Estive ontem no blog da cadela loura e vi lá uma citação bibliografica interessante, um trabalho de Bruno Dallacort Zilli que, de acordo com sua auto-descrição em seu currículo lattes, é graduado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Mestre em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS/UERJ), na área de concentração de Ciências Humanas e Saúde. Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPCIS/UERJ). Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Saúde Mental, Classificações Psiquiátricas e Sexualidade, atuando principalmente nos seguintes temas: antropologia e saúde coletiva.
Vou deixar aqui para leitura um trabalho que este pesquisador apresentou no 30º Encontro Anual da ANPOCS, 2006, Caxambu entitulado: “O perverso domesticado: da patologia à diversidade sexual num estudo sobre o discurso “BDSM” na Internet”. Acreito que seja interessante para nós perversos identificarmos como os “de fora” nos vêem e nos analisam. Será que somos vistos do modo como efetivamente somos? Pela leitura que fiz do trabalho aqui citado, penso que não.
Boa reflexão para todos.
“O perverso domesticado: da patologia à diversidade sexual num estudo sobre o discurso “BDSM” na Internet” – Bruno Dallacort Zilli
RESUMO: Este trabalho versa sobre as características do discurso de legitimação do BDSM (Bondage, Dominação, Submissão/Sadismo e Masoquismo), recolhido na Internet. Sua análise indica o papel central que a noção naturalizada do consentimento desempenha no argumento de distinção entre o BDSM e as noções tradicionais que o associam às perversões. Contudo, o BDSM aciona um ideal implícito de enamoramento ao associar consentimento à confiança, entrega e um “perder-se no outro”, que são típicos da experiência amorosa. Uma vez que os significados de amor e sexo possuem alto grau de essencialização e são repositórios das noções de individualidade, interioridade e singularidade na concepção de pessoa moderna, serão utilizadas as discussões oriundas do campo da antropologia das emoções como aporte teórico para estudar a articulação entre ideais românticos e o exercício da sexualidade sob o signo do risco.
RESUMO EXPANDIDO: Este trabalho, tema de tese de doutorado, parte de questões suscitadas a partir da dissertação de mestrado “A Perversão Domesticada”, sobre as características do discurso de legitimação do BDSM (Bondage, Dominação, Submissão/Sadismo e Masoquismo), recolhido da Internet, cuja análise indica o papel central que a noção naturalizada do consentimento desempenha no argumento de distinção entre o BDSM e as noções tradicionais que associam estes comportamentos às perversões. Contudo, o BDSM aciona um ideal implícito de enamoramento ao associar consentimento à confiança, entrega e um “perder-se no outro”, que são típicos da experiência amorosa. Uma vez que os significados de amor e sexo possuem alto grau de essencialização e são repositórios das noções de individualidade, interioridade e singularidade na concepção de pessoa moderna, serão utilizadas as discussões oriundas do campo da antropologia das emoções como aporte teórico para estudar a articulação entre ideais românticos e o exercício da sexualidade sob o signo do risco. Para acessar o discurso BDSM foi utilizado o ambiente virtual da Internet, espaço que se caracteriza pela facilidade de comunicação, a promessa do anonimato e a oportunidade de contatar indivíduos que partilham interesses em comum. Este espaço é ideal para a formação de grupos identitários como o BDSM, que criam comunidades virtuais. A própria noção de pertencimento à “rede BDSM” é reforçada através da circulação de informações sobre técnicas, conceitos e definições. É através da possibilidade que os praticantes de BDSM têm de manter contato na Internet que se veicula o discurso estudado de legitimação, descriminalização e despatologização das práticas sexuais associadas ao BDSM. As principais características do discurso BDSM analisado são: 1) a afirmação do BDSM como um conjunto de práticas de natureza sexual, ligadas a um “estilo de vida”; 2) a caracterização da necessidade de um “bem-estar” físico e psíquico, da segurança e do consentimento para praticar o BDSM; noções