Pensamento Submisso

Julho 11, 2008

Misconceptions

Arquivado em: BDSM, Experiência Pessoal, Orkut - Postagens, Sadomasoquismo — rose @ 6:31 pm

Tem um tópico interessante sendo desenvolvido na Piratas do BDSM Reloaded:

http://www.orkut.com.br/CommMsgs.aspxcmm=57894177&tid=5218175365449092273&start=1 é sobre preconceito e medo.

Esse semestre, um dos assuntos que mais rendeu pano pra manga nas minhas aulas na faculdade foi a teoria da aprendizagem significativa de Ausubel e Novak.

A teoria da aprendizagem significativa de Ausubel  propõe que os conhecimentos prévios dos alunos sejam valorizados, para que possam construir estruturas mentais utilizando, como meio, mapas conceituais que permitam descobrir e redescobrir outros conhecimentos, caracterizando, assim, uma aprendizagem prazerosa e eficaz. É muito interessante.

Ausubel é americano, psiquiatra e durante muitos anos trabalhou em descobrir/mapear como o indivíduo aprende. Leitor de Piaget e de Kant se utiliza dos pressupostos destes na construção de seu arcabouço teórico.

Muitos pesquisadores atuais se utilizam dos conceitos traçados por este autor  e seus colaboradores (conhecimentos prévios, aprendizagem significativa, conceito subsunçor, esteio), que após a aposentadoria resolveu voltar a exercer a psiquiatria. Ausubel não pesquisa mais sobre a aprendizagem.

A teoria de Ausubel se propõe a lançar as bases para a compreensão de como o ser humano constrói significados e desse modo apontar caminhos para a elaboração de estratégias de ensino que facilitem uma aprendizagem.

Da teoria da aprendizagem de Ausubel para o tópico do preconceito, bem o que isto tem a ver? Numa primeira mirada nada, olhando menos na superfície, muita coisa…

Concepções alternativas, conhecimentos prévios, misconceptions, concepções espontâneas ou concepções prévias, entre outros nomes é aquilo que o indivíduo já sabe, já conhece ou pensa sobre determinado assunto. De um modo geral nós temos dentro de nossa cabeça concepções sobre tudo que nos cerca, nós já sabemos alguma coisa sobre todas as coisas. Ausubel diz que para se ensinar algo a alguém a primeira coisa que devemos procurar descobrir é o que a pessoa sabe sobre o assunto a ser ensinado, feito isso, ensinaremos a partir disto.

As concepções alternativas, para o autor, muitas vezes emperram o conhecimento, o ato de conhecer cientificamente algo e, se desconsiderarmos estas concepções, o ensino nunca se dará de modo eficaz.

É papel da escola falar sobre preconceito, está nos Temas Transversais, mas especificamente no PCN de Pluralidade Cultural.

O preconceito nada mais é que uma forma de autoritarismo social de uma sociedade doente. Normalmente o preconceito é causado pela ignorância, isto é, o não conhecimento do outro que é diferente. O preconceito leva à discriminação, à marginalização e à violência. Estas atitudes vêm acompanhadas por teorias justificativas.

O preconceito também pode ser justificado/motivado pelo medo. Falta a coragem de ir conhecer um terreiro do candomblé, de visitar um doente com AIDS. O medo da hanseníase tem uma história milenar.

Há preconceitos de diversos tipos: preconceitos contra ciganos (todo cigano é ladrão), negros (dizem que quando não apronta na entrada apronta na saída), judeus (só pensam em dinheiro, são mesquinhos), índios (são preguiçosos e indolentes), idosos (são lerdos e metódicos e no trânsito só atrapalham), mulheres (são inferiores aos homens), pobres (vivem choramingando e não se esforçaram o suficiente pra vencer na vida, são preguiçosos),  ricos (esbanjadores e exploradores, capitalistas desumanos), preconceito contra a corpo (o nu, e isso quem já teve o perfil excluído no orkut mais de uma vez por conta de fotos, sabe bem o que é), preconceito religioso (umbanda, candomblé, pentecostais – ou apenas por se acreditar num ser superior, sem nomeá-lo, se sofre preconceito), preconceito contra a cultura popular (se acha que a erudita é melhor), preconceito contra os doentes mentais (vamos matá-los todos pq não servem de nada mesmo), preconceito contra os detentos (direitos humanos para presos pra que?), preconceito linguístico (bidialetalismo funcional é papo de intelectual), preconceito sexual: homossexuais e toda comunidade LGBT (são uma aberração da natureza), a mulher que assume seus desejos e busca por eles (é puta), preconceito contra os praticantes de BDSM (é tudo um bando de perverso, doente), preconceito dentro do BDSM: (zôo? Não aperto a mão de quem faz isso, tenho nojo. Scat? Masoquista moral? Dar as senhas de meu msn, e-mail e orkut pra Dono, cruzes!! Obedecer incondicionalmente? Lamber o chão que ele pisa? Abrir mão de meu prazer em prol do Dele? Submissa de alma? Dominação psicológica? Credo, normal sou eu com minha listinha de fetiches, os outros são anormais… povo mais doente esse eu hein!)

