Pensamento Submisso

Agosto 19, 2008

Quem tem medo da troca de poder?* por Polly Peachum e Jon Jacobs

Arquivado em: BDSM, Entrega, Masoquismo, Relação D/s, Sadomasoquismo, TPE — rose @ 2:41 pm

Questões básicas recorrentes sobre a vida real em um relacionamento positivo baseado na troca de poder, na forma de resposta a uma pergunta feita por uma submissa preocupada com seu futuro como pessoa em um relacionamento nesse estilo 

Trad. Dragomir Boutli

*Título e subtítulo dados pelo tradutor

 

Ao ler “Violence in the Garden” fiquei mexida até o mais profundo de mim. Eu tenho fantasias de submissão desde sempre. Também fico excitada pela ficção erótica com conteúdo submisso e dominante, mas vivenciar na realidade a vida que a Polly descreve despertou toda a emoção que eu posso suportar de uma só vez. Eu estava em um relacionamento que estava começando a ir em uma direção que me fazia mais submissa (infelizmente com um homem de mau temperamento), mas isso me assustou, me deixando desafiadora e teimosa. Polly, como pode você se manter centrada em um relacionamento como esse? Se Jon é que define quem você é, quando você tem sentimentos, idéias e quer empreender ações que não são aprovadas por ele, o que você faz? Eu estou com medo de ter de parar de sentir, de ter inclusive de deixar de tentar ser quem eu sou.

Eu não acho que eu poderia ir tão fundo quanto você neste relacionamento, mas eu estou em um estado de perplexidade em relação aos intensos sentimentos eróticos que a submissão e dominação sempre despertaram em mim.

Gostaria muito de ter uma resposta de tua parte.

 

Kat

 

 

RESPOSTA DE JON E POLLY:

 

Estamos contentes que “Violence in the Garden” tenha tido um profundo efeito em você. Muitas pessoas têm reagido desta maneira e por razões similares às tuas. Muitas delas também têm experimentado relacionamentos que se movimentaram no sentido da troca de poder, mas com um homem como o que você descreve, que é incompetente para controlar a si mesmo, pra não falar de outros. Nós concluímos que esse estado desafiador e de teimosia já existiam antes do relacionamento que você descreve, e queremos te assegurar que ser desafiadora e teimosa não impossibilitam que você venha a ter sucesso em um relacionamento de troca de poder. Polly é ambos, de carteirinha.

Tuas perguntas são boas não tanto pela dificuldade que trazem, mas pelo fato de que são aquelas que são feitas com muita freqüência. Elas são baseadas num mal-entendido a respeito de relacionamentos de troca de poder: que a parte submissa se perde nesses relacionamentos, que são despidos de suas personalidades, que são de algum modo como uma extensão da personalidade de seu dominante. Na realidade, nada poderia estar mais longe da verdade.

Você pergunta: como pode você se manter centrada? Uma das muitas vantagens de um relacionamento de troca de poder bem sucedido para a submissa é que ela é encorajada e usualmente até mesmo forçada a manter-se centrada. Um dos mais importantes méritos da maioria dos dominadores é ver sua parceira submissa desenvolvendo seus próprios interesses, entusiasmos e talentos, tanto quanto eles possam ser desenvolvidos. Não que a realidade de tal relacionamento – especialmente a exposição da submissa às idéias e às coisas pelas quais o dominante nutre entusiasmo – não traga freqüentemente mudanças na visão e nos interesses da submissa; isso acontece em todos os relacionamentos íntimos em um ou outro nível (e flui em ambas as direções: a estranha fascinação da Polly por concursos de beleza na televisão transferiu-se para o Jon, enquanto o amor sanguinário de Jon pelo boxe é agora compartilhado pela Polly). Nem se precisa dizer que parceiros submissos são geralmente forçados a perseguir seus interesses e as coisas pelas quais nutrem entusiasmo muito além do que eles naturalmente fariam. A questão fundamental aqui é que um genuíno dominador, que ama sua parceira, quer que ela cresça e que expanda todas as suas habilidades e interesses, assim como, através do processo de cura que é sempre um subproduto de um bom relacionamento de troca de poder, expanda também seu poder de recuperação emocional.

Você pergunta: “Se Jon é quem define quem você é, quando você tem sentimentos, idéias e quer empreender ações que não são aprovadas por ele, o que você faz?” Isso pode funcionar um tanto diferente de um relacionamento para outro, mas em nosso relacionamento a coisa funciona segundo um princípio simples, ainda que seja um princípio que não é sempre simples de ser aplicado: se a Polly quer fazer algo que Jon não quer que ela faça, Jon tenta ver porque a Polly quer fazê-lo. Já que Jon quer que Polly faça tanto do que ela gostaria de fazer quanto possível, se aquilo que ele acaba sabendo sobre as razões da Polly fazem sentido para ele e se ele não sente que aquilo que ela quer fazer é auto-destrutivo ou de alguma maneira muito negativo, ele a deixa fazê-lo. Se, após ter tentado entender ao máximo suas razões para querer empreender aquela ação, ele ainda se opõe a ela, Polly não o faz (ainda que nem sempre sem uma conseqüente discussão e resistência). Ainda que seja verdade que, quando as discordâncias não podem ser resolvidas, a Polly pode se sentir frustrada às vezes por não poder fazer o que quer, essa ocorrência é relativamente rara e, quando isso ocorre, Polly às vezes simplesmente aceita a decisão, às vezes fica de mau-humor ou infeliz, às vezes tenta discutir indefinidamente – isto pode variar com seu humor, com a importância da questão e até mesmo com o período do mês. Por fim, se ela não pode mudar a opinião do Jon, ela simplesmente aceita a decisão e que isso não a faz sempre feliz ou mesmo satisfeita. Ao longo do tempo, claro, essas situações, mesmo desconfortáveis, ajudam-na em sua consciência de ser controlada, que é algo que ela adora.