definidas num conceito amplamente difundido e utilizado para caracterizá-lo, chamado ‘SSC’: ou seja, um ato que é São, Seguro e Consentido; 3) a preocupação com o estigma da perversão sexual; e 4) um diálogo com a psiquiatria visando legitimação. De fato, a proposta deste discurso é estar à frente como um dos primeiros contatos de curiosos com o BDSM. O “consentimento”, que aparece neste discurso de legitimação como a justificativa central que garante que estas práticas afastem-se da identificação com atos criminosos causados por doença mental ou imoralidade, é entendido como exercício do livre-arbítrio individual e do direito de escolha em participar ou não de determinada atividade sexual. Segundo o esquema preconizado pelo discurso, é necessário que os praticantes sigam determinadas regras que buscam definir o que é aceitável e correto no que diz respeito ao BDSM. A “confiança” e o “diálogo” entre os participantes assumem, nesse sentido, papel preponderante para que possa haver o consentimento. Entende-se que todos devem estar informados não só do conteúdo, mas principalmente do significado (“uma atividade de natureza sexual que busca o prazer”) atribuído ao BDSM para que possam consentir participar dele. Por vezes, a experiência BDSM é representada como um caso comparável à experiência amorosa, principalmente nos seus aspectos de dominação e sujeição. O BDSM é retratado também como uma profunda e significativa experiência psicológica e emocional, ou mesmo espiritual. Contudo, as práticas BDSM continuam associadas, na psiquiatria e no imaginário cultural, a conotações que envolvem riscos extremos para seus adeptos, o que de fato é amplamente reconhecido e de forma alguma negado pelo discurso que visa a sua legitimação. O apaziguamento desses riscos, a “domesticação do BDSM”, centra-se justamente no seu caráter consentido, que se realiza em grande parte pela recomendação do diálogo e da presença da confiança entre os participantes como forma de superar os riscos inerentes ao envolvimento com essas práticas sexuais. Estudos na área das ciências sociais ajudam a demonstrar as implicações que as emoções e a sexualidade têm nas relações sociais. Os ideais românticos que permanecem subjacentes aos argumentos acionados pelo discurso de legitimação BDSM se ligam à noção de compartilhamento de experiências e de intimidades na esfera moral, e este grupo de sentimentos é assim acionado para “abrandar” os significados do risco associados a essas atividades, que é o que tradicionalmente lhes imputa o valor negativo. Assim, pode-se utilizá-lo como caso específico para pensar uma questão mais ampla relacionada ao risco na sociedade, analisando como uma minoria sexual e suas representações visando legitimação políticas articulam justamente a esfera das emoções para justificar-se e à suas atividades. Sendo assim, esta investigação tenta elaborar o papel dos ideais e sentimentos românticos no apaziguamento do perigo. Mas ao contrário de pensar que romantismo e risco são opostos, propõe-se que o signo do risco possa ser entendido como parte inerente da natureza da experiência romântica. E que é justamente esta gama de representações acerca destes sentimentos que um discurso como o BDSM tenta acionar para relativizar o papel da violência em suas práticas. O enamoramento vem sendo longamente representado como um “perder-se” no outro e de si mesmo, como uma “loucura” que subjuga o indivíduo ao ser amado. Em suma, como o verdadeiro oposto da razão, este atributo que é tão definidor da concepção de humano (que articula as idéias românticas). Atributo cujo “descarte” compõe a explicação para a aceitação do potencial de perigo. Em síntese, o objeto sobre o qual esta proposta de pesquisa se debruça são as representações dos sentimentos que abrandam o risco na área da sexualidade – das quais o discurso BDSM é um caso exemplar. O objetivo geral é investigar em que medida sentimentos, aparentemente ligados ao amor e ao romance, influenciam na tomada de atitudes que colocam os sujeitos em risco sexual. Este tema remete à questão sobre o valor atribuído às práticas de risco (de qualquer tipo, desde esportes radicais até consumo de drogas, passando