«Poderiam perguntar-me se estou convencido, e até que ponto o estou, da legitimidade das idéias que desenvolvi. Responderia dizendo que nem eu mesmo me acho convencido, nem prego aos outros o dever de acreditá-lo; ou melhor, eu mesmo não sei até que ponto acredito nas opiniões que emiti» (Sigmund Freud)
A frase acima é tudo de perfeita. Não é à toa que eu gosto desse cara.
Hoje lia por aí sobre as eternas discussões entre “ser” submissa ou “estar” submissa. Ou ainda, ter o “dom” de ser sadomasoquista (como se fosse uma coisa meio que dádiva dos deuses, saca?). Ou pior, mais trash ainda, ter “nascido sadomasoquista”. Como se a estrutura psíquica fosse uma instância única e exclusivamente biológica e pudesse ser codificada e decodificada no nosso DNA e RNA.
Estas discussões me cansam. Coisa de gente que não lê ou se lê não interpreta. Sim hoje eu estou no auge de minha arrogância acadêmica.
Eu sou sadomasoquista.
Eu sou submissa.
Não uso o verbo “estar”, porque sendo o sadomasoquismo a minha linguagem sexual, e verbo fica inadequado. Eu não tenho nenhum “dom”, não fui agraciada com uma dádiva especial que diz: “você irá sentir prazer com a dor que lhe é impingida, oh mulher!”. Da mesma forma, não sou submissa desde a fusão do óvulo de minha mãe com o espermatozóide de meu pai. Não nasci submissa. Não está no meu código genético.
Durante alguns anos eu busquei explicações para o meu ser submissa, na clínica. A clínica psicanalítica é muito interessante. Freud afirma que a perversão (sadomasoquismo é uma perversão, sinto muito pra quem não gosta dessa verdade clínica) é de certa forma natural ao ser humano.
Clinicamente a perversão é uma estrutura psíquica (entendendo como estrutura psíquica o modo de arranjo energético do sujeito e de suas funções.) : ninguém nasce perverso, torna-se ao herdar, de uma história singular e coletiva em que se misturam educação, identificações inconscientes, traumas diversos. Tudo depende em seguida do que o sujeito faz da perversão que carrega em si: rebelião, superação, sublimação – ou, ao contrário, crime, autodestruição e outros.
Não é simples?
A perversão, como estrutura psíquica, está integrada à ordem do desejo. Vejam, se Freud estiver certo e a disposição à perversão for uma característica que todo sujeito carrega em si potencialmente, não há “dom”, não há “estar” e não há código genético envolvido! Fácil. Quem for capaz de compreender, compreenda.
Aprendizado primário e secundário, sim, coisa simples. Mas campo algum do conhecimento humano propôs bases sólidas para explicar todos os porquês da diferenciação da individualidade sob situações quase idênticas de aprendizado e socialização – aí mora o “X” da questão. Em minha visão parte disso provém do cientificismo utilizado no estudo da sociedade e homem como indivíduo (motivo pelo qual defendo alguns campos do conhecimento – dentre eles a Antropologia – quererem a desvinculação com a ciência em seus métodos e pesquisa “per se”).
Não há como fundamentar toda uma forma de se pensar em argumentos simples, visto que culturas de todo o globo procuraram e procuram encontrar como definir o homem e sua existência (e até hoje sem sucesso pleno, apenas proposições que soam lógicas). Fazê-lo seria desmerecer a estrutura de análise que muitos buscam.
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Em suma: defendo o ponto que critica em seu texto, a questão de que é necessário ter “alma” para BDSM. Mas minha idéia vai além da proposição cristã (animista eu sou), e além da percepção de simples criação (o que concordo que exerce influência, mas para mim é parte mínima da questão).
Comentário por monjh — Agosto 18, 2008 @ 10:31 pm |
Um adendo que esqueci de colocar: não é raro (aliás, já notei que é mais comum do que parece) Top/bottom ter, na família, pessoas com “veia BDSM” (i.e., que até adotam certas práticas do meio embora não estejam diretamente vinculadas a este estilo de vida). Notei isso ao perguntar sobre a família de algumas pessoas (e, quando conheci a família da pessoa, a observar as pessoas e a postura destas nas convenções sociais).
