Notas da rose (tudo aqui nestas notas pode estar errado, é apenas a minha leitura, o meu entendimento dos conceitos, quem quiser corrigir ou contribuir, fique à vontade no comentário) -
O termo sublimação é um termo psicanalítico. Sublimação – Em uma passagem do Mal estar na civilização Freud dirá que : “A sublimação das pulsões constitui um dos traços que mais sobressaem do desenvolvimento cultural; é ela que permite as atividades psíquicas elevadas, científicas, artísticas ou ideológicas, desempenhando um papel bastante importante na vida dos seres civilizados.” De modo raso, seria afirmar que consistindo em adotar um comportamento ou um interesse que possa enobrecer comportamentos instintivos de raiz Ética é renunciar às gratificações puramente instintuais por outras em conformidade com os valores sociais, como um homem pode encontrar uma válvula para seus impulsos agressivos tornando-se disputador de um prêmio, um esportista ou mesmo um cirurgião. Para Freud as obras de arte, as ciências, a religião, a Filosofia, as técnicas e as invenções, as instituições sociais e as ações políticas, a literatura e as obras teatrais (e se ele vivesse hoje diria que também as páginas na Internet) são sublimações, ou modos para a substituição do desejo sexual de seus autores e esta é a razão de existirem os artistas, os místicos, os pensadores, os escritores, cientistas, os líderes políticos, etc. mas reitero que essa é uma maneira “rasa”, superficial de explicar o termo sublimação.
O termo pulsão é um termo psicanalítico. Pulsão – A sexualidade humana tem basicamente uma questão que a torna diferente; é a questão da pulsão, pois nós não somos, tal como os animais, movidos por instinto, mas por pulsão, termo proposto por Freud para dar a idéia de algo que fica exatamente no limite entre o orgânico e o psíquico. Freud define pulsão como sendo um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam no corpo – dentro do organismo – e alcança a mente, como uma medida da exigência feita à mente no sentido de trabalhar em conseqüência de sua ligação com o corpo. Existe um caminho natural para a sexualidade humana, não há uma maneira única de satisfazer o desejo, o que confere ao humano a sina de estar sempre insatisfeito frente a este. É em nome desses desvios que Freud fala em pulsão sexual (trieb) e não em instinto (instinkt), que é um padrão de comportamento, hereditariamente fixado e que possui um objeto especifico, enquanto a Trieb não implica nem comportamento pré-formado, nem objeto especifico.
O termo passagem ao ato é um termo psicanalítico. Passagem ao ato – A passagem ao ato não engana. É uma saída de cena, que não deixa mais lugar à ao jogo do significante.
Cito um exemplo:
Paulinho é autista. Já passou por vários psiquiatras, duas internações no H.C., e psicoterapia dos 6 aos 9 anos. Paulinho não fala, é muito agitado, não lê, dependendo dos pais para tudo. Urina na cama à noite, dormindo de fraldas por essa razão. É explorador, mexe em todos objetos da sala de atendimento de forma repetitiva em uma seqüência cíclica, circular, estereotipada, na qual um objeto parece deter a maior parte de seu interesse desde o início: Reinaldo, o terapeuta. Observar é tudo o que se pode fazer por meses a fio. Observar e ouvir o menino e também a mãe que permanece impermeável às pontuações e cortes que parecem não surtir qualquer efeito. A inibição toma conta do trabalho na forma de uma certa paralisia.
Em uma dada sessão Paulinho brinca com carrinhos e diz bate. Vai à janela e olha o movimento lá fora. A um dado momento contrai-se e diz bateu. Pega a bola e bate com ela no chão. Vira-se para o terapeuta e com a mão fechada dá-lhe um murro no rosto.
Lacan, em uma conferência debate em novembro de 1975, na Yale University, estabeleceu uma diferenciação entre “acting out” e passagem ao ato.
O acting out é um ato necessariamente inibido. A passagem ao ato efetua aquilo que o acting out inibe. A passagem ao ato é da ordem da escritura.
Assim, se podemos traduzir o brincar de uma criança como um acting out, sugiro que pensemos o comportamento de Paulinho no registro de uma passagem ao ato, ali onde o simbólico pode-se dizer que falha e o que acontece é que o bater, que deveria ser um brincar de bater, vira ato propriamente dito.
Do que se trata então na passagem ao ato? De uma rejeição da cena e de rejeição de qualquer apelo ao Outro.
O termo Lei, grafado pela autora em letra maiúscula, é um conceito psicanalítico. Lei – lei simbólica, diferente das leis sociais. O pai ocupa o lugar da Lei – Totem e tabu. Lei é uma leitura do Simbólico, a lei na psicanálise de Freud é a da proibição do incesto. É proibido tender ao desejo, desejo como descarga de estímulos; a interdição disso seria a postergação dessa descarga. O homem é diferente do animal porque tem a possibilidade de postergar instintos. A educação é tirar o sujeito da natureza, é saber postergar instintos. É a inserção da Lei, a inserção do simbólico.