E assim, das mais variadas formas, cotidianamente, tecemos juízos de valor pré-concebidos, discriminamos o outro, o diferente. Nos colocamos na zona de conforto pra apontar o dedo pro vizinho.

Essa atitude, de olhar para o outro e taxá-lo de acordo com nossos valores, nossos conceitos de certo e errado, tem uma origem etnocêntrica. Preconceito visto desta forma, tem, entre outras origens, a origem cultural. Procuramos no outro os nossos valores e então vemos neles apenas o que falta a eles e não nos dedicamos a ver com clareza o que estes outros são de fato… tendemos a nos julgar melhores.

Bem, todos nós possuímos, em maior ou menor grau, preconceitos. Somos diferentes. Temos modo de pensar, agir, gostos diferentes, opções diferentes.

E aí volto nas misconceptions, nos conhecimentos prévios de David Ausubel. Devemos saber o que as pessoas pensam, dar vez e voz a elas, ouvi-las. Mas nós não conseguimos, só sabemos falar, não sabemos ouvir. Nas comunidades os discursos são para cegos (ou surdos?).

Levando-se em consideração que somos assim e que dificilmente uma pessoa muda sua opinião pela do outro, porque se faz (ou não faz) necessário discutir preconceitos? Como se combate o preconceito?

Estas são as grandes questões que me faço.

Preconceito é crime. Se não o discutimos não o combatemos e se não o combatemos tendemos a justificá-lo e a legitimá-lo. Tolerância não é a palavra chave para o combate ao preconceito. Tolerar não é compreender nem tampouco aceitar. Temos de aprender a ser e a conviver.

Como se discute preconceito sem se gerar novos preconceitos?

Há que se ter sabedoria e não se deixar queimar na fogueira das vaidades. Há que não se subir em um pedestal, se colocando acima do bem e do mal. Tarefa inglória. Eu como sei que não sou capaz de tão árdua tarefa (porque sim, eu sou muito narcisista), leio e reflito aqui, no meu canto.

O blog Pensamento Submisso, a partir de hoje, entra em recesso.

3 Comentários »

  1. Rose, Minha Doce, Linda e Amada Amiga!

    Vc já viu um documentário que se chama “Terráqueos”? Se viu sabe exatamente o que vou falar e vivo falando. Se não viu, assista, por favor e vai entender a minha posição, chamada por muitos de “radical” e até de “ecochata”.

    O homem, esta espécie tão egoísta, é feito de preconceitos. Estamos acostumados a chamar de preconceitos apenas o que vemos por aí mais comumente. Há quem diga que não tem… rs.. todos temos. O exemplo maior é a forma diminutiva como vemos as outras espécies, rose. Nós as usamos a nosso bel prazer, seja pra nos alimentarmos delas, pra exploração no trabalho, para nossa diversão.

    Julgamos que somos melhores e soberanos. Matamos seres que nos incomodam sem nenhum sentimento de culpa. Nos divertimos com outras espécies nos circos e nos zoos. Atrelamos algumas espécies a trabalhos pesados e cruéis. Nos vestimos do sofrimento de muitos. E comemos alguns mais do que o suficiente para sobreviver.

    Esta é a forma mais horrorosa de preconceito. Estamos fixados em achar que preconceitos são apenas as discriminações que fazemos aos nossos companheiros de espécie. E os outros???? É um verdadeiro racismo o que fazemos aos outros animais. Vivemos na nossa ignorância julgando que somos superiores e, por conta disso, oprimimos, maltratamos, arrazamos com tudo e com todos os animais. Para mim, rose, este é o maior preconceito que temos. Todos nós.

    Doces besos, amiga querida!

    http://www.vista-se.com.br/terraqueos

    Comentário por Amar Yasmine do AQUILIS — Julho 13, 2008 @ 4:27 pm | Responder

  2. Parabéns.
    Seu blog é o mais interessante que já conheci sobre o tema.

    Bjo

    Comentário por Luisa — Julho 29, 2008 @ 8:03 pm | Responder

  3. .

    Muito obrigada, Luisa.
    Às vezes eu me canso dele… e o acho ridículo e sem fundamento, mas noutras eu olho pra ele e vejo como ele me auxiliou a “crescer”, vejo minhas pequeninas mudanças, bem pequeninas, mas mudanças, e fico feliz de ter tido a idéia de iniciá-lo.
    Estou numa destas fases de achá-lo bobo, feio, chato e cara de mamão… espero que passe :)
    Obrigada mais uma vez.

    .

    Comentário por rose — Julho 29, 2008 @ 8:24 pm | Responder


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