Comentário por monjh — Agosto 18, 2008 @ 10:34 pm |
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Senhor Monjh:
Devo compreender em sua afirmação Sr: “é necessário ter “alma” para BDSM” como: é necessário ter aptidão para BDSM. Foi isto que quis dizer?
Não gosto da afirmação por diversos motivos.
Concordo quando afirma que na busca de compreender o homem “Não há como fundamentar toda uma forma de se pensar em argumentos simples, visto que culturas de todo o globo procuraram e procuram encontrar como definir o homem e sua existência” e essa procura perpassa campos da biologia (da etologia à genética), da antropologia, da psicologia, da sociologia, da filosofia e outros ramos do conhecimento (uns mais e outros menos reconhecidos como ciência).
Qdo usa a expressão “veia para BDSM” no adendo à postagem, mais uma vez me dá a impressão que afirma que há uma aptidão ou característica inata transmitida de geração em geração… algo como uma herança genética.
Veja, eu sou bióloga, neodarwinista e como “cientista” minhas grandes questões seriam:
Existem fatores hereditários que participam na expressão do comportamento BDSM?
Como provar a existência desses fatores genéticos de características comportamentais BDSM? Como quantificar esses fatores ?
Qual o mecanismo de herança das características do comportamento BDSM?
Qual a participação dos fatores ambientais ?
Com base nos estudos atuais, quais as bases genéticas da inteligência, da agressividade, do alcoolismo; e dos distúrbios mentais e como trasnspor isso para o BDSM?
Ou ainda Sr Monjh eu poderia questionar de modo mais geral:
1. Haverá um componente genético no comportamento humano ?
2. Quais componentes do comportamento são herdados?
3. Como os genes organizam o comportamento?
E acredite Sr Monjh que no que tange à biologia, há muita pesquisa acadêmica tentando responder a estas 3 questões gerais que coloquei acima. Mas não há uma resposta única e amplamente aceita pela comunidade científica.
Diz a biologia que quando analisamos vários aspectos do comportamento humano devemos considerar a existência de um conjunto de genes atuando de forma aditiva (poligenes) que predispõem um indivíduo a ter determinado padrão comportamental, não podemos esquecer o papel fundamental do ambiente, cujos fatores vão interagir na expressão da característica comportamental (multifatorial). Ou seja, se a biologia estiver correta (e a biologia é apenas um dos muitos viéses explicativos possíveis) não há um fator genético que atue sozinho, ou mesmo um gene único que determine um comportamento, o que há são poligenes e multifatores.
Particularmente eu prefiro a explicação psicanalítica para meu comportamento de mulher submissa – minha predileção pela submissão erótica – (que não é uma explicação simples nem simplista), porque a visão psicanalitica na minha perspectiva, engloba o biológico, o sociológico, o antropológico e o psicológico.
Diz a literatura que jovens criados juntos desde pequenos raramente sentem atração sexual entre si, mesmo não sendo aparentados. A aversão pelo incesto firma-se durante o desenvolvimento mental por influência cultural (ah o tabu do incesto, Freud fala muito dele em Totem e Tabu), quem sabe apoiado em um viés genético?
Ficam as multiplas questões e perspectivas…
Muito obrigada, Senhor Monjh por trazer novos subsídios para esta discussão.
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Comentário por rose — Agosto 18, 2008 @ 11:05 pm |
A “veia” que afirmei não se baseia no campo da bilogia [embora eu tenha citado que conheço muitas pessoas que "ter, na família, pessoas com 'veia BDSM' (i.e., que até adotam certas práticas do meio embora não estejam diretamente vinculadas a este estilo de vida)", meu argumento se fundamentou em outros pontos, este foi somente algo que observei], apenas o perpassa. Como disse, considero parte do erro o cientificismo que vivemos hoje em dia e como o colocamos como forte ponto de apoio em nossas proposições. Por isso defendo outras formas de análise (que falei no texto – recomendo estudo das proposições acerca do Existencialismo e Antropologia Social), assim como novas formas de se ver a questão.