Quando você se refere acima a “sentimentos e idéias”, nós concluímos que você pensa em sentimentos e idéias que levam a ações que Jon não aprova, mas elas levantam uma outra importante questão sobre a qual você pode não ter pensado. Muitas pessoas que nunca se envolveram em relações de troca de poder – incluindo a grande maioria dos homens que figuram nas paradas da Internet como dominadores e que não são – trabalham com a absurda concepção que submissas em relacionamentos de troca de poder não têm “permissão” para expressar sentimentos ou idéias que sejam desconfortáveis para seus parceiros dominantes, que os desafiam de algum importante modo, ou que “complica” suas vidas. Qualquer autoproclamado “dominador” que acredita em tal coisa ou qualquer submissa envolvida com tal “dominador” tem de contar com uma grande (má) surpresa súbita. Um dos méritos fundamentais de um relacionamento de troca de poder para o parceiro submisso – um mérito que precisa estar lá na realidade se é que o relacionamento tem de funcionar – é que o dominador cria em torno dela uma ilha de segurança emocional, um lugar onde ela é ao mesmo tempo encorajada e exigida a expressar seus mais profundos sentimentos, não importa quão problemáticos eles sejam para ela ou para o seu dominador, sem qualquer medo de punição de qualquer tipo, física ou emocional. Este conceito não é de ordem simplesmente ideológica; ele é verdadeiro porque, a não ser que a submissa se sinta absolutamente livre para se expressar clara e livremente e sem qualquer medo de vingança de qualquer tipo, ela vai ser impossibilitada de ser totalmente honesta e aberta com seu parceiro, o que vai acarretar que ele vai perder a informação da qual necessita para que possa controlá-la e assim garantir o sucesso do relacionamento; a não ser que a base de confiança na qual ele se sustenta comece a ser estabelecida desde o início do relacionamento, esse relacionamento vai certamente dar errado.

Você diz: “Eu estou com medo de ter de parar de sentir, de ter inclusive de deixar de tentar ser quem eu sou”. Por que? Existe algo de errado com quem você é? Sua personalidade precisa ser expurgada? Se você acha que sim, você precisa de terapia e não de dominação. Você quer dizer que você iria parar de ser quem você é porque seu dominador iria desencorajar você a ser quem você é? Se é isso – partindo do princípio que você está com um genuíno dominador – a coisa já está resolvida, já que ele vai encorajá-la a ser sempre o mais de você mesma. Talvez ajude, se você nos disser por que você deixaria de tentar ser quem você é.

A verdade é que um homem genuinamente dominador quer estar com uma mulher que é segura de si, que goste de si mesma e de sua personalidade e das coisas pelas quais nutre entusiasmo e que aprecia seu valor para si mesma e para ele ao extremo. A maioria das mulheres submissas, quando entram em um relacionamento de troca de poder, trazem consigo uma carga de mágoas e de comportamentos autodestrutivos que surgiram da dificuldade em ser uma mulher submissa num mundo convencional. Um homem genuinamente dominador vai ajudá-la a curar essas feridas de tal forma que ela possa se tornar mais forte, ser mais ela mesma ao invés de menos, ainda que ela fique a maior parte do tempo na presença de e subordinada a uma personalidade mais assertiva e segura. Qualquer homem que não ajuda sua parceira a se tornar mais o que ela mesma é não é um dominador, mas tão somente alguém louco por controle.

 

(Originalmente publicado no site www.submissivewomenspeak.net  Pendente de autorização)


4 Comentários »

  1. Curti.

    Comment por monjh — Agosto 19, 2008 @ 6:03 pm | Responder

  2. Uau
    bjs

    Comment por anammk — Agosto 25, 2008 @ 8:30 pm | Responder

  3. O livro em questão já foi publicado no Brasil? Sob qual título? O questionamento suscitado por ele me deixou pra lá de curiosa… Se tiver informações a respeito pra me dar, agradeço.

    Bjs.

    Comment por {desirre}_DM — Agosto 30, 2008 @ 1:45 pm | Responder

  4. nunca havia lido tão bem escrito um texto sobre a construção de um relacionamento D/s no que eu chamo autêntico (leia-se aqui autêntico como aquele em que acredito, por isso autêntico para mim.) não precisa ser adicionado mais nada. belo.

    Comment por cadela_G — Setembro 2, 2008 @ 3:27 am | Responder


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