O termo gozo é um termo psicanalítico. Gozo – O título “gozo” pode ser lido de duas maneiras: ou como conceito ou como forma verbal. No primeiro caso (precedido do artigo definido), o gozo é um substantivo que pode ser elevado ao universal de um conceito da psicanálise; no segundo (sem artigo definido), gozo é para ler na primeira pessoa do presente do indicativo do verbo gozar. O gozo, é o que prende o sujeito ao seu sintoma. Antiga lição de Freud que deve orientar na clínica, quando se pergunta sobre as razões do sofrimento do paciente. O que é que se satisfaz no sujeito que sofre? Se goza daquilo que se sofre (Lacan, 1973/ 1990) no sintoma. Poderíamos nos contentar com esta articulação que é originalmente a de Freud (1926/1973), perfeitamente válida, tanto que é reconhecido por Lacan na forma de um gozo, aquilo que Freud já chamava de uma formação de compromisso, que se estabelece no sintoma, através do qual, apesar dos pesares, o neurótico se satisfaz, “Digamos que, por essa espécie de satisfação, eles se fazem sofrer demais.” (Lacan, 1973/1990, p.158 )
O texto abaixo foi extraído da segunda metade do capítulo 2, “Sade para e contra si mesmo”, do livro de Elisabeth Roudinesco: “A Parte Obscura de nós Mesmos – uma história dos perversos” p. 59 – 75. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2008. Esse capítulo trata da biografia de Sade associada à sua obra, tendo por pano de fundo a visão psicanalítica da autora.
(…)
Sade passou sua infância entre um pai libertino devasso e sodomita (31), gostando tanto de meninas como de meninos, e uma mãe que o entregou bem jovem a amante de seu pai, a esposa do príncipe de Condé. Com a morte do príncipe, foi adotado pelo irmão deste, o conde de Charolais, conhecido por sua crueldade e depravação: na caça, atirava em seus semelhantes por diversão – e mais ainda nos operários que trabalhavam em seus domínios.
Aos cinco anos, Donatien não manifestava nem afeto nem culpa, deleitando-se em inflingir às outras crianças todo tipo de violência. Foi então que seu pai decidiu enviá-lo para a Provence, para a comunidade de Saumane, onde foi recebido por irmãs que o trataram como um pequeno Jesus. Todos os mimos de que foi objeto só fizeram aumentar sua arrogância e sua fúria, até o dia em que foi posto sob a tutela de seu tio, Paul Aldonse Sade, abade libertino, voltariano e erudito, apaixonado pela flagelação e a pornografia, e vivendo em companhia de duas mulheres (uma mulher e sua filha), das quais dispunha a seu bel-prazer. Diante do sobrinho, a quem iniciou em uma imensa cultura literária e histórica, embora confiando sua educação a um preceptor, entregava-se à devassidão com lavadeiras e prostitutas.
Quando completou dez anos, Donatien deixou o castelo de Saumane e voltou para Paris a fim de ingressar no famoso colégio Louis-le-Grand, dirigido por jesuítas. O ensino que recebeu era acompanhado de numerosas referências à arte teatral, a que também vinha se somar uma prática cotidiana da chibata e dos castigos corporais. Tornando-se adolescente iniciado na sodomia pelos professores e alunos do colégio, o jovem Sade adquiriu o hábito de passar seus verões no campo com uma ex-amante de seu pai, Madame de Raymond. Cercado por um bando de mulheres mais ou menos libertinas, era tratado como um querubim a quem masturbavam e davam banhos de óleo de amêndoa, o que extasiava o conde, que ficou literalmente apaixonado pelo filho, Assim introduziu-o no mundo da aristocracia, onde o rapaz iniciou-se na prática da libertinagem.
Foi quando entrou para o serviço do exército real como tenente, passando alguns anos nos campos de batalha, onde revelou uma inclinação irreprimível para o assassinato. Jogador e devasso, Donatien resolveu viver em Paris, enquanto seu pai, arruinado pelos vícios e prodigalidades, esfalfava-se para lhe arranjar um bom partido. Depois de desejar se casar com uma mulher nitidamente mais velha que ele, pela qual se apaixonara, aceitou a mão de Renée-Pélagie, uma jovem rica e burguesa, mais para feia, de feições viris e maltrapilha. A mãe desta, Marie-Pélagie de Montreuil, apelidada de Presidenta, tinha apenas um objetivo nesse negócio: ligar o destino de sua família a um dos mais prestigiosos nomes da nobreza francesa.