Ainda, entramos em outros ponto: Como dizer de uma questão comportamental e existencial do ser humanos sem entrar no que tange religião (digo da teosofia em específico)? Não digo da afirmação pela afirmação, mas sim da exposição daquilo que permeia a crença de muitos e a discussão disto pela mesma. Entendo que baseia seu ponto fora desta questão, mas evidencio o ponto justamente pela maneira que o assunto influencia a visão e modo de vida do ser humano.
Ainda, voltando: Não vejo como estudar com força suficiente este assunto sob a óptica científica, justamente pelos vícios que vejo carregando em muitas das ciências humanas. Mais de uma vez tentei buscar fontes para este estudo, e sempre me deparei com este muro de (além da ciência) positivismo que permeia o pensamento brasileiro e suas “situações ideias de análise para pesquisa”. Não consigo conceber como certo, apenas uma forma de tratar a questão que me soa puxada demais para a ciência.
freud teve grande influência, sim, mas em sua época. Em muitas questões prefiro Jung (tal qual não nego a força da teoria Marxista, mas nem por isso considero a teoria a “melhor” ou coisa e tal).
Comentário por monjh — Agosto 18, 2008 @ 11:35 pm |
Olá!!!
Sempre estou por aqui quietinha te lendo, por isso indiquei seu blog para o selo MEME – Me amarro neste blog!!!
Dá uma olhadinha e adquira seu selo.
http://amomeudono.blogbdsm.net/
Beijos com carinho
Vanessa {DL}
Comentário por Vanessa {DL} — Agosto 19, 2008 @ 1:15 am |
rose!
Eu não sou maso, não aglutino ser submissa a ser maso.
Porém eu concordo com vc! EU SOU O QUE SOU.
E tb concordo, da uma canseira certas bate letras, chamar ou não o dom de Sr, submissa não pensa, sub que pensa tem de ser rebelde e bla..bla..bla…
O debate do eu/você em contrapartida de práticas e evolução.
Mesmo estando vc em dia de arrogância acadêmica, consegue ser serena o suficiente para mostrar o outro lado, a outra visão. Consegue mostrar mais um caminho a se pensar.
*sei lá sabe cara, acho que tem gente que não gosta de ter muitos fios de idéias, dá um cansaço danado isto de ficar pensando*
Cara de lambisgoia aqui rsrsrsrsrs
Comentário por Anônimo — Agosto 19, 2008 @ 2:58 pm |
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Sr Monjh… rindo um monte aqui, viu minha mania de defesa/ ataque cientificista? (existe essa palavra?) Vou pensar mais sobre o que escreveu e depois comento ok? Em tempo: nunca li Jung
Prezado Anônimo(a) (é a primeira vez que recebo um comentário completamente anônimo!! Uia, coisa nova) hoje eu conversei com um amigo muito querido, o Dragomir, o mesmo que gentilmente traduz os textos do site Submissive Women Speak, e ele me disse uma coisa na qual acredito e irei trazer para cá a fala dele ok?
Disse Sr Dragomir Boutli: “só tem mesmo vantagem a gente ser diferente quando a gente está de bem com o mundo convencional, enquanto você não resolver e pacificar, com a aceitação da tua diferença você não vai ser plenamente feliz na tua diferença é o que essas pessoas têm de aprender. Afinal, qual seria a graça de ser diferente, se a gente se acha infeliz porque o resto do mundo é diferente da gente? Eu fico feliz de ter dentro de mim algo que um infinitésimo apenas da população tem e é capaz de entender e, mais importante ainda, de sentir isso é o que me faz feliz”
Eu concordo em gênero, número e grau com o meu amigo Sr Dragomir.
Eu me aceito como eu sou.
Eu sou o que eu sou. Independente das possíveis explicações “cientificas” ou não.
Eu sou sadomasoquista. Eu sou submissa. Eu sinto isso dentro de mim e assumo. Eu sou feliz assim. Dói? Faz parte do ser feliz, essa dor
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Comentário por rose — Agosto 19, 2008 @ 3:28 pm |