.2, 1991

GLICKAUF-HUGHES, C., Etiology of the masochistic and narcissistic personality, Tradução: Siervo_SQ, The American Journal of Psychoanalysis, vol. 57, no.2, 1997.
Coleção “Os clássicos do cinema” Volume 10 – O Anjo Azul, Barcelona, Ataya, 1997.

 

Apêndice

Sinopse do filme “O Anjo Azul”

Em o Anjo Azul, a ação se desenvolve em uma pequena cidade alemã do interior, em 1924. O severo e despótico professor do Liceu Local, Immanuel Rath, chamado pejorativamente de imundice ou lixo pelos alunos de Unrat, persegue-os nas suas incursões noturnas, até que os descobre num local de má fama, “O Anjo Azul, Cuja principal atração é a provocante cantora Lola Lola. Após uma briga originada pela severidade moral do professor, este é presenteado com uma forte bebida alcoólica e na manhã seguinte, acorda na cama da artista. Alvo, por isso, das zombarias dos seus alunos, e expulso do liceu no qual ministra aulas, Rath decide se casar com Lola Lola, e une, desde então, sua sorte à da mulher. Cinco anos mais tarde, cinco anos nos quais foi se degradando aos poucos.

Ela ignora os padrões sociais, os valores, pois despreza a posição do professor, patriotismo, respeito, etc. Ela é narcisista, ama só a si mesma, despreza e humilha o professor, o fazendo segurar a caixa de maquilagem e o maço de cigarros, o qual ele deixa cair e se ajoelha para pegá-lo. A primeira referência ao professor, ela o chama de Papaizinho: – Está desalinhado, papaizinho (começa a penteá-lo). Depois joga propositadamente pó de arroz em seus olhos, ele tosse e sente dor. Ela fala: – Pobrezinho da mamãe. Está sofrendo muito? Ele responde que não.

Ele se irrita com sua situação, briga com o diretor e diz a Lola que vai embora. Ela ignora, ele sai e logo volta. Ela o humilha dizendo para que coloque suas meias. Ele se ajoelha e as coloca.

Sem emprego, ele já está completamente despersonalizado. Ela o humilha, pois precisa de dinheiro e ele não é capaz de conseguir.

Após 5 anos o professor está no Anjo azul., se veste de palhaço e está muito deprimido. Ela entra com outro rapaz e diz: – Porque está com essa cara, quando eu estou bem você não está. É a sua segunda chamada. Ela e o rapaz sobem para o quarto e depois do palco ele vê o beijo de Lola com o rapaz.

Ele vê o beijo e tenta estrangulá-la. Ela diz: – Não toque em mim, eu não fiz nada. Depois morre na escola.

Demonstra que ela não fez propositadamente a humilhação do beijo, mas que era natural para ela. Ele tenta recupera sua identidade, retornando ao período de sublimação, mas morre, pois seria impossível assumir sua posição novamente.

 

Autor: Sacher

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