Instalado na casa da sogra em 1763, Sade inflingiu toda sorte de baixezas, surras e injúrias à sua esposa, às quais esta curvou-se por obediência à exigência materna, mas também porque ao lado do furioso marido, tinha a sensação de viver acima das Leis. Quanto à Presidenta, manteve com o genro, pela vida afora, uma relação de ódio e fascinação que os confinou a ambos numa perpétua luta de morte. Quanto mais ela procurava submete-lo a soberania do Bem, mais ele a desafiava com atos transgressivos que a remetiam não apenas à sua própria impotência em domá-lo, como a imagem invertida da virtude cuja Lei ela pretendia encarnar. “Madame de Mantreuil opõe a seu adversário, confuso e caótico”, escreve Maurice Lever,
Um inflexível rigor, um espírito de ordem e de método. Ela é quase certeira em seu cálculo, sempre exata e diligente, utilizando nesse jogo as precauções do felino que, pacientemente, espreita sua vítima e, depois, num súbito impulso, atira-se sobre ela. Seu ódio será tanto mais feroz quanto mais ela se sentir enganada após ter sido seduzida. (32)
Por conseguinte, o casamento não impediu o marquês de se entregar a seus vícios. E foi com Jeanne Testard, uma jovem operária grávida que as vezes fazia “programas”, que ele voltou a se enfurecer contra a religião. Um dia, ao mesmo tempo em que ejaculava num cálice, introduziu-lhe hóstias no ânus, depois de se flagelar com uma palmatória em brasa. Obrigou-a no fim a blasfemar e tomar um laxante para que se aliviasse sobre um crucifixo.
Denunciado, depois encarcerado no torreão de Vincennes, Donatien decidiu escrever livros. Dois anos mais tarde, instalava-se no castelo de Lacoste, na Provence. Ali levou uma vida mundana, arruinou-se e encetou uma carreira de homem de teatro. Após a morte do pai, que se voltara para a religião, tornou-se o homem mais devasso do reino da França, conhecido e temido ao mesmo tempo por suas extravagâncias e seus incontáveis casos com atrizes. Antes mesmo de haver escrito, transformara sua vida em matéria-prima de uma obra vindoura.
Em 1768, cercado por seus criados, entregou-se a outros atos de blasfêmia, flagelação e sodomia com Rosa Keller, uma fiandeira de algodão relegada à mendicância. Após um longo processo, foi preso domiciliarmente em seu castelo, continuando a provocar escândalos em Marselha. Durante uma noite de devassidão, forneceu cantárida a prostitutas e fim de sorver melhor suas matérias fecais. Sade logo foi visto como um caso clínico pela alta sociedade da época: um novo Gilles de Rais, um ogro, um estranho inventor de ungüentos. Após ter seduzido a irmã de sua esposa, Anne-Prospère de Launay, cônega de seu estado, foi considerado incestuoso.
A cunhada festejava com deleite as práticas a que Sade a iniciara. Quanto a Renée-Pèlagie, foi, durante alguns anos, cúmplice do marido, aceitando porém com repulsa a sodomia que este lhe inflingia e assistindo, impotente, a seus atos de devassidão com criados adolescentes, meninas e meninos. Condenado à morte por crime, blasfêmia, sodomia e envenenamento (35), Sade foi preso a pedido de sua sogra, a princípio no torreão de Vincennes, em 1777, depois na Bastilha em 1784. Ali viveu corretamente, durante 5 anos cercado por uma biblioteca de 600 volumes.
Foi durante esse período que incorreu na “inconveniência maior”(34). Obrigado a renunciar às suas passagens ao ato e a praticar um mero onanismo furioso, sofrendo de hemorróidas, de um início de obesidade e de uma progressiva vista cansada, ainda assim aproveitou-se do confinamento para conquistar, na intimidade de um violento confronto consigo mesmo, a mais elevada das liberdades, a única a qual pôde aspirar: a liberdade de dizer tudo – logo, de escrever tudo. Ao longo dessa prova iniciática, marcada por uma longa série de recriminações em relação aos outros, passou da abjeção à sublimação, da barbárie pulsional à elaboração de uma retórica da sexualidade. Em suma, passou do status de perverso sexual a de teórico das perversões humanas. Consciente de ter se tornado autor de uma obra inaceitável para a sociedade, redigiu Os 120 Dias de Sodoma tendo cuidado de copiar seus manuscritos em minúsculos papeizinhos enrolados a fim de melhor dissimulá-los. “Escrita, a merda não tem cheiro”, assinala Barthes. “Sade pode inundar suas parceiras com ela, não recebemos nenhum eflúvio, apenas a marca abstrata de um desconforto”. (35)
Julgado louco por berrar de sua cela que estavam degolando prisioneiros no interior da fortaleza, Sade foi transferido para o hospício de Charenton em 2 de julho de 1789. Doze dias mais tarde, sua cela foi saqueada e os preciosos rolos desapareceram. Sade nunca mais os veria. Recolhidos por uma família oriunda da nobreza, permaneceram com ela durante três gerações antes de serem vendidos a um colecionador alemão que os guardou em uma caixa. Publicados pela primeira vez em 1904, pelo psiquiatra e sexólogo alemão Iwan Bloch, ele próprio autor de uma biografia do marquês, (36) o manuscrito dessa obra única no gênero, por sua força transgressiva, saiu da Alemanha em 1929. Foi no mês de janeiro desse ano, com efeito que o escritor e médico Maurice Heine, pioneiro nos estudos sadianos, viajou até Berlim a fim de repatriá-lo para a França. (37)
Em 1790, após a abolição das lettres de cachet, (38 ) Sade pôde sair do hospício de Charenton justamente no momento em que sua esposa tomava a decisão de se divorciar. O espetáculo da Revolução provocara nela uma curiosa conversão. Assim como se curvara, contra as ordens maternas, às exigências de um esposo sacrílego que desafiava a lei dos homens e profanava a Igreja, da mesma forma o rechaçou quando foram abolidas as leis sobre a blasfêmia e a sodomia. E, diante das igrejas saqueadas, viu-o como a encarnação do mal absoluto, que, a seus olhos, não passava mais do vetor sangrento de uma grande pilhagem dos valores cristãos: um real incontornável.