por condutas como o BDSM) na sociedade Ocidental. Se a gama de sentimentos que o discurso BDSM apresenta se associa à experiência amorosa, esses sentimentos podem ser uma forma não apenas de expressar e de sentir, mas também para dar nome e definir as vicissitudes que o sujeito vivencia ao tomar parte de uma prática sexual marcada pelo risco. Embora o que permite ao indivíduo escolher participar de tais atividades seja o atributo “consciente” da vontade, expressa pelo consentimento, é a dimensão moral e afetiva que precisa ser acionada como mecanismo que vai permitir o exercício do livre-arbítrio. O sentimento amoroso, com sua linguagem do espiritual e do imponderável, pode ser uma maneira de dar forma aceitável e comunicável à submissão ao perigo. Se o risco é entendido como parte da experiência amorosa, o sentimento amoroso pode tornar-se um “método” para lidar com o risco na atividade sexual. A concepção de pessoa moderna é aquela que se “liberta” dos laços tradicionais da aliança, assumindo em seu lugar um discurso sobre a sexualidade e uma posição reflexiva altamente psicologizada, com um amplo discurso sobre sentimentos. Que ideais de tipo romântico sejam acionados para lidar com o risco no campo da sexualidade surge, desta forma, como uma hipótese que ajuda a esmiuçar as relações entre sexualidade, risco, sentimentos e o papel que ocupam na modernidade. A racionalidade, com todas as suas implicações jurídicas, é o atributo que rege a vida pública e as relações de poder e de autoridade reconhecidas pelos indivíduos. Submeter-se ao risco vai contra a lógica dessas relações. Portanto, o risco precisa ser elaborado por uma lógica diferente, justamente aquela lógica moral ou “psicológica” que rege as relações entre os indivíduos. Na esfera entendida como altamente individualizada e subjetivada da sexualidade, a lógica que rege o risco deve ser a das emoções. Especialmente, das emoções amorosas, que já implicam implicitamente um risco à individualidade e à razão.
Li, re-li, tri-li e cada vez que lia os trechos:
…O enamoramento vem sendo longamente representado como um “perder-se” no outro e de si mesmo, como uma “loucura” que subjuga o indivíduo ao ser amado.
O objetivo geral é investigar em que medida sentimentos, aparentemente ligados ao amor e ao romance, influenciam na tomada de atitudes que colocam os sujeitos em risco sexual…
E fiquei aqui a ruminar, de que me adiantaria ser uma sub *louca*, sim reconheco e assumo que o amor me faz ir além na entrega, mas por estar estar amando não deixo de ser racional, medida e ponderada. E o dia que um dom subjugar-se ao amor e em nome dele for irresponsavel, estara deixando de ser BDSM na forma que eu conheço.
Amar não é justificativa para spanking, agulhas, suspensão e etc e tal, pode é com certeza ter sua parcela de levar a ir além, mas praticar BDSM *simplesmente* por amor, isentar-se de conhecer o outro, isentar-s de aprender, aprofundar-se nas técnicas ISTO sim é loucura, e isto pelo meu parco conhecimentos não é BDSM.
É vero que em nome do amor muitos morreram. E isto não é dos nossos tempos, cruzadas, guerras, ficção, paginas policiais, estão repletos de Otelos e Desdemonas. Esta linha de pensamento PENSO EU, ser muito perigosa então tudo se justifica no amor?
Assim nesta perigosa linha de pensar que o amor tudo é possível, pessoas como a ex estagiara Carolina de Paula Faria dos Santos, ou Suzane Manfred. São apenas vitimas do amor irrestrito, irresponsável. Não… não sou louca. Amo… amo muito, mas este amor é racional, tanto que é racional que busco avalio bem minha entrega, numa avaliação isenta de amor, mas na minha capacidade de entregar, e na capacidade DELE de me *manipular*
Quando vejo em listas discursões se sub deve pensar ou não, se sub é burra ou não eu me resguardo no meu direito de nem ler os tópicos, não vou questionar a minha inteligência/racionalismo/sentir. Não babo sonhado que o amor tudo resolve, tudo é possível, pois no paredão do spanking a dor e bem diferente.
Devemos amar, é bom demais amar, temos tb de sermos racionais, amor verdadeiro não nós tira a razão, o pensar o refletir.
Comentário por AD_[Denise] — Outubro 5, 2008 @ 9:18 pm |