De sua parte, louvando essa revolução que pusera fim ao seu confinamento, Sade declarava-se por toda parte homem de letras, assinando com um pseudônimo obras teatrais medíocres, justamente quando escrevia, no mais absoluto segredo, alguns de seus textos mais subversivos. Assim como a Revolução metamorfoseara o curso da vida de Renée-Pèlagie, da mesma forma cavava um novo fosso na relação de Sade com a Lei.
Seja como for, graças à Revolução, o marquês conseguiu dissociar-se oficialmente da parte obscura de si mesmo, embora torpedeando, com suas obras clandestinas, os ideais de uma sociedade cujas estruturas já se achavam fortemente abaladas. Levou então uma vida oposta à que levara sob o Ancien Regime.
Foi com uma atriz de origem modesta, Marie Constance Quesnet, que esse grande predador libertino, outrora tão violento, transformou-se num amante, se não virtuoso, pelo menos quase fiel, mas também num pai. Ao passo que não dava a mínima para os filhos legítimos, aos quais amaldiçoara incansavelmente, cuidou muito bem, anos a fio, do filho de sua amante, zelando entretanto para mantê-los a ambos na mais perfeita ignorância das obras que publicava sob pseudônimo – em especial Justine ou Os infortúnios da virtude, primeiro fascículo da interminável saga das duas irmãs (Justine e Juliette), uma virtuosa e condenada ao infortúnio , a outra lasciva e fadada à prosperidade. (39)
Em setembro de1792, na seção (40) de Piques, apresentou-se como “cidadão Sade”. Sonharia ele talvez com uma Revolução que não traísse a Revolução e que tivesse como divisa: “Francês, mais um esforço…”? Ou aspiraria talvez, sem acreditar nisso, à instauração de uma sociedade perversa que adotaria como imperativo categórico a lei do crime, do incesto e da sodomia? Em todo caso foi possivelmente esta a razão pela qual não buscaria, no cerne da tormenta, identificar-se com uma qualquer nova ordem do mundo. Apenas o instante presente parecia detê-lo, tal como um diamante vazio da Leia abolida.
Príncipe dos perversos, o ci-devant (41) marquês desempenha à perfeição os papéis que ele próprio se atribui à medida que se desdobram aos seus olhos as múltiplas facetas do grande teatro da Revolução. Da mesma forma, sente-se impossibilitado de ocupar um lugar no seio de uma facção, um grupo, um vínculo:
Sou jacobita, odeio-os mortalmente, adoro o rei, mas detesto os antigos abusos; amo uma infinidade de artigos na Constituição, outros me revoltam, quero que devolvam à nobreza seu lustro porque de nada adianta lho confiscar; quero que o rei seja o chefe da nação… . Que sou agora? Aristocrata ou democrata? Diga-me por favor, pois da minha parte não entendo nada. (42)
Como cidadão, salvou a vida dos sogros, a quem não obstante odiava, quando estes haviam sido condenados à prisão: São meus maiores inimigos, vagabundos, celerados, mas sinto pena”, escreve. Na realidade, aquele que, em seus livros, preconizava suplícios e assassinatos de todo tipo, com a condição de que fossem realizados como tantos outros atos naturais emanados de uma pulsão soberana, tinha horror, repito, à idéia em si de uma possível institucionalização do crime. A visão do cadafalso fazia-o vomitar, e o espetáculo dos corpos decapitados mergulhava-o num abismo de terror. Sade, teórico das perversões sexuais mais sofisticadas, jamais suportou a idéia de que seu imaginário bárbaro pudesse se confrontar com o real de um acontecimento que, por sua própria selvageria – a do Grande Terror – , ameaçasse exorcizá-lo, até mesmo aniquilá-lo. Quando Maria Antonieta foi executada, após ter sido acusada de incesto e práticas sexuais lascivas, ele se identificou com o destino da rainha deposta, cheio de compaixão pelas humilhações por ela sofridas.
O embate mais trágico desse embate impossível entre o universo sadiano e a realidade da aventura revolucionária produz-se na hora da descristianização. Proferindo um ateísmo radical, Sade, usando um gorro vermelho, celebra o acontecimento: “E como a tirania não apoiaria a superstição? Ambas alimentadas no mesmo berço, ambas filhas do fanatismo, ambas servidas por estas criaturas inúteis chamadas padre no templo e monarca no trono, deviam ambas ter as mesmas bases e ser protegidas”. (43)
Menos de uma semana depois dessa imprecação contra as “sagradas ninharias”, Robespierre põe fim à campanha anticristã: “Aquele que impedir a missa”, disse ele, “é mais fanático que aquele que a oficia. Há homens que querem ir mais longe, que sob o pretexto de destruir a superstição querem transformar o próprio ateísmo numa espécie de religião… Se Deus não existisse teríamos de inventá-lo”. (44)
Condenado sob o Ancien Regime por crimes – sodomia e blasfêmia – que haviam sido abolidos pela nova Constituição, Sade foi condenado à prisão por ateísmo e moderantismo, depois encarcerado numa ex-casa de tolerância. Durante três semanas, na falta de lugar, dormiu nas latrinas. O mau cheiro lhe era insuportável. E, não obstante, em seus escritos e em sua vida pregressa, Sade havia sido o iniciador e um propagandista de um verdadeiro culto do poder olfativo dos excrementos. Nesse aspecto, aliás, embora se pretendesse servo do Iluminismo, permanecia apegado àquele universo arcaico do fedor que tanto fascinava os libertinos e arrepiava a burguesia, (45) desejosa de instituir os princípios de um novo higienismo. De toda forma, pela maneira como ritualizara ao extremo práticas de defecação e ingestão de toaletes, soubera encenar, na língua do Iluminismo, a face mais negra de uma pedagogia do lixo e da imundície, cujos vestígios encontraremos tanto no discurso dos sexólogos quanto dos adeptos do nazismo.
Foi enfim em razão de seu ateísmo, e porque era suspeito de ser autor de Justine, que Sade foi condenado à morte em 1794, não sem haver tentado inutilmente reafirmar sua fidelidade à nação. Todavia, conseguiu ser albergado em Maison Coignard, em meio aos loucos e ricos aristocratas que, mediante dinheiro, encontravam ali um refúgio para escapar à guilhotina.Todas as noites, por ordem da convenção, guardas despejavam nos jardins dessa casa os corpos ensangüentados dos que não haviam conseguido escapar à decapitação. Em vez de se deliciar com esse espetáculo, Sade ficou horrorizado. A queda de Robespierre permitiu-lhe voltar à liberdade.
Contudo, nenhum regime poderia tolerar a presença de tal homem no seio da sociedade civil. E, como seus atos continuavam a escapar ao alcance da Lei, foi preciso detectar não somente no homem Sade, mas também em sua obra, o vício que o permitisse confiná-lo sob a acusação de ser louco. Não haviam encontrado em seu quarto “um instrumento enorme, que ele fabricara com cera e do qual ele próprio se servia, de maneira que o instrumento conservava vestígios de sua introdução culpada?” (46) Como não ver que aquele objeto devia ser posto em relação com o universo romanesco de Justine, “produção monstruosa, coleção horrível de crueldades inverossímeis?” (47) Não precisava tanto para um veredicto, não de blasfêmia, devassidão, sodomia ou masturbação – que lembremos, não eram mais considerados crimes -, mas de “demência libertina”.
Em 1803 teve início então o longo périplo que levaria Sade, um ano mais tarde e pelo resto da vida, (48 ) ao asilo de Charenton.
Nessa data começava um terrível batalha em torno da definição da loucura e de sua possível cura, a qual viria a opor, durante todo o século, juristas e psiquiatras – somada, no cerne do processo de medicalização das grandes paixões humanas que se esboçava, à questão de saber o que aconteceria com a natureza da perversão num mundo em que os perversos, tratados como doentes, não pudessem mais desafiar a Deus, tendo como horizonte apenas o recurso à ciência.
É perfeitamente compreensível a preocupação da burguesia em consolidar seu poder sob o Império relegando Sade entre os loucos a fim de reduzir sua obra ao silêncio. Mas isso em absoluto nos exime do debate sobre o homem Sade: seria um alienado, mesmo gozando claramente de todas as suas faculdades mentais?
Diretor do asilo, ex-montagnard (49) e ex-padre, François Simonet de Coulmier era um dos artífices da nova psiquiatria pineliana, baseada no tratamento moral e na humanização dos loucos.(50) Desde sua nomeação em 1797 como auxiliar do médico chefe Jean-Baptiste Joseph Gastaldy, que partilhava suas orientações, empenhava toda sua energia em reformar as condições de internação dos doentes, privilegiando as atividades do espírito em detrimento das intrusões corporais: dietas, sangrias, laxantes.
Intimado pelo ministro de sua área a impor uma rigorosa vigilância a Sade, concedeu a seu ilustre hóspede, ao contrário, meios de viver corretamente, de escrever e dedicar-se a sua paixão pelo teatro. Mais que isso, autorizou-o a ter Constance a seu lado. Dessa forma, negou-se a classificar Sade na categoria dos alienados, ao mesmo tempo em que o incitava a se tornar por sua vez instigador de uma teatralização de suas próprias pulsões. Provavelmente tinha consciência do estado mental em que se achava o marquês, convencido de ser vítima de uma grande perseguição. Mas julgava preferível mobilizar seus talentos em prol da comunidade asilar em vez de fazer dele, na vida cotidiana, o equivalente do que ele persistia em ameaçar tornando-se: um Dolmancé ou um Bressac.
Aprovado com louvor na arte da clivagem, transformado em ator mártir, em diretor teatral e em enfermeiro, Sade não se parecia em nada com os personagens de seus romances. Da mesma forma, continuava a negar ser o autor dos textos licenciosos, cuja redação não obstante empreendia, apesar das incessantes averiguações policiais de que era objeto. E, à medida que renegava a paternidade de suas outras obras, julgadas infames – sobretudo a saga de Justine e Juliette – (51) apresentava-se como o dramaturgo mais virtuoso de seu tempo, escrevendo diversos espetáculos encenados no hospício por loucos e atores.
Sade atraía multidões para e contra si, desempenhando alternadamente, em seu foro íntimo e em sua dança com os loucos, o papel de Juliette e o de Justine. Do fundo de sua reclusão, parodiava a nova ordem do mundo, dividido entre uma aspiração aos prazeres e a vontade de normalizar os infames, os perversos e os anormais. E era essa a razão pela qual os representantes da ciência médica burguesa desconfiavam da influência nefasta que aquele predador de uma outra época ainda corria o risco de exercer sobre a sociedade de sua época: “A libertinagem do homem pode se saciar com os internos, o problema é suas idéias poderem corrompê-los moralmente”.(52)
O sucesso obtido por Sade com seu teatro dos loucos não podia, portanto, senão desagradar a todos os que o consideravam acima de tudo um criminoso. E foi este o motivo pelo qual, ao suceder Castaldy em 1805, Antoine Royer-Collard quis imediatamente dar cabo daquela experiência. Ex-partidário dos Bourbon, esse médico medíocre via Sade como um irrecuperável pervertedor.
Seu lugar não é no hospital, mas num presídio ou numa fortaleza. Sua loucura é perverter. A sociedade não deve ter esperanças de tratá-lo, deve submetê-lo à mais severa confinação. A liberdade de que ele goza em Charenton é demasiado grande. Pode comunicar-se com um número bastante grande de pessoas dos dois sexos… Prega sua horrível doutrina a alguns; empresta seus livros a outros.(53)
A estocada foi dada pelos próprios doentes, que, sem nenhum tipo de recurso, recusaram os benefícios terapêuticos daquela experiência teatral. Desacreditado pelos alienados, Sade permaneceu em Charenton e teve um último caso com a filha de uma enfermeira a quem ele iniciou na sodomia, ao mesmo tempo em que lhe ensinava a ler e a escrever. Após sua morte, o médico do hospício, adepto de teorias frenológicas de Franz Josef Gall, (54) afirmou que o crânio de Sade era em todos os aspectos semelhantes a de um padre da Igreja. Mas essa tese foi em seguida refutada pelo principal discípulo austríaco de Gall, que explicou, ao contrário, que a organização cerebral do marquês atestava seus vícios, sua depravação e seu ódio…(55)
Que a loucura de Sade tenha sido uma “loucura de perverter”, isso não deixa mais dúvida. Porém, ao pronunciar esse diagnóstico, Royer-Collard fazia de Sade um caso de um novo gênero. Se o marquês não era um alienado de verdade, e se devia ser aprisionado numa fortaleza ao invés de tratado num hospício, por que não falar de loucura? Percebemos aqui o problema que um caso desses colocava para a psiquiatria nascente: ou Sade era um alienado e devia ser tratado como os outros alienados, ou era um criminoso e devia ir para a prisão, ou não passava de um gênio do mal, autor de uma obra de uma transgressão inaudita, e era preciso deixá-lo livre para escrever e agir como lhe aprouvesse, o que era naturalmente política e moralmente impossível a despeito das novas leis de 1810.
Logo, é efetivamente porque não era nem louco, nem criminoso, nem palatável pela sociedade que Sade foi considerado um “caso” de novo gênero, isto é, um perverso – louco moral, semilouco, louco lúcido -, segundo a nova terminologia psiquiátrica. “Era inquestionavelmente um homem perverso teoricamente, mas em suma não era louco”, dirá o ex-membro da Convenção Marc Antoine Baudot.
Convinha julgá-lo por suas obras. Havia nelas enorme depravação, mas não de loucura; um trabalho desse tipo supunha um cérebro bem organizado, e a própria composição de seus livros exigia muita pesquisa sobre literatura antiga e moderna, tendo como objetivo demonstrar que as maiores depravações haviam sido autorizadas pelos gregos e romanos. (56)
A partir do primeiro quartel do século XIX, o nome de Sade repercutiu como um paradigma no cerne mesmo da definição de perversão; tanto de sua estrutura quanto de suas manifestações sexuais; uma definição que reportava o sujeito à finitude de um corpo fadado à morte e ao imaginário de uma psique emoldurada pelo real do gozo.
O que, a propósito, é atestado pela criação do neologismo “sadismo” em 1838. A palavra servirá de conceito primordial para os sexólogos, que lhe irão justapor uma outra, “masoquismo” – antes de Freud, sem ter lido a obra de Sade, (57) atribuir a esse binômio uma dimensão pulsional de caráter universal, bem além de qualquer referência a uma prática simples sexual: gozar com o sofrimento que nos inflingimos inflingindo-o ao outro e recebendo-o do outro. Quanto a Gilles Deleuze, grande leitor de Sade, cindirá os dois termos reunidos por Freud para fazer do masoquismo um mundo à parte, escapando a toda simbolização, um mundo repleto de horrores, castigos e contratos firmados entre carrascos e vítimas. (58 )
Mas como não ver que esse mundo de Sacher-Masoch já estava presente na literatura sadiana, com uma força transgressiva muito maior?
Transformado em substantivo injurioso, o nome maldito de Sade igualmente serviria, ao longo de todo século XIX, de referência para um princípio de estigmatização obscena da própria identidade do inimigo: inimigo de si, do outro, da nação. Assim, quando Barras, o mais corrupto dos homens de seu tempo, quis achincalhar a gloriosa imagem de um Napoleão heróico, chamou-o de “Sade da guerra e da política”. (59)
Impedido pela lei de se tornar um criminoso – e incessantemente atirado à prisão pelos diferentes poderes que então se sucederam -, Sade escreveu portanto uma obra inclassificável. Se não tivesse passado na prisão um terço de sua vida, provavelmente teria cumprido o itinerário de um sodomita, estuprador de prostitutas, sedutor de adolescentes, carrasco de outros e vítima de si mesmo. Assim, podemos sugeris que só pôde criar a obra mais indefinível de toda história da literatura – “inconvencional primordial”, “Evangelho do mal”, “monólito abissal”, “subversão da divisão entre vício e virtude” – (60) porque se confrontou em vida com três regimes políticos, da Monarquia ao Império, que fizeram dele e dessa obra a parte mais obscura do que eles próprios estavam em vias de realizar.
Portanto, é compreensível que Sade tenha sido visto pela posteridade ora como um precursor da sexologia, ora como um herdeiro do satanismo ou da tradição mística – o “divino marquês” – ora, finalmente, como ancestral da abjeção nazista. Encarnação de todas as figuras possíveis de perversão, ele nunca cessará, após ter desafiado os reis, insultado a Deus e invertido a Lei, de ameaçar, a título póstumo e de maneira espectral, todos os representantes da biocracia em sua vã pretensão de querer domesticar o gozo do mal.
Notas de rodapé:
(31) É a Maurice Lever que devemos a primeira biografia de Sade – a única até o dia de hoje – que permite relacionar a sua vida e a gênese da obra.
(32) Maurice Lever, Sade, op.cit,. p.121.
(33) Sade nunca cometeu crime nem envenenamento.
(34) Segundo as palavras de maurice Blanchot, L´Inconvenance majeure, Paris, Pauvert, Col. Libertés, 1965.
(35) Roland Barthes, Sade, Fourier ; Loyola, op.cit., p. 820.
(36) Sob o pseudônimo de Eugène Duehren.
(37) Trata-se do único manuscrito conhecido de Sade. Durante o saque da fortaleza de Bastilha, Arnoux de Saint-Maximin descobriu o rolo, que foi em seguida transmitido a família Vilheneuve-Trans antes de ser entregue a Iwan Bloch (1872-1922), que o publicou em francês, de maneira incompleta. Mais tarde foi Mauruce Heine (1884-1940) que o arrematou em nome do visconde Charles de Noailles (1891-1981) e o editou em três volumes por assinatura. Jean Jacques Pauvert o reproduziu, o que lhe valeu um processo (1955-56). O manuscrito encontra-se hoje na fundação Martin-Bodmer, em Genebra.
(38 ) Decreto da Assembléia Nacional de 13 de março.
(39) Sade, Justine ou Lês malheurs de la vertu, La nouvelle Justine ou Lês malheurs de la vertu, seguido por Histoire de Juliette ou Lês prospérités du vice, op.cit.
(40) Seção : divisão territorial e administrativa de paris, que fora reorganizada em 48 seções ou distritos por um decreto de 21 de junho de 1970. (N.T.)
(41) Ci-devant: ex-nobre que teve os privilégios abolidos pela Revolução (N.T.)
(42) Sade, “Carata de 5 de dezembro de 1791″, citada por Georges Bataille, La littérature et le mal, op.cit., p.85.
(43) Maurice Lever, Sade, op.cit,. p.510.
(44) Discurso à Convenção, 21 de novembro de 1793, citado ibid, p. 511.
(45) Cf. Alain Corbin, Lê miasme et la jonquille: l´odorat et l´imaginaire social XVIII-XIX siecle, Paris, Aubier, 1982. É a Patrick Suskind que devemos, sob a forma de um romance, O Perfume, a análise mais sutil das metamorfoses do poder olfativo no século XVIII, incessantemente marcadas pela alternância entre os fedores da antiga nobreza e a aspiração burguesa de um novo higienismo. O autor retraça o itinerário de um personagem de ficção, Jean-Baptiste Grenouille, que ele compara a Sade e a Marat e a quem atribui todas as características do criminoso mais perverso. Nascido num repugnante beco parisiense, de uma mãe que limpava peixes constantemente, Jean-Baptiste é descrito como ma espécie de monstro sem afeto nem consciência, mas dotado de um olfato fabuloso que lhe permitirá tornar-se o maior perfumista de seu tempo, passando assim da pior das abjeções ao mais elevado grau de civilização. Mas esse êxito não o impede de por seu talento a serviço de sua pulsão destruidora. Após ter provocado a morte de todos com quem se depara, procura extrair, para dela fazer o perfume mais sublime, a própria essência do corpo humano. E, para tanto, comete, sem a menor culpa e em nome da ciência dos aromas, os crimes mais atrozes. Morrerá, vítima de si mesmo, devorado cru por um bando de rufiões e putas, em meio ao fedor cadavérico do cemitério dos Inocentes. Cf. Patrick Suskind, O Perfume (Zurique, 1985), Rio de janeiro, Record, 2006.
(46) Relatório policial, citado por Maurice Lever, Sade, op.cit,. p.593.
(47) Citado por Michel Delon, in Sade, (Euvres, vol.1, op.cit., p.xxxv)
(48 ) Antes, ele passara uma temporada em Bicêtre: “A loucura e a sífilis juntaram-se ali à miséria e ao crime. Idosos, enfermos, epiléticos, sarnentos, retardados mentais, venéreos, mendigos, vagabundos, amontoavam-se misturados a ladrões, rufiões, trapaceiros, etc.” (cf. Maurice Lever, Sade, op.cit,. p.594).
(49) Montagnard: membro do partido formado, sob a Convenção Nacional, por um certo número de deputados que se sentavam nos degraus mais elevados e à esquerda da Assembléia, a Montanha (N.T.).
(50) Philippe Pinel, Valentin Magnan e Étienne Esquirol foram os grandes protagonistas desse debate. Philippe Pinel(1745-1826) fundador francês da psiquiatria, médico-chefe do hospital de Bicêtre, depois do hospital de Salpêtrière. Jean-Étienne Dominique Esquirol (1772-1840): aluno de Pinel, teórico das monomanias e idealizador do hospício moderno. Valentin Magnan (1835-1916): psiqueiatra francês adepto do modelo da degenerescência; será ele que virá impor o uso da expressão “perversões sexuais” em lugar de “aberrações” ou “anomalias”. Cf. o capítulo 3 do presente volume.
(51) Para provar efetivamente que não era o autor dessa saga, ele publicara sob seu nome, em 1800, uma coletânea de novelas, Os crimes do amor, na qual acumulava descrições de assassinatos, incestos e perversões, ao mesmo tempo em que denunciava a indignidade dos autores de tais crimes. Maneira de inverter a inversão da Lei, presente nos grandes romances anônimos, e não de fazer o vício ser detestado. Cf. Sade, Os crimes do amor, Porto Alegre, L&PM, 2000.
(52) Michel Delion, in Sade, (Euvres, vol.1, op.cit., p.xxxix)
(53) Ibid., p.xxxviii.
(54) Franz Josef Gall (1758-1828): médico austríaco, especialista em anatomia cerebral e inventor da cranioscopia (rebatizada como frenologia), que pretendia decifrar o caráter de um indivíduo a partir do exame das saliências e depressões de sua calota craniana.
(55) Cf. Maurice Levar, Sade, op.cit,. p.659. Um molde do crânio de Sade encontra-se no museu do Homem, em Paris.
(56) Marc Antoine Baudot, Notes historiques sur la Convention nacionale, le Directoire. L´Empire et l´exil des votants, Paris, 1893, p. 64.
(57) O catálogo da biblioteca do Freud Museum de Londres indica que Freud se interessava apenas pelo sadismo, tendo lido uma única biografia de Sade, a de Albert Eulenburg, publicada em 1901. Não possuía nenhuma das obras do marquês.
(58 ) Gilles Deleuze, Apresentação de Sacher-Masoch, com o texto integral de A Vênus em peles, op.cit.
(59) Após ter lido Justine, Napoleão assinou a contragosto, em 1810, o decreto que mantinha Sade recluso em Charenton. Cf. Maurice Levar, Sade, op.cit,. p.634-6. O nome de Marat teve um destino equivalente. Ele foi, para seus detratores, o emblema dos vícios da nação antes de servir para estigmatizar o judeu nos discursos anti-semitas oriundos de La France juive, de Èdouard Drumont. Cf. Elisabeth Roudinesco e Henry Rousso, “Lê juif Marat: antisèmitisme et contre-Révolution (1886-1994)”, L´Infini 27, 1989.
(60) Maurice Blanchot, L´Inconvenance majeure, op.cit. Annie Le Brun, Soudain un bloc d´abîme, Sade, Paris, Pauvert, 1986. Philippe Sollers, « Sade dans le texte », in Logiques, Paris, Seuil, 1968.